Crítica | Emma, de Jane Austen

Existe uma qualidade imortal em Emma, última obra de Jane Austen publicada com a autora em vida, já que ela viria a falecer em 1817, antes do lançamento de Persuasão. E essa qualidade, que sem dúvida pode ser um grande defeito, é a necessidade humana de socialização. Esse é, sem dúvida alguma, o pano bem lá de fundo que salta aos olhos ao longo da leitura dessa agradabilíssima obra que retrata de maneira simples e muito direta a sociedade britânica da primeira metade do século XIX a partir do ponto-de-vista da personagem título, uma bela e rica jovem que transita pela aristocracia do vilarejo fictício de Highbury, no interior do país.

Emma Woodhouse é a conexão central dessa rede humana que Austen costura, quase como se ela funcionasse como a versão georgiana de uma rede social moderna, infelizmente baseada muito mais em desconexões do que em conexões. Em sua jovialidade e energia, além de uma completa falta de limites, Emma, quando não está cuidando de seu pai hipocondríaco, tem como hobby e propósito de vida servir de cupido para os outros. Seu alvo da vez é Harriet Smith, bela jovem de 17 anos, de nível social inferior (politicamente incorreto hoje, mas é a base do romance, então aguentem) que Emma resolve que precisa encontrar um par já. A subserviência estabelecida entre as duas é algo que está na estrutura sócio-econômica da época e funciona tanto como uma forma de Austen trabalhar seu sofisticado humor, quanto para deixar às escâncaras o abismo social existente e, principalmente, a arrogância, o descomedimento, o orgulho exagerado da protagonista, que não só não enxerga o quanto ela pode machucar as pessoas ao seu redor, como também a ela mesma.

Austen tinha ampla consciência que sua personagem não seria agradável e facilmente relacionável e, de fato, há uma curva de desenvolvimento narrativo que se torna necessária para que o leitor comece a apreciar Emma. Sim, ela é uma menina mimada que só quer se meter na vida dos outros para impor suas vontades, mas ela, por outro lado, é desprovida de maldade, de segundas intenções, de qualquer sombra de malícia. Apesar de muito inteligente e vivaz, ela carrega uma inocência que talvez não condissesse com seu status se ela morasse em Londres ou outra cidade grande. Mas, em Highbury, há espaço para que ela seja construída da maneira como é e grande parte do terço inicial da narrativa é inteligentemente usado pela autora para deixar muito claro que, apesar de irritante, Emma é uma simpatia lá no fundo e claramente tem boas intenções.

Há, como mencionei, uma comicidade inata no texto, mas nada que fará o leitor gargalhar, mas apenas sorrir, talvez até em cumplicidade. A história, em si, é simples e é toda trabalhada em cima do conceito que abordei, com Emma costurando relações sociais da melhor forma possível, mas ironicamente sem sequer olhar para si própria, já que sua proximidade com o pai não a deixa imaginar-se casada.

Creio, porém, que o romance careça de um ritmo constante, algo que é prejudicado pelo seu tamanho. As idas e vindas de Emma, a entrada e saída de personagens, as mudanças de planos sobre Harriet e outros personagens que gravitam ao seu redor são, em muitos aspectos, redundantes. Reconheço que é necessário um tempo para que o leitor se acostume com a protagonista, especialmente nos dias atuais, mas, se o charme de Emma funcionar, bem antes da metade da leitura suas atitudes parecerão normais ou, pelo menos, justificáveis. O problema é que, a partir daí, o romance de costumes passa a correr atrás do próprio rabo, com situações sendo repetidas à exaustão sem que haja um desenvolvimento proporcional da protagonista. É evidente que tudo caminha para o amadurecimento de Emma, para sua auto-consciência – e isso não é segredo algum -, mas há uma desconexão entre o fio narrativo e a personagem, com o primeiro deixando de ter o efeito que tinha até pouco mais da metade do romance.

Mesmo com uma protagonista difícil e com repetições, Emma é um romance despretensioso, fácil e gostoso de ler, com a linguagem de Austen funcionando muito bem para transportar o leitor para esse período já longínquo sem rupturas temporais muito grandes, resultando em uma daquelas obras que podem muito facilmente ser adjetivadas como atemporais, especialmente em razão de um tema – nossa necessidade de socialização – que é eterno e constantemente abordado em nosso dia-a-dia, mesmo que indiretamente. A autora pode ter imaginado sua protagonista como desagradável, e ela até pode ser mesmo, mas Emma Woodhouse é inesquecível.

Emma (Idem, Reino Unido – 1815)
Autora: Jane Austen
Publicação no Brasil: Editora Martin Clare
Data de publicação no Brasil: 06 de agosto de 2018
Tradução: Alda Porto
Páginas: 536

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.