Home FilmesCríticasCatálogos Crítica | Emicida: AmarElo – É Tudo Pra Ontem

Crítica | Emicida: AmarElo – É Tudo Pra Ontem

por Rodrigo Pereira
2503 views (a partir de agosto de 2020)

As discussões acerca das virtudes e defeitos da internet são incontáveis e, infelizmente, o lado negativo parece sempre dar as caras com maior frequência por aí. Contudo, há não muito tempo atrás tive a felicidade de cruzar com a parte virtuosa das redes sociais, com pensamentos de pessoas sobre como o cantor, compositor, produtor, empresário e escritor Emicida é, também, professor. Seja através de suas músicas, entrevistas ou até mesmo de suas contas nestas redes, o artista consegue transmitir conhecimentos que, mesmo que você já saiba, trarão algum novo ensinamento devido a forma singular que o rapper interpreta os mais variados assuntos. Emicida: AmarElo – É Tudo Pra Ontem, portanto, não poderia ser qualquer coisa longe disso.

O documentário de quase 90 minutos traz os bastidores do marcante show de AmarElo, seu terceiro disco de estúdio, no Theatro Municipal de São Paulo, junto a uma verdadeira aula de história sobre a importância da população negra na construção da arte, da cidade e de tudo mais que influenciou Leandro Roque de Oliveira a se tornar Emicida. Perpassando, especialmente, os últimos 100 anos da história negra no Brasil, o filme dirigido por Fred Ouro Preto alterna entre como cada música do disco foi criada, com imagens inéditas de várias etapas da produção e recheada de grandes artistas, e narrações de Emicida tanto sobre a criação das canções quanto sobre questões históricas que influenciaram em sua concepção.

Uma das ideias mais fortes na obra gira ao redor do pertencimento. Há um momento na fita que, enquanto vemos registros históricos da época, Emicida narra sobre como as gerações de negras e negros do passado trabalharam ativamente na construção do Theatro Municipal de São Paulo e como essas pessoas foram sendo proibidas de adentrar o espaço. O Centro da capital paulista, antigamente composto em grande parte pela população negra, viu essas pessoas serem “empurradas” cada vez mais para a periferia em uma clara tentativa de embranquecimento e elitização da região. Um evidente esforço racista de limitar o acesso dessas pessoas a um importante espaço cultural que sequer existiria sem sua participação. Por isso, o cantor demonstra uma fixação tão grande em realizar seu show nesta localização. Em meio a falas sobre como familiares, amigos e conhecidos jamais pisaram no local antes daquela data, vemos diversas pessoas da plateia, majoritariamente negras e muitas em meio a lágrimas, cantando a plenos pulmões e representando o que Emicida diz sobre a importância de ocupar e sentir-se pertencente àquele espaço. Um espaço há tanto tempo proibido de maneira criminosa.

Se demonstrar a importância de ocupar os locais que foram negados integra a essência do documentário, a interessante ligação entre samba e rap, também. Dois ritmos historicamente marginalizados são mostrados como determinantes na identificação de um povo e, além de arte, uma forma de resistência em séculos diferentes. Se hoje o samba alcança todos os lugares e possui alguns dos maiores nomes de nossa música, é porque resistiu a grandes perseguições e proibições no passado (a sequência que aborda a criminalização do gênero e de seus praticantes, os enquadrando como vadiagem, explicita isso). Da mesma forma, o rap enfrentou e enfrenta os mesmos paradigmas e preconceitos de seu antecessor, fazendo com que seja visto com bons olhos há poucos anos (e ainda com uma parcela de resistência considerável). Não à toa vemos Emicida referir-se a nomes pioneiros no samba, como os Oito Batutas, como “hip-hop antes do hip-hop”. Tudo o que o rap e seus artistas passam hoje, desde o preconceito, passando pela musicalidade até o reconhecimento, é um caminho já trilhado pelo samba e com protagonismo do mesmo povo (talvez seja justamente essa experiência passada pelas gerações que possibilitam ao rap ocupar um lugar que um dia o samba ocupou).

