Crítica | Era Uma Vez em… Hollywood (Sem Spoilers)

“Essa é a melhor atuação que eu já vi em toda a minha vida.”

Era uma vez uma artista em ascensão, conseguindo os seus primeiros sucessos, casada com um cineasta também em ascendência, conquistando Hollywood e o mundo gradualmente. O restante da sua história, porém, não terminou como em um conto de fadas. Sharon Tate (Margot Robbie), grávida de sete meses, foi brutalmente assassinada por membros da família Manson, em um triste episódio que marcou profundamente a narrativa daquela época. Era Uma Vez em… Hollywood resgata esse passado para apresentar uma visão do que se perdeu, ou seja, um sonho de cinema americano morto prematuramente. Quentin Tarantino, em seu nono longa-metragem – porque o cineasta conta Kill Bill como um só – reconhece, portanto, o que estava sendo construído até 9 de agosto de 1969, se esvaindo posteriormente. Esse desmanche do conto de fadas hollywoodiano é, assim sendo, prenunciado por grande parte do seu longa-metragem, que começa em fevereiro daquele ano e aproxima-se cada vez mais da data famigerada e traumática. Contudo, este eixo é a única marcação mais clara de uma premissa em si, mais concreta e objetiva. A obra não opta por um caminho preciso, pautando-se numa calma ocasionalidade. No caso, Quentin Tarantino explora contemplativamente a época, reencenando através de novos personagens, em meio a percalços e uma jornada bastante paciente, aquele mesmo conto de fadas, embora tragicamente interrompido.

Rick Dalton (Leonardo DiCaprio) é um ator que está tentando recuperar o seu sucesso de outrora, de quando estrelava grandes filmes e uma renomada série de televisão, cancelada, entretanto, por conta de polêmicas nos bastidores. Já Cliff Booth (Brad Pitt) é o seu dublê de corpo, mas que, em vista de divergências no estúdio, está trabalhando mais como motorista e assistente pessoal de Rick do que profissionalmente. Em suma, nenhum dos dois personagens está passando por bons momentos, à beira do ostracismo. Quentin Tarantino, neste sentido, contextualiza precisamente os impasses de Rick, como também exemplifica certas facetas empobrecidas e sujas da indústria cinematográfica. Cliff não tem pôsteres com o seu nome, enquanto Rick sim, justo um enorme que marca um momento inicial da obra. Numa das primeiras cenas, presente inclusive em um trailer, o personagem de Pitt registra que seu papel é basicamente carregar a bagagem de seu parceiro. O mais importante nisso tudo, no entanto, reside na participação de Al Pacino. O ator interpreta um homem que avalia a carreira de Rick Dalton e o propõe uma boa solução: ir para a Itália e estrelar filmes dentro do sub-gênero do faroeste espaguete. Ao passo que isso acontece, em contrapartida, Sharon Tate, juntamente ao seu marido Roman Polanski (Rafał Zawierucha), vira vizinha de Rick, o que sugere para o artista, imaginando uma amizade com o casal, uma possível retomada da glória.

Por conta de tantas referências às movimentações internas na indústria cinematográfica daquele momento, a forma como Tarantino conversa com a realidade é interessante. Os seus paralelos entre a verdade e a ficcionalidade, portanto, expressam o interesse do cineasta em recriar cenários similares aos do passado, contudo, os enxergando sob novas perspectivas, outras possibilidades. Rick Dalton, no caso, representa o ator Burt Reynolds, que morreu ano passado e, em sua carreira, seguiu caminhos parecidos com o do protagonista da obra. Por sinal, o saudoso artista estava escalado para viver George Spahn no longa, mas com a sua morte o papel foi reatribuído a Bruce Dern. A participação de Reynolds, porém, seria justamente em uma das cenas mais significativas da obra: a introdução dos Manson. Tarantino também se aproxima imensamente do gênero do terror nessa sequência, demonstrando tato para a construção de uma tensão aterrorizante – e que, na verdade, está presente em variadas escalas em demais exemplares da carreira do cineasta. Com isso, o artista consegue concretizar a ameaça que aqueles personagens significam, na teoria e na prática, desmascarando completamente um ar ingênuo primeiramente atribuído. Eles são, não apenas figurativamente, invasores horríveis que comprometem a integridade do cinema, visto que o Rancho Spahn, lugar onde residem, era uma locação para os faroestes protagonizados por Rick.

Entretanto, se a direção competentemente sustenta, por uma certa instância, uma veia narrativa bastante minimalista, excessos nesse sentido também existem e podem ser diagnosticados já pela apresentação dos antagonistas. Dar a contextualização de um perigo à vida de Tate, por exemplo, é uma função que Era Uma Vez… em Hollywood não assume. Do contrário, os espectadores que não conhecem a trágica história da atriz até perderão um prenúncio para a sua morte, que é basicamente o pretexto para a obra existir: Tarantino explorar Hollywood em meio a eminência do seu fim. Por isso, um enorme desapontamento tem relação com a participação de Charles Manson (Damon Herriman) na obra. O mandante dos crimes de 9 de agosto encontra-se presente em uma cena desnecessária, bem mais alheia ao enredo que essencial. Justamente por causa desse teor sugestivo em excesso, sem contexto e costuras narrativas complexas, compromete-se o momento, que soa vago e não antecipatório. Por sua vez, o esperado retorno dos outros Manson, no terceiro ato, não depende dessa cena, muito mais coerente dentro da estrutura que Tarantino adota para moldar o seu longa-metragem. Assim sendo, se, em pequena escala, o cineasta é um diretor que maneja sensações alarmantes aos espectadores, em uma maior a sua condução termina reiterando mais valor aos elementos que em pensar, constantemente, que o fim deles se aproxima.

