Crítica | Era Uma Vez em… Hollywood (Com Spoilers)

O lançamento de um filme novo de Quentin Tarantino não é um lançamento comum já há muito tempo. O diretor estabeleceu-se com força no firmamento de cineastas americanos vivos que chamam atenção naturalmente para qualquer projeto em que embarca, mesmo que ele, no final das contas, acabe desapontando (o que, no meu livro, nunca aconteceu de verdade). Nesse diapasão, Era Uma Vez em… Hollywood era um dos mais aguardados lançamentos de 2019 e sua chegada merece dos espectadores o mesmo tipo de solenidade cinéfila que o diretor tem pela Sétima Arte.

E, como tentamos fazer com toda obra de relevo que entra em circuito cinematográfico, o 10º longa de Tarantino (9º pela contagem dele), ganhou tratamento vip aqui no site, com uma crítica sem spoilers e outra com spoilers, esta normalmente mais longa e mais detalhada justamente por não ter as restrições impostas pela manutenção de segredos. Mas, talvez como um corolário do parágrafo acima, a presente crítica com spoilers é particularmente especial, já que este crítico inocentemente indagou de seu colega Luiz Santiago se ele já tinha visto o filme e o que tinha achado. Diferente do que eu chamo de “resposta civilizada”, o sujeito, claramente feliz como pinto no lixo ou talvez com o objetivo de não deixar dúvidas de que ficou chateado por eu ter pego a crítica com spoilers, respondeu-me com um arrazoado imenso e excelente, apesar da natural informalidade, claro, e, ainda por cima, quase que integralmente convergente com o meu raciocínio (o que não é lá muita surpresa, já que nós dois somos os únicos críticos do site que colocaram Os Oito Odiados em 1º lugar em nossos ranqueamentos pessoais da filmografia do Tarantino).

O resultado? Só poderia ser um: incorporei o texto dele no meu sem pedir autorização do “respondão” e o que vocês lerão abaixo é uma amálgama frankensteiniana de duas análises que não foram feitas para serem costuradas desse jeito, mas que foram de toda forma. Deixei identificado, porém, com cor diferente, tudo aquilo que foi pinçado diretamente da surrealmente longa resposta completa de um crítico que não sabe que bastava um “gostei muito” para que minha curiosidade fosse saciada, valendo dizer que aproveitei algo como 90% do que ele escreveu, sem sequer trocar palavras para adequações aqui e ali.

Feitas as ressalvas, vamos então à crítica.

A Época da Inocência

Se olharmos com cuidado para a breve, mas brilhante filmografia de Quentin Tarantino, perceberemos um e apenas um tema em comum a todas as suas obras: o Cinema. Ao mesmo tempo, se começarmos a decupar cada um de seus exemplares, notaremos as maneiras diferentes que ele aborda esse seu tema. A mais comum delas é a amálgama de filmes anteriores, com resultados únicos e com a “cara” do cineasta. Nessa categoria estão mais diretamente Cães de Aluguel, Pulp Fiction – Tempo de Violência e os dois Kill Bill.

Depois, há as grandes homenagens a períodos ou estilos cinematográficos específicos. Jackie Brown é Tarantino fazendo o blaxploitation setentista renascer em plenos anos 90, À Prova de Morte é puro trash sofisticado na linha de “filme de perseguição automobilística” concebido para ser parte de um lançamento estilo Grindhouse e Django Livre é seu western revisionista mitológico. Bastardos Inglórios até parece um filme de guerra, mas é, na verdade, uma obra que tem o Cinema como alicerce, com um título que vem da versão americana do título de um filme italiano, um crítico soldado, uma espiã atriz, um soldado ator e uma judia disfarçada de dona de um cinema que será o palco de estreia de um grande lançamento da UFA de Goebbels.

Ambiciosamente, Os Oito Odiados foi uma produção concebida para ser degustada como um épico cinematográfico dos anos 50 e 60, da escolha das câmeras, das lentes, do filme, passando pela estrutura cênica que perverte as construções do gênero e resultando em um filme sobre a arte de se fazer um filme que por acaso também é um faroeste, só que de suspense ou mistério. Era Uma Vez em… Hollywood é outro tipo de homenagem, não a um filme, não a um estilo, não a um jeito de se fazer filme, mas sim a um lugar mítico, de conto de fadas, que capturava e ainda captura as imaginações de milhões ao redor do mundo: Hollywood. Mas não uma Hollywood qualquer e sim a Hollywood específica do final dos anos 60, a última década que pode fazer jus ao adjetivo “inocente” para um lugar que nunca, em momento algum da História, foi realmente inocente.

