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Crítica | Ensaio de Orquestra

por Luiz Santiago
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estrelas 5

Depois de realizar um pseudo-documentário sobre palhaços, refletir sobre o corpo e a alma de Roma, revisitar com simplicidade formal e nostálgica a infância, e adaptar a história de Casanova para sua visão barroca, o mestre italiano Federico Fellini adentrou a uma nova fase em sua carreira. Se observarmos os longas que se seguiram a Casanova (1976), nos depararemos com a constante presença da música e da televisão como temas centrais das obras, algo que até momento o diretor não trabalhara com prioridade.

A música, especificamente, teve um papel importantíssimo em pelo menos três, dos seis filmes que Fellini ainda dirigiria: Ensaio de OrquestraE La Nave Va e Ginger e Fred, este último, uma autorreflexão sobre a carreira e a velhice em forma de homenagem a Ginger Rogers e Fred Astaire. Nesses filmes, o cineasta adentrou ao então intocado (para ele) Universo de grande execução musical, não apenas através do brilhante uso da trilha sonora, como lhe era de hábito desde a sua primeira película, mas tornando a música o próprio objeto e objetivo fílmicos. Esta fase final da carreira do diretor também apresenta um uso e uma aplicação da música (em forma e conteúdo) bem diferentes, de obra para obra, como a sinfonia, a ópera e o balé. Aqui, abordaremos a visão felliniana para a sinfonia e a própria instituição orquestral, identificadas neste anárquico Ensaio de orquestra (1979).

Nos créditos de abertura ouvimos os muitos ruídos de uma rua movimentada. Não vemos as imagens, mas conseguimos deduzir tudo o que se passa, através dos muitos sons. Como Ensaio de Orquestra foi 100% filmado em estúdio, entendemos que se trata do trajeto dos músicos até o auditório, local do referido ensaio. Ao fim dos créditos, a luz do auditório (uma antiga capela) se acende e, em off, a voz do copista elogia a acústica do espaço e apresenta-o ao espectador, enquanto em fusões e sobreposições de imagem (resultado da notável edição de Ruggero Mastroiani), a harpa, o piano, as estantes e o próprio copista arrumando as partituras, aparecem.

Desde os primeiros minutos fica clara a presença oculta de um operador de câmera. E aí entra a coluna da história de Ensaio de Orquestra: uma rede de televisão italiana vai até o famoso e invejado auditório (segundo declaração do copista), para filmar o ensaio. O que assistimos, portanto, é um “documentário” feito para a TV, dentro do filme. Através dessa dupla visão de telas (o cinema reproduzindo um material feito para a TV), já encontramos a quebra da diegese fílmica comum. E conforme os músicos chegam para o ensaio, o operador da câmera (Federico Fellini, de quem só ouvimos a voz) os procura para falar sobre seus instrumentos, sua relação com a música e como entendem o funcionamento da orquestra.

Em meio a todo esse aparato confessional, somos saudados pelo mundo burocrático dos organizadores, do sindicato dos músicos, e pela exposição compassada das personalidades de cada um através de indicações musicais e instrumentais, como o violoncelista-sindicalista, a flautista excêntrica, a pianista devassa, a harpista frustrada, o trompetista místico, os percussionistas indiferentes e isolados, o maestro ditador. A concepção do mundo e da vida como um grande espetáculo sai dos palcos do teatro e adentra ao auditório da orquestra. Cada músico, com sua personalidade e idiossincrasias é indispensável para que o maestro consiga levar adiante o ensaio de sua obra – e isso fica evidente quando tudo deve ser interrompido porque o trompista não comparecera ao ensaio.

A visão poética de Fellini dá à vida um caráter sinfônico, e aos vivos, o cargo de músicos, cuja importância para o funcionamento ou não de toda a sociedade é indispensável. Ao maestro (Deus? A Vida?), cabe a difícil tarefa de guiar cada recomeço, a cada um dos muitos erros cometidos pelos músicos – processo que vemos se construir no próprio filme, quando a orquestra faz uma rebelião contra o maestro, tentando substituí-lo (sem sucesso) por um metrônomo gigante e, depois de uma intervenção inexplicável e externa que destrói parte do auditório e mata alguns músicos, voltam obedientemente ao comando da voz a princípio baixa e compassiva do regente que, com as novas incorreções de execução da partitura, volta a gritar com todos, como fizera antes. Um ciclo impossível de ser interrompido, posto que faz parte da “produção” para a apresentação final. O mais interessante é que Fellini não leva a orquestra para a esse momento definitivo, tudo começa e termina em um processo de criação. Como se não houvesse fim.

Fora da metáfora da vida, podemos retirar do filme os elementos críticos à sociedade e vermos uma própria homenagem à organização orquestral e aos músicos, que mesmo mediante catástrofes, prosseguem fazendo sua arte, aquilo que não morre, posto que está na alma. Ensaio de Orquestra é uma obra que se equilibra no limite do improvável. Nada do que é retratado é impossível de acontecer, mas é inquestionavelmente muito difícil, pelo menos a manifestação anárquica, a rebelião. Entretanto, certas orquestras e músicos torturam tanto os seus maestros, que é como se fizessem de fato toda a manifestação física que há no filme. Essa improbabilidade-limite, no entanto, não é nem de perto minimizadora de qualidade, exatamente porque falamos de um mundo felliniano onde o improvável impera, múltiplo de significados.

Vale também dizer que Ensaio que Orquestra é o último filme da parceria Nino Rota – Federico Fellini (iniciada com o primeiro longa-metragem do cineasta, Abismo de um Sonho, e só finalizada em Ensaio de Orquestra porque Rota faleceria logo depois do lançamento do filme). É escusado aqui ressaltar a beleza e profundidade da música do compositor neste filme. Aqui, Fellini volta o seu olhar para e consegue enxergar o complexo ciclo de funcionamento desse universo – desde a obrigatoriedade do treino até a constante busca por renovo –, mas também vislumbra a poesia da vida ligada à música produzida pelas cordas, madeiras, metais e percussão; uma música-vida que a todo o tempo deixa passar um bemol ou sustenido, avança ou retarda no tempo, não obedece ao movimento indicado nem às dinâmicas propostas pela partitura e, por isso mesmo, curva-se à voz daquele que de longe (ou às vezes, de muito perto), reconhece o menor acorde dissonante e ordena aquilo que é a grande sina do músico e do ser humano: daccapo*!

 * Daccapo: de novo, do princípio, novamente.

  • Crítica originalmente publicada em 28 de janeiro de 2014. Revisada para republicação em 24/05/2020, como parte da versão definitiva do Especial Federico Fellini aqui no Plano Crítico.

Ensaio de Orquestra (Prova d’Orchestra, Itália, Alemanha Ocidental, 1978)
Direção: Federico Fellini
Roteiro: Federico Fellino e Brunello Rondi
Elenco: Balduin Baas, Clara Colosimo, Elizabeth Labi, Ronaldo Bonacchi, Ferdinando Villella, Franco Iavarone, David Maunsell, Umberto Zuanelli, Sibyl Mostert, Andy Miller
Duração: 70min.

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