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Crítica | Entre Mortes

por Ritter Fan
266 views (a partir de agosto de 2020)

Hilal Baydarov, cineasta azerbaijano, é mais conhecido por seus documentários, ainda que sua carreira na cadeira de diretor tenha começado com um filme de ficção em 2018. Entre Mortes é seu sétimo longa nesse curtíssimo espaço de tempo e seu segundo não documental, em que ele reitera seu estilo lento, contemplativo e repleto de significados, bebendo de fontes ricas como as filmografias do russo Andrei Tarkovski e do húngaro Béla Tarr. Não é sem querer que o longa seja uma co-produção com o México, tendo ninguém menos do que Carlos Reygadas por trás talvez como um guru para o jovem diretor.

O primeiro elemento a ser destacado em Entre Mortes é a beleza e o cuidado da direção de fotografia de Elshan Abbasov, que faz uso de longos planos gerais que capturam o interior do Azerbaijão tanto em sua beleza natural, quanto em sua feiura industrial, mas sempre criando frames que mereceriam ser facilmente congelados e enquadrados. O uso do espaço cênico repleto de vazio é estupendo, sendo que em diversas sequências há um leve e discreto uso de ângulo holandês que, desconfio, é mais resultado da forma como o enquadramento das sequências é feito – um pouco, quase nada descentralizado – do que da maneira usual, apenas “virando” a câmera. O efeito de estranhamento, mas ao mesmo tempo de hipnotismo do espectador, é imediato.

Há muita simetria também, mas uma simetria naturalística que faria Stanley Kubrick orgulhoso. Cada quadro de cada sequência desse road movie existencial poderia ser dividido em quadrantes perfeitos tanto nas tomadas mais amplas na estrada mesmo quanto nos interlúdios oníricos em que uma mulher de rosto coberto, uma criança e um cavalo pálido aparecem em meio à paisagens bucólicas. É como ver quadros movimentando-se lentamente, sem pressa de absolutamente nada que não seja envolver o espectador.

Quando citei Tarkovski, Tarr e Reygadas acima, não foi para assustar aqueles que porventura acham seus respectivos filmes enigmáticos demais ou repletos de um hermetismo que poderia facilmente ser considerado como pretensioso. Baydarov, diria, “quer ser Tarkovsky”, mas ele não é o sensacional diretor russo. E nem o húngaro ou mesmo o mexicano. Seu Entre Mortes é – e isso não é demérito algum, que fique claro – como um veículo de entrada a um mundo cinematográfico de mais perguntas e menos respostas, de contemplação no lugar de ação e de simbolismo no lugar de conveniência. É o perfeito filme para o espectador avesso aos chamados “filmes cabeça” desbravar esse outro mundo fascinante que existe na Sétima Arte e que é muitas vezes extremamente recompensador.

Digo isso, pois Entre Mortes não carrega nem de longe o tipo de linguagem fechada que normalmente encontramos em obras desse calado. Ao contrário, o roteiro que Baydarov co-escreveu com Rashad Safar vale-se da repetição e de uma divertida versão do coro grego para entregar uma proposta mais terrena, mais, digamos assim, digerível, algo que é ajudado pela duração bastante modesta da obra, que impede aquela natural impressão de que o filme não acaba mais.

E que repetição é essa? Bem, uma vez impulsionada a história, ou seja, a partir do momento em que o protagonista Davud (Orkhan Iskandarli) mata um capanga do que aparenta ser o chefão mafioso local conhecido apenas como Doutor (Murvat Abdulazizov) e ele foge em sua motoneta pelo interior do Azerbaijão sendo perseguido por três bandidos que querem matá-lo por ordens do Doutor, o longa entra em um loop narrativo. Cada um desses loops é formado por sequências narrativas que se iniciam como um sonho em que Davud persegue seu amor futuro, que ainda não conhece (a tal mulher com rosto escondido) seguida de um encontro com uma mulher diferente (ou não) que leva a uma morte e ao mesmo tempo a uma libertação e, finalmente, os capangas do Doutor chegando logo depois dos eventos para repeti-los ao telefone para o chefe com comentários e opiniões sobre o que testemunharam, ou seja, com o mesmo objetivo do coro grego de priscas eras. Isso acontece sucessivamente e na mesma ordem por quatro vezes e a cada vez o coro torna-se mais espantado positivamente por Davud e a cada vez Davud aproxima-se mais de seu objetivo de vida.

O artifício do coro mastiga o filme e, mesmo que ele seja inteligentemente usado com tons cômicos, inclusive com a “misteriosa” alteração do automóvel dos capangas a cada vez, devo dizer que ele acaba cansando um pouco. Os eventos catalisados por Davud – morte e libertação – se são misteriosos em natureza quando acontecem pela primeira vez ao encontrar uma menina acorrentada por seu pai há cinco anos em um celeiro, deixam de ser logo no momento seguinte e o coro acaba reiterando a mesma coisa toda vez que aparece. Mas essa mera reiteração e a repetição estrutural da narrativa que forma capítulos bem marcados (inclusive com títulos) cria uma razoável familiaridade com o espectador, o que torna o filme bem mais palatável e compreensível de imediato do que outros.

Existe uma resposta definitiva sobre o que vemos desenrolar na tela? Certamente que não. Esperar por uma é um caminho fadado ao desapontamento. Entre Mortes parece ser sobre a busca do amor e a cada parada de Davud, ele recebe amor (ou devoção), depara-se com a morte e leva à libertação das mulheres com quem conversa, mas não necessariamente por suas ações. A simbologia do abuso contra mulheres e o quanto isso ressona com seu próprio abuso verbal de sua mãe doente, mas amorosa e preocupada com ele que vemos no preâmbulo, é clara e permeia toda a narrativa, possivelmente levando-o a um caminho de expiação de pecados.

Entre Mortes consegue combinar de forma inusitada o clássico road movie de auto-descoberta e de amadurecimento com uma jornada contemplativa sobre o amor e o quanto ele pode estar bem à nossa frente sem que tenhamos capacidade de enxergá-lo ou de identificá-lo como tal. O caminho trilhado pelo jovem Davud impressiona e emociona e, no processo, a ainda iniciante, mas já marcante arte de Hilal Baydarov torna-se algo a ser observado com atenção no Cinema mundial.

Entre Mortes (Sepelenmis Ölümler Arasinda – Azerbaijão/México/EUA, 2020)
Direção: Hilal Baydarov
Roteiro: Hilal Baydarov, Rashad Safar
Elenco: Orkhan Iskandarli, Rana Asgarova, Huseyn Nasirov, Samir Abbasov, Kamran Huseynov, Maryam Naghiyeva, Kubra Shukurova, Narmin Hasanova, Oktay Namazov, Murvat Abdulazizov, Gulara Huseynova, Gulnaz Ismayilova, Parviz Isagov
Duração: 88 min.

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