Crítica | Entre Rios (2009)

No processo de desenvolvimento de trabalhos conclusivos em cursos técnicos e de graduação, a exposição e defesa de uma tese por meios de documentários é uma proposta eficaz não apenas para a veiculação das ideias em busca da obtenção de um título acadêmico/profissional, mas também um portifólio que se desdobra com mais fluidez nas diversas mídias informativas que tecem a informação em nossa malha social contemporânea. As contradições da urbanização no Brasil, a educação para o trânsito e a mobilidade urbana são alguns dos temas que encontram nestas produções o material ideal para conscientização em nossa sociedade cada vez mais mergulhada no caos da falta de habilidade dos seres humanos em gerir os recursos naturais e conservar o mínimo das estruturas para a sobrevivência de nossa espécie.

Entre Rios, dirigido e narrado por Caio Ferraz, produzido pelo Coletivo Madeira, engloba esse feixe de produção que aproveita o ensejo acadêmico para traçar o percurso histórico da urbanização em São Paulo e a consequente destruição de riquezas naturais, tudo em prol de transformar a capital paulista numa versão de Chicago, isto é, o complexo de vira-lata que nos acompanha desde as bases de formação da nossa nação como um todo. Tendo como orientação, o trabalho da professora Helena Werneck, o documentário traz diversos depoimentos captados pela câmera de Gabriel Correia, envoltos pelas animações didáticas de Lucas Barreto, exposições que devo dizer, não se prendem aos requisitos estéticos da cultura do entretenimento.

O documentário tem todo o seu valor no resgate de dados históricos e na edição orgânica de imagens que mesclam audiovisual e fotografias, todas com suporte da narração firme de Caio Ferraz. A preocupação com a visualidade é básica, com enquadramentos comuns aos padrões das cabeças-falantes dos documentários, com a legenda do expositor de ideias e um fundo que faça alguma relação com a sua presença em cena, isto é, uma estante, um escritório ou uma biblioteca como plano de fundo. Tudo isso, por sua vez, não desmerece o trabalho dos realizadores de Entre Rios, produção que evita colagem de imagens da internet e conduz o seu discurso na criação de uma linguagem própria, mesmo que precária.

No quesito temático, o que encontramos enquanto espectadores do documentário é uma abordagem de como canalizações, aterragens e reificações prejudicaram o curso de rios abundantes no desenvolvimento de São Paulo, em sua mudança de status de vila para uma das maiores metrópoles do planeta. Tornar-se grande centro urbano foi um processo custoso para os paulistas no que tange aos elementos naturais devastados pelos interesses das elites econômicas da época. O que era o espaço das águas se transformou no reduto dos carros. Os gestores do passado, em busca de um plano de modernização que dialogasse com o que a elite viajante contemplava nos países da Europa, falavam a linguagem dos empreendedores.

Um plano geral abre a narrativa, seguido de trechos breves, como num videoclipe, com chuva, sol, prédios e ruas da capital paulista. Logo mais, as celeumas: buracos na pista, vazamentos, bueiros entupidos, ruas alagadas, lixo, esgoto e bastante sujeira. O narrador nos pergunta se estamos enxergando um rio. Depois, questiona se conseguimos ver a colina. De fato, não contemplamos nada disso, pois o que nos é ofertado é um enquadramento fixo de um ponto específico da cidade, seguido de um fade que nos mostra como aquele espaço era no passado. Graças ao advento da fotografia, algumas imagens registraram o passado e permitiram o contraste entre o panorama atual e o que tínhamos quando as reformas urbanas começaram.

Assim, somos informados como os rios Tietê e Tamanduateí foram delineados, reajustados para se tornarem grandes repositórios para detritos humanos de uma sociedade que crescia cada vez mais. O chamado “urbanismo rodoviarista”, tão discutido hoje nos debates sobre mobilidade urbana promoveu a “chacina” da natureza que hoje nos retorna com respostas de nossas próprias ações ou concordância com estratégias de gestão do passado que se desdobram no presente, como bem aponta um depoimento que diz claramente: “nós inventamos as enchentes”, afinal, “elas são produto de nossa urbanização”. Alguma mentira? Não. O mesmo podemos dizer da especulação imobiliária, bastante agressiva no Brasil, seara da economia que não se importa com os impactos quando os resultados financeiros são imediatos.

As propostas de intervenção, algo já esperado em documentários desta linha, reforçam a necessidade de redesenho urbanístico na capital paulista, algo que pode ser pensado para outros redutos brasileiros, pois a cidade reflete a mesma situação de outras tantas capitais que passaram e ainda são demarcadas por gestões e cidadãos inconsequentes diante do espaço geográfico que os circundam. A dúvida que gravita ao final é em relação ao tal redesenho? Depois de tanta destruição, ainda há algo que precisa ser salvo? Os desdobramentos da má gestão de recursos já são visíveis na contemporaneidade, mas os realizadores acreditam que ainda podemos diminuir um pouco os estragos do que ainda é devir da natureza desregulada. Repensar o carro como única via de mobilidade é um dos caminhos, além da reflexão acerca do tratamento de nossos esgotos.

A demanda é gigantesca, há muitas pessoas engajadas na mudança. Realizações como Entre Rios, importante ressaltar, ajudam no processo de conscientização. Basta saber quando as pessoas de fato vão exercitar as suas respectivas cidadanias e partir para algo além do conhecimento acerca do documentário, de sua postagem nas redes sociais, etc. Ao longo de seus 25 minutos, a produção nos apresenta, por meio de depoimentos autenticados de geógrafos, historiadores, engenheiros e arquitetos, o que de errado foi feito e o que é preciso acertar, afinal, quando a chuva tomar mais vezes capitais como São Paulo, será preciso se perguntar de quem é a culpa neste processo de extorsão da natureza em prol do lucro desigual que trou17xe vantagens apenas para uma reduzida parcela da população.

Entre Rios — (Brasil, 2009)
Direção: Caio Ferraz
Roteiro: Caio Ferraz
Elenco: Caio Silva Ferraz, Luana de Abreu, Joana Scarpelini
Duração: 25 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.