Crítica | Entre Dois Amores

Entre Dois Amores não sabe muito bem o que quer ser além de um épico que tira vantagem de uma fotografia suntuosa nas planícies africanas que David Watkin (Carruagens de Fogo) captura com vigor e de uma dupla central de atores – Meryl Streep e Robert Redford – muito à vontade no papel de casal romântico. Há uma inegável qualidade na economia de palavras no roteiro de Kurt Luedtke e David Rayfiel e um recorte histórico interessante de um período conturbado na região, mas falta algo que retire o filme de armadilhas narrativas que ele mesmo se coloca.

Inspirado na autobiografia de Karen Blixen, pseudônimo de Isak Dinesen ou, mais precisamente, da Baronesa Karen Christenze von Blixen-Finecke, da nobreza dinamarquesa, além de duas outras obras sobre ela, o longa é justamente, sem tirar nem por, o que parece ser em sua superfície: uma história de amor que é abordada ao longo de décadas. Toda a contextualização geopolítica, que coloca em destaque o colonialismo europeu na África, especificamente na região de Nairóbi, e que poderia oferecer comentários sócios-políticos e históricos relevantes e muito bem-vindos fica somente como um pano de fundo hesitante que os roteiristas não só não desenvolvem, como também, de certa forma, romantizam. Se muitos reclamam da visão fabulesca da escravidão em …E o Vento Levou, que justamente não disfarça sua pegada mais onírica que enquadra a ação, Entre Dois Amores, por colocar-se em uma proposta realista, acaba, talvez até inadvertidamente, não descarto a hipótese, mostrando o quanto o colonialismo europeu no continente africano foi “benevolente” e “ajudou” no desenvolvimento da região.

Isso fica evidente na postura de Karen perante a tribo nativa que habita suas terras e cujo trabalho ela precisa a todo custo para fazer suas culturas funcionarem. Além disso, sua insistência em “educar os selvagens analfabetos” é encarada não de forma crítica, mas sim como uma característica positiva da protagonista, o que sem dúvida alguma gera incômodos. Por outro lado, como o desenvolvimento desse aspecto da narrativa só existe para revelar a emancipação de Karen, que cresce de uma nobre mimada para uma mulher autossuficiente, esse elemento componente da história fica realmente em segundo plano.

Na verdade, se espremermos, nem mesmo a autossuficiência de Karen não é plena. Diria, até, que é longe disso. Seu grande amor, Denys (Redford), caçador branco radicado na região que ela encontra de forma intermitente ao longo de anos e com quem depois começa um caso, considerando que seu marido Bror (Klaus Maria Brandauer) passa mais tempo longe com amantes do que com ela, é a presença que dá sustentação a ela, sempre aparecendo convenientemente em momentos de crise ou funcionando com estímulo para Karen agir de forma independente, com pouco efetivamente partindo dela. Claro que a postura distante de Denys funciona muito bem para dar espaço para Karen desabrochar. Cada um deles é independente, ainda que as fagulhas da paixão e do amor interdependente sejam visíveis entre eles, algo que a química entre Streep e Redford ajuda muito em tornar crível e que Sydney Pollack extrai até o limite.

No entanto, Pollack não sabe muito bem como parar, talvez enamorado pelas belíssimas paisagens naturais que tornam o filme um colírio para os olhos. O ponto é, porém, que tudo é muito devagar e cada momento temporal abordado na produção é demorado, sem que haja um contraponto para justificar esse tipo de abordagem. Nas mais das vezes, as “viagens turísticas” pelas savanas africanas parecem destacadas da narrativa, que passa a circunscrever a natureza selvagem das locações, tentando desesperadamente encontrar seu espaço em meio a uma concorrência quase desleal. Sim, é sensacional ver Streep ser salva de um ataque de leão por um Redford absolutamente calmo e senhor de si e sim, é belíssimo ver Streep viajar milhares de milhas para encontrar seu amor em meio à guerra, mas momentos memoráveis como esses são esparsos e isso em um filme de 2h41′ é um problema.

O que resta, ao final, é um exercício técnico do mais alto gabarito que carece de verdadeira substância. É sempre um prazer ver Streep e Redford nas telas, mas não quando mesmo potentes atuações passam a ser detalhes em um filme que não consegue sair de sua superfície, mesmo quanto tem tanto para contar. Entre Dois Amores, ao entregar apenas o que o título brega em português deixa entrever, perde a oportunidade de ser um verdadeiro épico em todos os sentidos.

Entre Dois Amores (Out of Africa, EUA/Reino Unido – 1985)
Direção: Sydney Pollack
Roteiro: Kurt Luedtke, David Rayfiel (não creditado) (baseado em obras de Karen Blixen, Judith Thurman, e Errol Trzebinski)
Elenco: Meryl Streep, Robert Redford, Klaus Maria Brandauer, Michael Kitchen, Malick Bowens, Joseph Thiaka, Stephen Kinyanjui, Michael Gough, Suzanna Hamilton, Rachel Kempson, Graham Crowden, Leslie Phillips, Shane Rimmer, Mike Bugara, Job Seda, Mohammed Umar, Donal McCann, Kenneth Mason
Duração: 161 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.