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Crítica | Entre Realidades

por Michel Gutwilen
215 views (a partir de agosto de 2020)

O passado nem sempre é um lugar que queremos acessar, principalmente se ele guarda uma experiência traumática familiar. Há muitas formas tentar seguir a vida normalmente e esconder para baixo do tapete todos esses problemas. Entre elas, torna-se comum a busca por um isolamento social e por uma rotina tão protocolar que praticamente ligamos o piloto automático. Assim, a alienação parece ser o jeito mais fácil de achar um escapismo imediato. Este é o caso de Sarah (Alison Brie), que divide seu tempo em trabalhar como artesã e visitas a um estábulo, além de, nas horas vagas, assistir ao seriado fictício Purgatório (que lembra vagamente uma sátira de Supernatural) e visitar o túmulo de sua mãe.

Aliás, essa poderia ser muito bem a vida de qualquer cidadão médio: ir para seu trabalho e chegar em casa para assistir um seriado que, apesar de sua qualidade duvidosa, aliena e prende sua atenção. Todavia, há algo que diferencia Sarah das outras pessoas. Não só possui um sonambulismo que assusta sua colega de apartamento (Debby Ryan) e faz com que acorde em lugares inusitados, mas a protagonista passa a sonhar com pessoas que ela ainda irá conhecer na vida real e isso faz com que seja tomada por pensamento paranoico envolvendo clonagem e alienígenas, muito influenciado pelo programa de TV que assiste.

Obviamente, não é preciso dizer que Entre Realidades segue uma narrativa na qual ficamos tão desnorteados e confusos quanto Sarah, alternando entre a realidade e sonhos surrealistas. Seguindo o ponto de vista da protagonista, o filme tenta colocar nossa crença à prova. Estaria ela realmente sofrendo uma conspiração ou é tudo um surto psicótico por conta de sua depressão não assumida? O roteiro de Baena e da própria Brie deixa espaço para as duas interpretações, o que acaba sendo uma armadilha, já que nenhuma delas é desenvolvida bem o suficiente. Nem a metáfora para a depressão ganha mais do que uma cena de conversa com um psicólogo e nem o suspense se sustenta apenas por si só, apoiando-se constantemente em sua trilha sonora futurista que induz a ansiedade, quanto na encantadora atuação de Brie.

Falando em Alison Brie, é um mistério para mim como a atriz ainda não tenha conseguido um papel de maior destaque na carreira cinematográfica. Sua atuação em Entre Realidades é como um aperfeiçoamento de tudo que ela fez em séries como Community e GLOW até aqui, sendo principalmente uma pessoa que esbanja pureza e inocência, algo que acaba trazendo muita credibilidade para algumas situações um tanto quanto ridículas que sua personagem passa. Logo, Brie torna possível a existência de uma adulta que acredita estar vivendo dentro de um universo paralelo, o que ainda não é suficiente para impedir que várias cenas provoquem vergonha alheia, como a do cemitério ou a do banho de incenso na casa. 

Dentro desta lógica, penso até que no terço final o longa propositalmente vá perdendo sua conexão com a realidade conforme a protagonista embarca em sua loucura, mas Baena confia demais no poder imagético de seus sonhos acordados e negligencia uma maior exploração dentro da cabeça de Sarah ou das próprias informações que ele vai soltando casualmente. No fim, Entre Realidades parece ser um filme que fica no meio termo entre um episódio mal explorado de Arquivo X, uma sátira aos conspiracionistas norte-americanos e uma visão do mundo sob a ótica de alguém com problemas mentais. Uma pena que este último subtexto apenas pareça uma desculpa para que Baena brinque de tentar criar uma narrativa lyncheana, o que acaba sendo apenas genérico e sem foco definido. 

Entre Realidades (Horse Girl) – USA, 2020
Direção: Jeff Baena
Roteiro: Jeff Baena, Alison Brie
Elenco: Alison Brie, John Reynolds, Debby Ryan, Molly Shannon, John Ortiz, Jay Duplass, Robin Tunney, Paul Reiser
Duração: 104 min.

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11 comentários

JC 9 de março de 2020 - 22:40

Também fiquei meio assim ….o filme não se define.
Não toma forma de nenhum lado
Aí acaba sendo viagem só por ser.

