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Crítica | Epidemia (1995)

por Leonardo Campos
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Os filmes sobre epidemias, pandemias e surtos são sempre rentáveis no sistema de produção hollywoodiano, haja vista a possibilidade de abordagem num amplo feixe de gêneros do cinema, isto é, ação, aventura, terror, suspense, ficção-científica, etc. Tudo junto ou misturado, ou então, dentro de compartimentos. Epidemia é um dos filmes mais citados quando há o interesse de retratar microbiologia e suas peculiaridades no bojo de nossa sociedade. Há investigação científica, debates políticos e reflexões sobre o comportamento humano, elevado aos extremos para dar conta das demandas de entretenimento. No entanto, mesmo ainda sendo uma referência ilustrativa, a produção demonstra o seu envelhecimento quando analisada duas décadas depois de lançado, um filme que não goza dos privilégios de dramas como E A Vida Continua, mais antigo e ainda assim relevante em sua abordagem do HIV nos anos 1980.

Diante do exposto, Epidemia pode ser considerado um filme que funciona enquanto entretenimento para quem gosta de filmes de aventura e ação, mas não se importam com a duração longa demais, afinal, é preciso considerar que os 128 minutos de narrativa poderiam ser reduzidos para evitar os danos dramáticos que serão apresentados nesta reflexão. Sob a direção de Wolfgang Petersen, cineasta guiado pelo roteiro de Laurence Dworet, texto inspirado no livro Vírus, de Robert Ray Pool, a produção nos apresenta a trajetória de personagens envoltos numa preocupante disseminação do vírus ebola, situação que foi obscurecida pelo governo dos Estados Unidos durante bastante tempo, tendo como missão evitar o pânico social diante de uma notícia tão alarmante, além da necessidade dos representantes da nação em esconder uma realidade que reforçaria a fraqueza de qualquer território geográfico mundial diante do cenário diante dos deslocamentos cada vez mais frenéticos da atual era da globalização.

Como abordado posteriormente em filmes do tipo, dentre eles, Contágio, Invasores e A Gripe, viaja-se mais na contemporaneidade, mudanças que trouxeram reestruturações ao longo da nossa história, com benefícios para campos como a economia e a cultura, mas também uma preocupação extra para a disseminação de micro-organismos responsáveis por causar estragos em nossas sociedades. O que poderia ser um surto ou epidemia hoje torna-se pandêmico com maior facilidade. São as contradições da modernidade, basta olhar a atual crise panorâmica mundial diante do covid-19 (corona vírus), assunto mais “badalado” da mídia nos primeiros meses de 2020. No desenvolvimento de Epidemia, os problemas começam em Motaba, no Zaire, e depois, chegam a uma pequena cidade fictícia dos Estados Unidos.

O Coronel Sam Daniels (Dustin Hoffman) lidera o grupo de interessados em resolver a crise. Ele recebe o apoio de Dra. Roberta Keough (Rene Russo), sua ex-companheira, algumas ordens do General Billy Ford (Morgan Freeman), tendo como antagonista o General Donald McClintack (Donald Sutherland), homem que encarna uma versão turbinada de Hitler com traços intelectuais de um bendito representante político do país com maior extensão territorial na América do Sul. Sam Daniels lidera uma equipe engajada, mas que em seus eventuais despreparos e ações errôneas, tornam didático como proceder e o que deve ser evitado entre pessoas que exercem funções de ampla responsabilidade no terreno da microbiologia. O Tenente Casey Schuler (Kevin Spacey) paga um preço bem alto por não seguir devidamente todos os protocolos necessários, risco também presente nas ações do inexperiente Major Salt (Cuba Gooding Jr.), dono de algumas passagens comportamentais irritantes (mas propositalmente pedagógicas).

Com esse mote, o filme especula como os civis, juntamente com as agências militares, propagariam uma doença perigosa como parte de um esquema geopolítico. Isso associado ao roteiro estrutural de um filme pandêmico, com a eventual contaminação, pesquisa, descoberta e luta para contenção. Na trama, o ebola é mais potente, com prazo de 24 horas para a morte da pessoa contaminada. Há uma constante busca por elaboração da vacina que pretende erradicar a crise sistêmica que se estabelece em Cedar Creek, a cidade fictícia desta produção nada empolgante e bastante convencional. Para ampliar os horizontes narrativos, temos também o relacionamento amoroso entre personagens de Hoffman e Russo, pouco convincente e nada envolvente. Com seus tanques de guerra e helicópteros para todo lado, Epidemia é menos um filme sobre pesquisa e ciência e mais uma aventura de guerra com muita explosão e conflitos de poder entre membros internos da seara militar ilustrada na narrativa.

Não há problemas estéticos em sua construção narrativa. A trilha sonora de James Newton faz o seu trabalho, sem grandes expressões artísticas, mas ao menos cumpre o papel de acompanhar as cenas que mesclam drama, ação e alguma dose de suspense, ineficiente, cabe ressaltar. Os figurinos de Erica E. Phillips trajam os seus personagens de acordo com as suas dimensões físicas, sociais e psicológicas, em especial, nos momentos de análise de amostras microbiológicas, com o elenco paramentado pelo visual que reforça o extremismo da situação humana naquele momento epidêmico, com micro-organismos a ceifar vidas, numa demonstração da impotência dos seres humanos diante de algo tão pequeno, mas devastador. Contemplados pelos ângulos da direção de fotografia de Michael Ballhaus, os protagonistas são alçados ao posto de heróis da nação, enquanto as vítimas são radiografadas em seus momentos de fraqueza e entrega ao caos sem volta de uma contaminação que ainda era desconhecida pela sociedade.

Sobre Epidemia ser ou não vinculado ao realismo, vamos combinar que na seara do entretenimento, algumas liberdades precisam ser tomadas para que a narrativa funcione. As elipses aceleram prazos de vacinas e outros resultados de investigações científicas, o vírus se oferta aos espectadores como uma ameaça bem maior do que seria numa manifestação real do que é apresentado em cena, os personagens agem de maneira a captar o público, etc. Por isso, assistir à produção como uma ilustração do caos social de uma epidemia é o caminho mais indicado, pois nem os documentários estão mais dentro dessa garantia de abordagem fidedigna de uma situação extraída da nossa realidade. É nessa hora que nós confirmamos os postulados da estética da recepção e nos colocamos como sujeitos ativos da nossa interação com os produtos consumidos nas dinâmicas cotidianas de entretenimento.

Epidemia (Outbreak) — Estados Unidos, 1995
Direção: Wolfgang Petersen
Roteiro: Laurence Dworet, Robert Roy Pool
Elenco: Cuba Gooding Jr., Donald Sutherland, Dustin Hoffman, Kevin Spacey, Morgan Freeman, Patrick Dempsey, Rene Russo
Duração: 127 min.

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