Com isso, mais excessos inerentemente surgem, por conta da prolongação que Tarantino prevê à contemplação apaixonada que fomenta da época. Passear pelas ruas de Los Angeles é viajar no tempo, reencontrar as cores e as músicas de antes. Quentin, por exemplo, permeia a obra com cenas de episódios das séries que Rick protagonizou, promovendo veracidade a sua jornada: ele parece uma pessoa que realmente existiu. De certa forma, soa como se o cineasta de fato tivesse gravado as temporadas dos seriados que apresenta, alguns completamente imaginários e outros reais: novamente, uma conversa entre a realidade e a irrealidade. Em meio a isso, Dalton é o personagem mais formalista do cineasta nesse seu longa, possuindo um arco narrativo perceptível, enquanto os demais atuam mais como símbolos. Tarantino está pensando os tipos da época e os encaixando em sua ótica particular, que anseia uma imortalidade, em imagem ou em corpo, que a vida não pôde dar. As conexões com Burt Reynolds, dessa maneira, se aprofundam. De um dos mais conhecidos astros de Hollywood dos anos 70 que viriam, Burt perdeu o apelo em décadas seguintes. Enquanto promessas, como Tate, ou atores mais consolidados, como Steve McQueen, morreram cedo demais, Burt continuou na ativa, apesar de esquecido. E Rick Dalton, que sente estar dando adeus ao prestígio? Quem seria o personagem de Leonardo DiCaprio, caso existisse? 

Quentin Tarantino chega, assim sendo, ao seu projeto mais enriquecido em elementos e conceitos. Ele encaminha o público aos mesmos sentimentos que impregna em cada um dos pedacinhos, tanto os realistas quanto os idealistas, desse passado cinematográfico inalcançável. Os exageros misturam-se à paixão, pois uma antecipação a um momento relevante do arco de Rick acompanha um grande diálogo, apenas para o cineasta enfim chegar ao seu propósito: mostrar Rick tendo problemas em cena. Mesmo em seu estado mais formalista, Tarantino continua contemplativo, pensando atmosfera e significados. Já os outros personagens, que encorpam outras propostas, não caminham do mesmo modo. O tratamento à Tate é unicamente reverencial e passa por um cuidado humanista, que impede o seu retrato de se aproximar de uma caricatura. A personagem de Robbie tem pés sujos, ronca à noite, porém, ainda é um reflexo muito poderoso de inocência: a inocência de que sonhos viram realidade. A cena de Sharon em um cinema acentua certeiramente o brilho dos seus olhos. Ela não é esnobe, contudo, alguém sinceramente orgulhosa de suas conquistas – tão orgulhosa de si quanto Rick ao ouvir uma menina apreciar a sua atuação. Essa pureza é o que Quentin Tarantino opõe aos novos inimigos, incitando um maniqueísmo simbólico que tem Booth como uma terceira via: a única que pode sustentar tais sonhos, no final das contas. 

A Hollywood assassinada em 9 de agosto de 1969 revive por quase três horas, para se imortalizar no cinema irreal, mas nunca tão sensível quanto aqui, do cineasta Quentin Tarantino. Era Uma Vez em… Hollywood não é, porém, uma obra puramente nostálgica pautada naquela década, que quer meramente reviver a atmosfera perdida desse passado, por conta dos seus passeios de carro e cores acentuadas. O pensamento não é alienado, entretanto, ciente do que separa verdade e mentira, realidade e cinema. Do contrário, o artista sugere uma utopia dessa Hollywood que ele em si nunca viveu realmente. Os olhos das crianças, como a que o cineasta foi nos anos 60, trazem percepções fantasiosas. O seu Rick, a sua Tate e o seu Cliff, por isso, carregam alegorias. Eles representam os astros em decadência, as estrelas em ascensão e, por fim, os alicerces de uma indústria, menos graciosos e limpos do que as imagens que surgem na tela de cinema: a verdade. Pitt, aqui, vive um sujeito que não tem nada de Bruce Lee, sem ser celebrado ou virar espetáculo. O cinema, portanto, parece ser o único meio que pode concretizar esse sonho de Tarantino em reerguer o império de outrora. Para resistir aos invasores e ameaças, aos interesses comerciais, os ciclos geracionais, que criam astros e derrubam outros, dispensam gêneros de cinema e enaltecem novos, apenas a arte em seu estado mais puro e idealista, pensando em eternidade acima de tudo.

Era Uma Vez em… Hollywood (Once Upon a Time in… Hollywood) – EUA, 2019
Direção: Quentin Tarantino
Roteiro: Quentin Tarantino
Elenco: Leonardo DiCaprio, Brad Pitt, Margot Robbie, Emile Hirsch, Margaret Qualley, Timothy Olyphant, Julia Butters, Austin Butler, Dakota Fanning, Bruce Dern, Mike Moh, Luke Perry, Damian Lewis, Al Pacino, Kurt Russell, Damon Herriman, Lorenza Izzo, Rebecca Gayheart, Rafał Zawierucha, Nicholas Hammond, Mikey Madison, Madisen Beaty, Maya Hawke, Lena Dunham, Zoë Bell, Michael Madsen
Duração: 161 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.