Tarantino mostra-se muito nostálgico aqui, apresentando não a Hollywood que era de fato, mas sim a Hollywood como ela era – e ainda é, de certa forma – percebida: alegre, ensolarada, colorida, repleta de artistas lindos andando para lá e para cá e morando em mansões inacreditáveis. Ou seja, um paraíso do Cinema para onde todos os olhares esperançosos se viravam. Essa percepção otimista, inocente mesmo, não é uma invenção e muito menos algo tirado da cartola. É fato. A aura da Hollywood dos anos 50 e 60 era mesmo bem diferente da que passaria a ter da década de 70 em diante, com o pessimismo vindo à cavalo com crises como a da Guerra do Vietnã e o escândalo de Watergate. E é isso que Tarantino quer capturar com suas lentes, usando fatos reais como seu ponto de virada, para marcar a perda de inocência e, de quebra, como artifício narrativo para criar tensão em sua obra de quase três horas de duração.

É, porém, uma obra madura pra caramba, com o Tarantino fazendo com perfeição aquilo que só os diretores realmente grandes conseguem fazer: colocar a câmera no lugar certo e movimentá-la para o lugar certo. O que a gente vê na tela é puro cinema, no sentido de que cada imagem, cada cena ou sequência é a coisa mais cênica possível, uma pose, um recorte-imitação da realidade sem vergonha nenhuma de mostrar que é representação cinematográfica. E isso é encantador, poque é um filme sobre o fim de um período (de um espírito geral) em Hollywood, representado da maneira mais sonhadora possível. É cinema puro, evocativo e isso só um diretor que realmente domina seu ofício saberia fazer.

Cinzas no Paraíso

Todo bom conto de fadas é assustador em sua essência e o evento que assombra e que ameaça o paraíso da Hollywood de Tarantino é o famoso e terrível assassinato a facadas de Sharon Tate, então esposa de Roman Polanski e grávida de oito meses e meio, e quatro de seus amigos, em sua mansão em Los Angeles, em 09 de de agosto de 1969, por um grupo de hippies membros de um culto comandado pelo ainda assustador Charles Manson, que faleceu na prisão aos 83 anos em 2017. Esse é o momento que o diretor e roteirista entende como sendo o fim dessa Hollywood mítica, de sonho.

Sharon Tate era uma atriz em ascensão, conhecida por uma beleza etérea estonteante, quase que literalmente encarnando tudo de bom que Hollywood tinha a oferecer. No filme, ela é utilizada não como uma personagem com um arco evolutivo definido, mas sim como um literal símbolo, razão pela qual Margot Robbie aparece tão pouco e tem tão poucas falas, algo que enraiveceu aqueles que, sem entender nada e por qualquer razão, já vão para a Internet regurgitar bobagens. A atriz, nesse sentido, está perfeita em seu papel de inocência de olhos esbugalhados, de sorriso aberto e franco, de felicidade contagiante, de movimentos hipnotizantes.

O risco que Tarantino correu foi grande, porém. A história de Sharon Tate é conhecida, sem dúvida, mas não tanto assim, e o roteiro não se preocupa em explicar absolutamente nada, jamais dando a entender que a narrativa “paralela” que a envolve, assim como um barbudo misterioso que aparece em sua casa por alguns segundos e todos os “ripongas” que fazem parte da família Manson, é baseada em fatos reais. O diretor, mais do que em qualquer outro filme seu, exige um conhecimento prévio e exógeno à sua obra para que ela seja apreciada completamente.

Diferente da aparição de Steve McQueen (Damian Lewis assustadoramente idêntico ao saudoso ator em uma significativa ponta de um minuto), do uso de Bruce Lee (Mike Moh) na narrativa, do próprio Polanski (Rafal Zawierucha) e das centenas de outras referências cinematográficas que enriquecem, mas não são diretamente da essência da história sendo contada, o assassinato de Sharon Tate é e ele, para alguém que nunca ouviu falar no caso, parece algo distante – sim, causa tensão em seu nível mais basal, mas não é a mesma coisa – e perdido, pelo que vejo ousadia em Tarantino em simplesmente partir da premissa que as pessoas entenderão as implicações do que estão vendo.

