Crítica | Entrevista Com o Vampiro, de Anne Rice (1976)

estrelas 4,5

Entrevista Com o Vampiro (1976) foi o primeiro romance de Anne Rice, cuja ideia inicial veio de um conto seu escrito alguns anos antes. Ele inaugura uma série de publicações da escritora chamada de Crônicas Vampirescas, que conta a história de importantes vampiros dentro da mitologia germinada aqui em Entrevista, uma saga descontínua mas ao mesmo tempo ligada pela longa idade desses seres das trevas e pela forma como a autora encadeou a sequência (ou antecedência) dos fatos em cada livro.

O vampiro cuja história é explorada em Entrevista chama-se Louis de Pointe du Lac, nascido na França, em 1766, mas com sua família estabelecida em Nova Orleans (EUA) quando sua morte e transformação em vampiro acontece pelas veias e presas de Lestat. Ao longo do livro, vemos Louis encontrar vampiros como Armand, Santiago, Estelle e, claro, realizar uma longa jornada ao lado da pequena Cláudia e passar um curto tempo ao lado de Madeleine. São muitos personagens, lugares e um largo espaço de tempo percorrido, todos os ingredientes que, em mãos descuidadas, poderia gerar uma história forçada e confusa. Mas isso nem de longe é uma realidade para este livro.

O que mais chama a atenção no volume é a construção textual e a potência da história, ambas trabalhadas meticulosamente pela escritora. Façamos aqui uma breve comparação (que até pode ser ingrata, mas vai servir bem ao meu propósito). Se você leu Drácula, certamente sabe que a história, apesar de mexer profundamente com seu imaginário é, em praticamente todo o livro, insossa. Os relatos de Jonathan Harker só não enfadam o leitor porque a natureza do que exploram é excelente. Ou seja, a estrutura de Drácula é parcialmente chocha (os diários) e a trama é parcialmente brilhante (Drácula e todo o imaginário vampiresco). Consideremos aí a escola literária e época histórica de Bram Stoker e então teremos UM estilo de narrativa para vampiros. Agora avancemos no tempo até Anne Rice. E o que temos?

A rigor, a construção do texto da americana deveria ser uma chatice sem tamanho, porque o fio da meada é, de fato, uma entrevista. Mas observe que, diferente de Stoker, ela vai modulando a estrutura textual a cada “mini crônica” que se passa na vida de Louis. No início, há uma apresentação inteligente dos dois homens que dialogam. Um deles, um vampiro; o outro, chamado apenas de “o rapaz” (e que em A Rainha dos Condenados seria revelado como Daniel Molloy). O título do livro tem sua imediata justificativa a partir do que se segue no início da Parte 1. Louis resolve dar uma entrevista ao rapaz. Há medo da parte do humano e tentativas de demonstrar confiança da parte do vampiro. Mas aos poucos esse diálogo é deixado para trás e somos engolidos pela história, especialmente após a fuga de Louis e Cláudia para a Europa.

Com esse modelo plural de guiar o leitor — que é coroado no final com diversas páginas cheias de alucinações, devaneios catatônicos e clara discussão sobre a “outra” maldição do vampiro que é, se não interrompido, viver para sempre –, Anne Rice consegue nos apresentar a pelo menos duas grandes realidades vampirescas (individual e organização em sociedade), além de trazer inúmeros elementos filosóficos, psicológicos, sexuais e sentimentais à tona, algo que, só para voltar mais uma vez ao ingrato exemplo que usei anteriormente, a época e proposta da literatura de Stoker não permitia, à exceção da libido, mas no caso dele, exposta de forma menos “agressiva” do que a que temos em Entrevista com o Vampiro.

Sem maneirismos sentimentais que atrapalhem o desenvolvimento da história, com excelente criação de atmosferas e “eventos” (a visita de Louis e Cláudia à Romênia, todo o largo período sobre o Teatro dos Vampiros e a chocante narração final sobre o estado de Lestat são pontos de vista ou mentiras de Louis que marcam profundamente o leitor) e com um final perfeitamente aberto, sem deixar muito para a imaginação solta do leitor mas abrindo as portas certas de possibilidades, Anne Rice cria em Entrevista com o Vampiro um excelente caminho para a construção do nosso imaginário (digo, século XX e XXI) sobre vampiros.

Da religião à filosofia; da complexa visão do desejo sexual ou afetivo do vampiro (o momento em que o rapaz encostando-se rijo na coxa de Louis, que se sentiu excitado, mas depois desconversou para seu entrevistador, dizendo que “aquele” não era o tipo de amor que os vampiros sentiam, se bem que, ainda segundo ele, “qualquer envolvimento íntimo com Armand não seria repugnante“) até o peso dos anos e da consciência na vida de um ser das trevas — a construção do personagem Louis é para se aplaudir de pé –, tudo em Entrevista funciona muito bem em termos narrativos. Há algum incômodo em relação ao início do livro, que demora um pouco para engatar, mas isso é tudo. A leitura é uma aventura deliciosa, sanguinolenta e cheia de mortos e feridos. Como na vida real, só que pintada com um vermelho bem mais forte.

Entrevista Com o Vampiro (Interview with the Vampire) — EUA, 1976
Autor: Anne Rice
Tradução: Clarice Lispector
Lançamento no Brasil: Editora Rocco
334 páginas

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.