E como se tudo isso não fosse o bastante, Emicida faz questão de pontuar o lado de movimentos sociais e intelectuais e de sua importância em todo o processo de concepção do espetáculo e de si mesmo. Provas disso são a cena com a presença de militantes do movimento negro que lutaram durante a ditadura militar sendo reverenciados por toda a plateia, tal qual referências a pensadores negros como Abdias do Nascimento, Angela Davis e Lélia Gonzalez

Produzido pela Netflix em parceria com a Laboratório Fantasma, empresa fundada por Emicida e seu irmão, Evandro Fióti, o filme faz um incrível levantamento histórico sobre a população e cultura negra nos últimos 100 anos e busca resgatar o sentimento de pertencimento e os espaços físicos negados a pessoas com tanto ou mais direito de estar ali que qualquer outro. O ditado iorubá “Exu matou um pássaro ontem com uma pedra que só jogou hoje” citado pelo músico é a representação perfeita de tudo o que o show e a película pretendem passar. A pressa é tamanha porque os problemas são antigos e a vontade de resolvê-los é enorme. Não haveria Emicida sem Lélia Gonzalez. E o de amanhã não existiria sem Emicida.

Emicida: AmarElo – É Tudo Pra Ontem — Brasil, 2020
Direção: Fred Ouro Preto
Roteiro: Toni C
Elenco: Emicida, Fernanda Montenegro, Zeca Pagodinho, Pabllo Vittar, Majur, MC Tha, Marcos Valle, Henrique Vieira, Fabiana Cozza, Ruth de Souza, Lélia Gonzalez, Wilson Simonal, Abdias do Nascimento, Angela Davis, Wilson das Neves, Leci Brandão, Mário de Andrade, Dona Ivone Lara, Beth Carvalho, Jorge Aragão
Duração: 89 min.

Você Também pode curtir

15 comentários

Cleibsom Carlos 6 de janeiro de 2021 - 18:12

Emicida, igual a tantos rappers jovens como DJONGA, DON L, KAROL KONKA, RINCON SAPIÊNCIA, etc, é o estereótipo perfeito do “negro cordial” e por isso “tem permissão” do status quo para ocupar determinados espaços…Seu discurso, apesar de não totalmente inútil, é tão inofensivo que não incomoda a elite opressora e racista, que não se vê ameaçada por “este negro dócil, amigável e confiável”. Não por acaso a NETFLIX encapou o projeto, mestra que é em divulgar “denúncias” em seus documentários que apontam efeitos e não causas, como se a natureza fosse a culpada de todas as nossas desgraças. Quero ver a NETFLIX “endossar” projetos com EDUARDO, rapper radical que prega o confronto aberto com “os inimigos”, ou mesmo o fenômeno RECAYD MOB, que não está nem aí para nada, quer mais é se divertir e encher a cara e trata as mulheres como “cachorras”, como se ainda vivêssemos na era das cavernas. Isso seria muito divertido, mas certamente nunca irá ocorrer. PS.: Me incomodou demais o fato de em AmarElo o nome de JORGE BEN, um dos maiores artistas deste país de todos os tempos, independente da cor, não ter sido citado uma vez sequer. Desconheço o motivo de tal esquecimento, mas esta foi uma falha imperdoável dos realizadores do documentário.

Responder
Rodrigo Pereira 7 de janeiro de 2021 - 09:44

Angela Davis é uma das maiores referências de radicalidade vivas no Ocidente. Declaradamente comunista e marxista, integrou os Panteras Negras e foi listada entre os 10 fugitivos mais procurados pelo FBI na década de 1970. Como citou a questão radicalidade, tenho certeza que sabe de tudo isso. Por isso, gostaria de perguntar se encaixaria Davis no “estereótipo do negro cordial”, tendo em vista que ela participa do documentário “A 13ª Emenda”, um original Netflix, e o filme “Libertem Angela Davis”, de Shola Lynch, está disponível para compra no YouTube, duas mega empresas privadas dos EUA?

E sobre Jorge Ben, não vejo motivo para considerar “falha imperdoável”. É óbvio que se trata de um dos gigantes de nossa música, assim como Martinho da Vila, Nelson Sargento, Alcione, Bezerra da Silva, Clara Nunes e tantos outros que não foram citados no documentário porque esse não era o foco do mesmo. Para ser justa, a avaliação tem que ser de acordo com o que é mostrado em tela, não o que gostaríamos de ver.