Mas o caso Sharon Tate não é a única mancha que contamina – ou ameaça contaminar – a Hollywood do “era uma vez…”. Tarantino, apesar de criar um retrato quase que completamente romântico dessa era, mais ou menos como efetivamente conhecemos diversos contos de fadas, ou seja, as versões “higienizadas” dos originais, ele mostra que já havia uma doença se espalhando, doença essa endógena e da origem do sistema que, como já disse, nunca foi inocente. De soslaio, ele usa a “riponga” Pussycat (Margaret Qualley) e sua quase-relação com Cliff Booth (Brad Pitt) para explorar a sujeira que ninguém, até pouco tempo, queria ver sobre a Hollywood que só agora é do #metoo. O comentário sobre o próprio Polanski vindo de McQueen em sua micro-participação é suficiente para deixar claro o problema, ainda que haja uma ambivalência interessante quando Cliff brinca com a “necessidade” de se pedir identidade para transar.

O sexo não é o único elemento além do massacre perpetrado pela família Manson. Há os segredos enterrados, como a pergunta que fica pendurada sobre a cabeça de Cliff: afinal, ele matou mesmo sua esposa? O flashback inconclusivo levou-me imediatamente – porque não, não acredito em coincidências – sobre as dúvidas que até hoje pairam sobre Robert Wagner em relação à morte de sua então esposa Natalie Wood, em 1981, por afogamento.

E, claro, permeando e assustando mais do que qualquer outra coisa, o esquecimento que Hollywood de maneira inclemente força a seus astros, esquecimento esse aqui representado pelo personagem de Leonardo DiCaprio, o ator em declínio Rick Dalton. O subtexto clássico no estilo Crepúsculo dos Deuses é o lado escondido mais perverso e cruel da brilhante e ensolarada Tinseltown.

A História sem Fim

Para deixar o assassinato de Sharon Tate como pano de fundo, Tarantino cria dois personagens fictícios na terra da ficção: os já mencionados Rick Dalton e Cliff Booth. E, utilizando os dois, o diretor nos conta praticamente a História do Cinema ou, pelo menos, um bom pedaço dela.

Dalton veio do cinema, notabilizou-se na televisão com uma série de faroeste e, agora, depois que o cancelamento veio por desentendimentos na produção, ele vive de pontas vilanescas em outra séries que tentam se beneficiar do que sobra de seu renome. Logo quando somos apresentados a ele, vivido por um DiCaprio absolutamente inspirado mais uma vez, ele está para receber conselhos de Marvin Schwarz (Al Pacino em plena forma), produtor e seu agente, que acha que ele precisa reinventar-se na Itália, com os western spaghetti. Fica evidente o quanto Dalton é Clint Eastwood ou uma amálgama de atores americanos que viram na Cinecittà uma oportunidade de recomeço.

Cliff Booth é um dublê e melhor (único?) amigo de Dalton. Na verdade, ele era um dublê, pois hoje vive como faz-tudo para Dalton, servindo de motorista, consertador de antenas e companheiro para a solidão. Brad Pitt, em uma atuação que espero que não seja esquecida na época das premiações, faz seu personagem como alguém que aceitou quem ele é, alguém que não tem mais chance nessa cidade mítica. Seu passado conturbado é visto não só no flashback que nos deixa pendurados sobre sua esposa, mas também na inesquecível sequência em que ele desce a lenha em um mais do que arrogante Bruce Lee – com o figurino de Kato – no set de Besouro Verde. Não só a sequência é hilária, como Tarantino usa esses poucos minutos para desconstruir o “mito Bruce Lee” – com acurácia histórica ou não, não importa – a ponto de ter deixado sua filha em pé de guerra com o cineasta, na segunda polêmica (boba) cercando a película.

Essa amizade ator-dublê é trabalhada de maneira quase que completamente separada da trama que desaguaria na sequência final. E, como se isso não bastasse, diferente da estrutura em tese parecida de Os Oito Odiados, Tarantino aborda a progressão narrativa em episódios, mas não episódios marcados como ele tradicionalmente faz em seus filmes, mas sim com cortes bruscos que encerram um capítulo e começa outro.

A galera tem reclamado bastante do ritmo, falando que o filme é lento, pipipi popopo. E aí começam os problemas. Porque eu não acho O FILME lento (em estrutura, em narrativa ou com problemas de ritmo que estão no cerne do roteiro, com correria de um lado e tartaruguismo de outro), mas ele às vezes toma tempo demais para nos dar algo que o próprio filme mostra que poderia ser saboreado de outra forma. Veja como ele acompanha os passos da Sharon Tate, por exemplo. Ele consegue fazer muito mais com ela em cenas específicas (roncando, vendo filme, recebendo convidados, jantando) do que naqueles planos de contexto, de ligação entre um bloco e outro da crônica, dando a impressão de “perda de tempo”.