Poxa, tinha tudo pra ser fodao 🙂

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Stef 22 de fevereiro de 2020 - 02:51

Sou estudante de Psicologia do 9º período. Acabei de ver o filme agora e tudo indica que o mesmo se trata sobre identidade. Melhor, a busca de uma identidade dentro da psicose. A construção delirante nada mais é que uma forma do psicótico elaborar a realidade. Tire isso de um psicótico e você o desestrutura, como o que queriam fazer na clínica com a personagem principal. Jamais digam a um psicótico que o que ele sente não é verdade. A psicose é demarcada principalmente por alucinações (auditivas, e não visuais como mostram filmes com exemplos ruins sobre psicose como Uma Mente Brilhante) e delírios. As vozes e ideias sempre possuem origem externa, diferente de um neurótico obsessivo que sofre de pensamentos absurdos, mas que sabe que são dele. No caso da personagem principal, as vozes são de origem externa, logo trata-se sim de uma psicose, mas não necessariamente uma psicose com diagnóstico de esquizofrenia, ali no caso podem tem inúmeras comorbidades. O mais interessante que pude observar durante o filme é o desfecho com ela assumindo uma identidade pronta (da avó) e o alívio que isso despertou na personagem. Algo no qual, muitos hoje em dia fazem sem mesmo perceber (assumir uma identidade pronta). É muito angustiante ser si mesmo, pois para isso, é ter de mergulhar no grande oceano que cada um de nós é, e muitos não querem descobrir o quão profundo é seu próprio oceano, isso assusta e o mais assustador é o medo de enlouquecer, o medo da devira, o medo de tudo pode, pois sou um ser humano e estou livre pra escolher a qualquer hora. A verdade é que ninguém aguenta ser tão livre, alguém precisa nos dizer o que fazer. Liberdade causa angústia sim, basta simplesmente, como um exemplo bobo, tentar escolher um título pra assistir na Netflix para experienciar essa angústia. E assumir uma identidade pronta é a melhor ilusão apaziguadora que um ser humano que sofre de liberdade pode escolher, principalmente um ser humano que já possui uma condição pré existente que torna o lidar interno com a realidade insustentável. Afinal, esse mundo que vivemos definitivamente não é para psicóticos, e sim para nós sofridos neuróticos.

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JC 9 de março de 2020 - 22:40

Eu falo isso direto…..eu citava uma música do Raça Negra:
” Eu não sei o que fazer com essa tal liberdade ….”

Por isso (e outras ) coisas temos jovens pedindo fim da Democracia e a volta da ditadura. O mundo tá tão livre que ficam perdidos .

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Michel Gutwilen 15 de maio de 2020 - 11:56

Belíssima interpretação do filme e uma visão muito interessante de alguém do campo da psicologia. Obrigado pelo relato, abs.

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Rafaela Lopes dos Santos Melo 20 de fevereiro de 2020 - 08:18

O filme não mostra nada de mais, é só pesquisar no Google os sintomas da esquizofrenia, são os mesmos da personagem sem tirar nem por.

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Michel Gutwilen 21 de fevereiro de 2020 - 00:04

Aí eu já discordo. De fato ela possui alguns dos sintomas, mas como você disse “sem tirar nem por”, eu discordo, pois vários sintomas da esquizofrenia ela sequer demonstrou, como dificuldade no aprendizado, pouca vontade de trabalhar (pelo contrário). Eu não sei exatamente qual seria o transtorno mental que o filme quer falar sobre, nem sou psiquiatra ou médico e por isso preferi não ir no chutômetro aqui na crítica e deixar mais em aberto, hehehe.

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Rafaela Lopes dos Santos Melo 21 de fevereiro de 2020 - 11:31

Não necessariamente. Uma pessoa que tem predisposição genética pode viver anos sem ter qualquer um desses sintomas, ela pode se formar, ser bem sucedida e de repente “a doença bate a porta”.

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Victor Martins 18 de fevereiro de 2020 - 12:43

Acho que as vezes menos é mais. O filme é um amontoado de boas ideias sem um foco definido.
Me lembrou Personal Shopper pela forma como ele brinca com os pontos de vistas da personagem principal e do público, só que o Assayas trabalha bem melhor esse aspecto sem parecer algo puramente estético.

Alison Brie é ótima atriz mesmo, deu pra ver que estava bem empenhada nesse papel

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Michel Gutwilen 18 de fevereiro de 2020 - 20:01

Também acho que seja um problema. Personal Shopper é um filmaço. Este aqui, acho apenas medíocre. Vamos torcer por papéis melhores para Brie.

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Cahê Gündel 🇦🇹 18 de fevereiro de 2020 - 12:38

Poxa, tava com expectativas pra esse filme, realmente pensei que fosse algo lyncheano. Vou evitar.

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Michel Gutwilen 18 de fevereiro de 2020 - 20:01

Olha, as sequências absurdistas podem ser até minimamente interessantes visualmente. Mas nada além disso, ao meu ver.

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