Responder
Cleibsom Carlos 7 de janeiro de 2021 - 14:12

Cara, Angela Davis passa tão rápido pelo documentário que quem piscar não a verá! O próprio Emicida sabe que sua “cordialidade” é seu tendão de aquiles com as quebradas, como sabe também que seu público majoritário é de classe média branca “antenada”. Nada contra isso, mas de tão óbvias não há como não enxergar estas obviedades, me desculpe a redundância. Emicida, talvez por uma questão de personalidade pessoal, nunca será o radical que chega chutando a porta e por isso mesmo terá “direito” a determinados acessos que um negro “mais raivoso” não teria. Seu discurso conciliatório é perfeito para o status quo, pois prega mudanças sem rupturas e sem “caça às bruxas”, e AmarElo é um retrato perfeito disso, pois até o racista mais nojento consegue vê-lo e até gostar dele, o que para mim é um contrassenso total. Quem acredita neste tipo de discurso que continue acreditando, mas para mim não é com essa “docilidade” que as coisas de fato mudarão…Quanto aos nomes relacionados por você que não foram citados no documentário, você se enganou, pois eles o foram na árvore genealógica que aparece no meio de AmarElo. Dos grandes, Jorge Ben foi o único que não teve seu nome citado em lugar nenhum, o que é estranho pois AmarElo destaca, com razão, a importância do samba rock para a música brasileira e Jorge Ben é pai e mãe do estilo.

Responder
Rodrigo Pereira 7 de janeiro de 2021 - 14:17

Engraçado que Angela Davis, mesmo com mais de uma cena, passa rápido demais pelo documentário, mas a extensa árvore genealógica, que aparece uma única vez e só é possível ler todos os nomes caso o filme seja pausado, não. Fora Davis, Lélia Gonzalez, que passa longe dessa tal “cordialidade”, é citada inúmeras vezes ao longo da obra, principalmente do segundo ato em diante. Sou super a favor da disseminação de conhecimento crítico que confronte o status quo, mas não compreendo como possa ver de forma negativa atingir o maior número de pessoas e ocupar todos os espaços possíveis.

Em tempo, ainda espero a resposta da pergunta que fiz sobre Angela Davis no comentário anterior.

Responder
Cleibsom Carlos 7 de janeiro de 2021 - 18:26

Angela Davis não se enquadra na alcunha de “negra cordial”, mas o fato de alguém citá-la em um documentário, assim como a Malcolm X, não significa que quem a está citando seja um “radical” que compactue totalmente com suas táticas de guerrilha. Emicida claramente não é “de confronto” e creio que ele se enquadre nesta situação.

YouTube e NETFLIX são mega empresas capitalistas que querem ter vinculadas a si a alcunha de “progressistas”, mas este progressivismo tem limites e se mistura na maioria das vezes perigosamente com o cinismo, porque estas empresas querem, antes de tudo, ganhar dinheiro. Dependendo do jeito que se ganha, não há mal nenhum em se ganhar muito dinheiro, e devemos ter bem claro que no fundo estas empresas estão preocupadas mesmo é com o lucro dos seus acionistas.

Não sou contra ocupar todos os espaços possíveis, mas sei muito bem que em 99% das vezes apenas “os cordiais” conseguem ocupar estes mesmos espaços. O equívoco deste raciocínio é se pensar que a mídia é “amiga”, quando na verdade só conseguimos abrir caminho nela através de muita luta. E são essas muitas lutas que abriram brechas no establishment para Emicida, bem ou mal, ocupar.

Rodrigo Pereira 7 de janeiro de 2021 - 18:26

Esse é um tipo de discussão que gosto bastante de ter na vida, mas não aqui. As questões acerca da obra e do cinema, que são o foco, já deixaram de fazer parte da conversa. Por isso, não vejo motivos para continuar. Abraços.

Cleibsom Carlos 8 de janeiro de 2021 - 11:43

Pois meu pensamento é o oposto do seu. Não há como “criticar” um filme que se pretende sério e histórico, no sentido de se dar uma versão da História, como se ele levitasse acima da vida contemporânea e devesse ser avaliado apenas enquanto “filme em si”…Creio ser impossível avaliar AmarElo sem levar em conta a história do racismo no Brasil, pois o documentário pretende dar justamente um ponto de vista desta história. Mas respeito sua opinião e achei nossa conversa muito interessante. Abraços para você também!