São pequenos momentos em que a montagem junta os pontos de uma maneira menos harmônica que o resto. E até poderia se justificar como: “caramba, mas o enredo tem uma proposta de crônica, claro que vai ter uma passagem meio dura, meio ‘deselegante’ entre os blocos”. De certa forma, sim. Mas veja que a marca cronista que ele usa no início, com divisão entre dias e depois com a marcação dos seis meses de tempo transcorrido vai pouco a pouco se diluindo, diminuindo, como se a gente estivesse vivendo todo aquele sonho DE VERDADE e não soubéssemos mais separar o que é o sonho hollywoodiano e o que é realidade. E as coisas vão ficando cada vez melhores, mesmo quando não são, na história. O personagem do Leo precisa vender a casa e tal, mas não está desamparado, tem filmes no currículo, está na ativa. A amizade dele permanece e tudo parece ir bem… até que a violência aparece e tira todo mundo do sonho.

Até o evento no final, a montagem dá esses trancos que me incomodaram um pouco e isso meio que dá certa razão ao pessoal que reclama do ritmo. Mas não é essa coisa genérica de “ah, o filme tem problema de ritmo — ou seja, sua decupagem de tempo é desequilibrada”. Não é isso. É que por essas escolhas estranhas do diretor (planos em letreiros, passeios de carro meio soltos pela cidade, etc.) a gente é tirado de uma grande imersão e depois novamente enfiado nela. Esse movimento de saída e entrada em algo muito intenso acaba afetando a nossa percepção geral em termos de ritmo.

O Sol é para Todos

A beleza do que Tarantino faz aqui é manter seu olhar sempre positivo. Esse é, talvez, o filme mais simpático, mais fofo (eu prometi ao Gabriel Carvalho que usaria esse adjetivo na crítica) do diretor até hoje, mesmo considerando o final de Kill Bill: Volume 2, com o diretor conseguindo um grau inusitado de imersão sonora e visual nesse outro tempo, nesse outro lugar, por intermédio não só de canções da época, como ao incessante uso do rádio e da televisão que parecem estar em todo os lugares com anúncios (hilários em sua surrealidade se vistos com os olhos modernos), filmes e séries.

É engraçado o quanto a realidade aqui está costurada à ficção, trazendo uma dupla vida para todo mundo. Mas curiosamente todos são meio inocentes demais, bobos demais… falta o ar sacana e meio infame da indústria, percebe? E não falo isso no sentido negativo. O roteiro nunca esconde as merdas (o personagem do Pitt, a cena hilária com o Bruce Lee, etc.) mas o geral aqui está vivendo na maior alienação possível: luxo, bebidas, trabalho duro — mas de aura sonhadora, e há um senso de comunidade e camaradagem que ironicamente se parece com os ideais dos tão odiados hippies. O contraponto vem quando algo realmente extremo mostra que há muito ódio (irracional ou político, vide o Vietnã citado) em volta disso tudo e que o mundo não é apenas essa representação de uma vida nas telas que esses personagens parecem viver sem pausa.

Adorei tudo relacionado ao Al Pacino, com aquela figura forte de bastidores da indústria que tem os seus fantoches, tem poder, mas novamente, não é um filho da puta. O Tarantino faz questão de ser o mais romântico possível para que o final seja macabro, chocante e intenso o bastante. Na mesma medida, as cenas noturnas vão aumentando e as pontas vão se juntando. De um monte de possibilidades, o texto vai dando cada vez menos espaço pros personagens, menos opções de trabalho ou opções fora do que eles sonhavam. O negócio vai se afunilando de uma forma que quando o primeiro impasse aparece a gente fica desesperado. A fotografia saturada no amarelo, um flerte sensacional com aquela pegada do western urbano do Sam Peckimpah em Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia e… pow, temos aquela sequência do Pitt no rancho. A mistura de terror com algo que a gente sabe que está sendo gerado ali para o futuro é manipulado pelo Taranta com uma habilidade impressionante e que funciona mesmo para aqueles que não fazem ideia do que foi a família Manson. Sentimos um medo gigante, trabalhado lentamente, levando-nos passo a passo para um anticlímax que revela Bruce Dern como George Spahn, dono efetivo do rancho onde os ripongas assassinos viviam. A trilha sonora ressalta isso e ele vai lá e reescreve a realidade, dá a ela outro final, frustrando o clichê esperado, perpetuando a Hollywood mítica que Tarantino elegeu como alvo de sua homenagem aqui.

