A influência de Homero atravessa milênios, se consolidando como o alicerce da narrativa ocidental e inspirando gerações de escritores a revisitar seus mitos. Esse fenômeno de permanência literária reflete-se na obra Eneias e Ulisses Após o Cavalo de Troia, publicada em 1992 pela editora Edicon, que busca sintetizar o legado de Homero e Virgílio para novos leitores. É tanta publicação disponível em lojas com acervos atuais e arquivos de “sebos” que selecionar as leituras se tornou uma tarefa hercúlea para quem vos escreve. Aqui, analisado brevemente o livro de Francesco Russo funciona como uma breve iniciação ao épico, condensando em apenas 46 páginas os universos da Ilíada, Odisseia e Eneida. Com ilustrações de um artista identificado apenas como Agamenon, um detalhe que flerta com o lúdico ou o anônimo, a publicação já apresenta os poetas da antiguidade de forma sucinta em suas orelhas.
Estruturado em sete capítulos, o texto é introduzido por uma epígrafe que revela a profunda paixão de Russo pela cultura europeia. Ao dedicar a obra ao neto Adriano, o autor reforça sua crença de que o entendimento do mundo clássico é fundamental para a formação intelectual, demonstrando um entusiasmo quase nostálgico por esse berço civilizatório. Francesco Russo apresenta-se como um humanista que, já no início dos anos 1990, criticava o desinteresse juvenil pela leitura em prol do consumismo. É inevitável imaginar como o autor reagiria à era atual, dominada pelo imediatismo de plataformas como o TikTok, que desafiam ainda mais a concentração exigida pela densidade dos mitos gregos.
O capítulo inicial contextualiza a trajetória pessoal de Russo, incluindo uma fotografia com seu neto e relatos de sua origem italiana. O autor narra sua vida marcada pelo ativismo sindical e pela formação em escolas públicas, se posicionando como um leitor exemplar que encontrou na literatura um caminho de ascensão e compreensão social. O prestígio do autor é validado por um prefácio repleto de depoimentos de gestores e professores. Esses profissionais da educação reforçam a utilidade pedagógica de sua obra, sugerindo que o livro servia como uma ferramenta de incentivo à leitura em um contexto escolar que buscava resgatar os valores da Antiguidade Clássica. Isso, por sua vez, lá nos anos 1990. Hoje creio que o livro não funciona bem.
Diante do exposto, para o leitor contemporâneo, a experiência pode soar enfadonha devido à fragmentação do texto. Antes da era do hiperlink, a obra se assemelha a uma colcha de retalhos narrativa indecisa que, por vezes, falha em estabelecer uma linha de raciocínio fluida para introduzir o leitor aos complexos universos de Homero e Virgílio. Após a introdução, o autor dedica-se a explicar aspectos geográficos da expansão grega, situando os mitos no mapa do Mediterrâneo. Esse esforço é essencial para que o leitor compreenda como as jornadas de Ulisses e, concomitantemente, de Eneias, foram responsáveis pela moldagem da identidade cultural das regiões por onde passaram, unindo história e ficção épica.
O livro tem alguns poucos momentos interessantes. Ao explicar curiosidades históricas e etimológicas, como a origem da expressão “calcanhar de Aquiles”, o autor também aborda, superficialmente, a fundação de colônias pelos Egeus e traz reflexões sobre a espera de Penélope e a natureza caótica das multidões, elementos que humanizam os heróis e divindades para o público leigo. Apesar desses pontos positivos, a narrativa peca por uma visão excessivamente romantizada e eurocêntrica da história. Assim como antigos livros didáticos afirmavam que Cabral “descobriu” o Brasil, Russo ignora as nuances de violência e aculturação, preferindo uma versão higienizada dos processos de colonização e expansão da Antiguidade.
Essa abordagem reflete um tempo em que o ensino de História e Literatura ainda não havia popularizado as visões decoloniais e críticas sobre os relatos históricos múltiplos. O livro, portanto, permanece preso a uma didática tradicional que prioriza a exaltação da herança clássica em detrimento de uma análise mais crua e realista dos fatos. Em linhas gerais, Eneias e Ulisses Após o Cavalo de Troia é uma leitura razoável que, embora não empolgue, cumpre o papel de documento de uma época. Para o leitor de hoje, habituado a releituras dinâmicas em quadrinhos e no cinema, a obra de Russo é um testemunho da transição entre a erudição clássica e a necessidade de novas linguagens. Um livro falho, mas de boas intenções.
Eneias e Ulisses Após o Cavalo de Troia (Brasil, 1992)
Autoria: Francesco Russo
Editora: Edicon
Páginas: 46