Gabriel Henrique 5 de janeiro de 2021 - 20:07

Nossa!

Como meu peito se encheu de alegria quando li esse texto, ainda em tempo, assisti o filme/documentário/relato/aula apenas esse final de semana (03/01/2021), só me arrependi de não ter assistido antes.

Não entendo de cinema, entendo de assistir.

Sou professor de artes, com habilitação em música, mas reconheço que a linguagem cinematográfica consegue sintetizar muito bem todas as linguagens e formas de Arte. Algo muito bem exemplificado por AmarElo.

Fiquei com uma vontade imensa de compartilhar isso com os meus alunos, (cabeça de professor nunca pára).

Completei o final de semana com Destacamento Blood e Infiltrado na Klan. Vou finalizar hoje com Menino 23.

Parabéns pela crítica e ao Emicida pelo lindo trabalho!

Responder
Rodrigo Pereira 6 de janeiro de 2021 - 15:32

Primeiramente, obrigado pelos elogios, fico muito feliz que tenha gostado da crítica! Emicida é alguém diferenciado e conseguiu levar para o cinema a mesma qualidade que apresenta há anos na música. Como fã dele, fico muito contente ao ver tantas pessoas também gostando do filme.

E sobre a dupla do Spike Lee que citaste, dois filmaços! Destacamento Blood entrou para lista de melhores do ano de vários aqui do site. Depois compartilhe conosco o que achou.

Abraços!

Responder
JC 5 de janeiro de 2021 - 20:06

Antes de falar sobre o que eu achei , só um adendozinho, o doc (eu achei, EU, EU….), que não tem a maioria negra, principalmente nos camarotes lá em cima..mas ENFIMMMMMMMMMMM

Documentário extremamente necessário!!! Eu já sou fã do Emicida a bastante tempo. Cada letra maravilhosa.
Eu vou até um pouco mais além, talvez acontece menos por causa da Pandemia, onde as pessoas sãs realmente não querem se aglomerar, senão acho que o cenário do Brasil já tava explodindo nas ruas.

Dá pra pensar super positivo e encaixar esse documentário em Brasil antes de AmarElo e Depois de.

Porquê? Pois bem, veja quem são os fãs dele, em sua grande parte (ao menos é isso que eu vejo nos shows que eu fui e nas redes sociais, mas também…estou beirando 40…qualquer um é mais jovem :P), jovens!

Eu acho que nosso futuro mais longínquo tende a melhorar muito do que essa carniça que estamos passando atualmente..seja de mentalidade, de seja de política. A galera que curte, assistindo esse documentário, acredito que recebe uma mensagem muito foda.

Bem…é o que eu realmente espero que aconteça…pra talvez as coisas mudarem um pouco pra melhor…nem que seja bem lá na frente…de algum ponto temos de re-começar.

Responder
Rodrigo Pereira 6 de janeiro de 2021 - 15:32

Que todos os deuses de todas as religiões te ouçam! É um documentário tão lindo que nos enche de esperanças por tempos melhores e menos nefastos, sem dúvidas.

Abraços!

Responder
Luiz Santiago 5 de janeiro de 2021 - 20:06

Crítica bela, crítica linda, crítica formosa!!!

Responder
Celso Ferreira 5 de janeiro de 2021 - 14:09

Excelente crítica!!!
Ficou à altura do filme/documentário
O filme/documentário é excepcional, um dos melhores já feitos pelo Brasil, senão o melhor
Emicida é incrível
Nesses tempos sombrios, ele é um sopro de sensatez

Responder
Rodrigo Pereira 5 de janeiro de 2021 - 14:11

Fico muito feliz que tenha gostado da crítica, Celso! Como o gigante que é, não esperava nada diferente vindo do Emicida. O filme é mesmo maravilhoso e um dos melhores documentários brasileiros que já vi, certamente.

Abraços!

Responder

Escreva um comentário

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Presumimos que esteja de acordo com a prática, mas você poderá eleger não permitir esse uso. Aceito Leia Mais