Rastro de Maldade

Considerando o que Tarantino fez em Bastardos Inglórios, o final revisionista era algo esperado, mas muito bem construído, com todas as avenidas levando inevitavelmente ao violentíssimo desfecho na casa de Dalton e não de Polanski, depois que um Dalton completamente enlouquecido enxota os quatro ripongas de sua rua em uma sequência de arrepiar o cabelo da nuca pela tensão que Tarantino constrói. É esse o catalisador das mudanças que desviam a atenção dos assassinos dar ordens de Manson para “vamos matar aqueles que nos ensina a matar” que a garota do banco de trás regurgita de qualquer jeito.

Quando eles voltam, a fotografia permanece escura mesmo no interior da casa populada apenas por Cliff doidaço e sua obediente cadela Brandy. O que segue é Tarantino puro, de cabo a rabo, da lata violentamente arremessada no rosto da mulher pelo ex-dublê (e notem como suas habilidades, sua forma física, sua técnica de luta são exploradas desde o começo do filme, tornando esse final crível e lógico), até o delicioso churrasco que Dalton faz dela na piscina com seu inseparável lança-chamas (outro elemento narrativo cuidadosamente abordado ao longo da narrativa, com até um segundo em que vemos que a arma está ali em sua casa, na garagem).

Aqui, temos a única divergência da minha posição – Ritter Fan – e a do Luiz Santiago, que afirma o que segue:

Não é a primeira vez que temos um Tarantino revisionista, mas aqui o impacto final do que ele faz é tremendo. Do final, eu só não gosto muito do fato “barato” relacionado àquela menina que nunca morre, como os vilões slasher. Eu entendi a intenção, ri, mas não gostei muito. Destoa do tom daquele ato inteiro, embora faça sentido dentro da proposta do diretor para aquele momento e para aquele tipo de vilã. 

Pessoalmente, achei espetacular o crescendo de violência que a “mulher imortal” acaba forçando, seja com Cliff usando seu rosto para “decorar” toda a cada de Rick, até Rick transformando a moça em torresmo. Foi como um tapa na cara, uma lavada na alma proporcionalmente na linha catártica que foi ver Hitler sendo metralhado em Bastardos.

O fato de ele reescrever a história aqui ganha um significado tão imenso no final, que a gente pode ler de duas formas: 1) aquele foi o primeiro ataque, um aviso, e outro acontecerá e a Sharon Tate será assassinada mesmo (e veja como a trilha, a câmera por trás das árvores, o plongée macabro que ele faz dos personagens sugere isso… como se tivesse alguém observando) e 2) o ato violento foi frustrado mas o seu impacto nos noticiários e para aquelas pessoas acabam tendo o mesmo fim, que é o de estourar a bolha desse otimismo hippie em que as estrelas viviam, acordando-as de um sonho, trazendo as “vacas magras”. E o melhor: FUNCIONA dessas duas formas. Isso foi lindo.

Reescrever a História, na ficção, é uma tarefa árdua, porque o que você vai entregar no lugar não pode bater o martelo apenas pela mudança de um grande ato. E o Tarantino faz a mudança abrindo possibilidades e juntando todas as pontas de uma forma que a gente toma fôlego e acorda, como se um conto de fadas realmente tivesse acabado, fazendo valer o título de duas formas: pelo que ele conta (conteúdo nostálgico, marcando uma era) e também pelo estilo de contar essa história (forma épica), piscando para o Sergio Leone… É um filme maduro demais, com alguns tropeços no caminho que não dá para ignorar, mas com um baita resultado final.

Obs: O Luiz Santiago daria 4 estrelas para o filme. 

Era Uma Vez em… Hollywood (Once Upon a Time in… Hollywood, EUA/Reino Unido/China – 2019)
Direção: Quentin Tarantino
Roteiro: Quentin Tarantino
Elenco: Leonardo DiCaprio, Brad Pitt, Margot Robbie, Emile Hirsch, Margaret Qualley, Timothy Olyphant, Julia Butters, Austin Butler, Dakota Fanning, Bruce Dern, Mike Moh, Luke Perry, Damian Lewis, Al Pacino, Nicholas Hammond, Samantha Robinson, Rafal Zawierucha, Lorenza Izzo, Costa Ronin, Damon Herriman
Duração: 161 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.