Crítica | Era Uma Vez em… Hollywood (Trilha Sonora Original)

Era Uma Vez em… Hollywood é a incursão de 2019 de Quentin Tarantino no cinema. No filme, situado em 1969, acompanhamos Rick Dalton, um ator de televisão que juntamente com o seu dublê, quer reerguer sua carreira em Hollywood. Ele quer ir além da série de faroeste que protagoniza e conseguirá se deslocar do ponto de partida com incentivo de seu dublê, espécie de consciência do personagem. A história da dupla é narrada diante de acontecimentos marcantes da época, reimaginados pelo roteiro de Tarantino, o que inclui o assassinato da atriz Sharon Tate por Charles Manson e seus seguidores. Grávida de Roman Polanski, diretor do momento na época, haja vista o sucesso de O Bebê de Rosemary, a tragédia envolvendo Tate marcou uma era.

Em sua mirabolante narrativa, o cineasta presta digna homenagem ao modo de fazer cinema. E junto com sua bagagem metalinguística, traz mais uma vez a música como ponto crucial para melhor compreensão da história que se desenrola. Dentro dos mesmos padrões dos filmes anteriores, o pop-rock são os gêneros dominantes, influenciados por outras referências menos centrais. Com curadoria do diretor, a trilha sonora original do filme traz canções que marcaram a transição das décadas de 1960-1970, numa recuperação de nomes pouco lembrados na contemporaneidade, tendo também como complemento alguns jingles que refletem a publicidade de uma era peculiar para o cinema hollywoodiano.

As seguintes faixas compõem o álbum: Turn  of The Season, por The Zombies; Evil Ways, de Santana; Going Up The Country, por Canned Heat; California Soul, de Marlena Show; The Working Man, por Creedence Clearwater Revival; Good Times, Bad Times, de Led Zeppelin; My Generation, conduzida pela banda The Who; Somebody To Love, por Jefferson Airplane; Helter Skelter, conduzida pela “febre” da época, The Beatles; Coming Into Los Angeles, por Arlo Guthrie; L.A. Woman, do grupo The Doors; Rock & Roll, por The Velvet Underground; Sunshine Superman, de Donovan; Piece of My Heart, de Big Brother e The Holding Company, com Janis Joplin; Wouldn’t It Be Nice, da banda The Beach Boys; Don’t Let Me Be Misunderstood, do grupo The Animals; Get Togheter, assinado por The Youngbloods; Nothing Can Change This Love, de Sam Cooke; Straight Shooter, por The Mamas e The Papas; e Bring a Little Lovin’, de Los Bravos.

Em Straight Shooter, encontramos uma referência ao ato de atirar, faixa que traz em seu título uma expressão em língua inglesa que também significa ser muito sincero e honesto com alguém. Para a produção, o sentido literal adequa-se mais ao contexto dos conflitos dramáticos. De autoria dos membros do grupo The Mamas e The Papas, a faixa é um importante ponto narrativo do filme. O grupo ainda teve o estrondoso California Dreamin’ referenciado em determinado momento do filme, uma maneira de ironizar a ode aos supostos anos dourados, na verdade violentos e inseguros, postura típica de Tarantino.

Os versos de Good Thing, de Paul Revere e The Raiders apontam as vibrações negativas que pairam, numa relação intrínseca com o destino trágico de Tate. Arrepiante é a canção Brother Love’s Travelling Salvation Show, de Neil Diamond. A canção fala sobre uma “noite quente de agosto”, numa possível referência, no caso do filme, aos crimes de Charles Manson entre os dias 08 e 09 de agosto, radiografados na produção. Neil Diamond surge com seu som que, proposital ou não, parece uma paródia da música gospel. A faixa trata de um evangelizador que viaja pelo sul dos Estados Unidos e apresenta a ideia de um religioso falando para seus seguidores, algo semelhante ao perfil de Manson.

Com outras presenças importantes, a trilha exala o rock e o pop, bem como os riffs de guitarra do que foi considerado o subgênero “California Sound”. Repleto de músicas que refletem o espírito de transgressão, a trilha sonora reforça as transformações da música pop, as ramificações do rock, dentre outras situações que estabeleceram as bases de movimentos musicais vindouros. Há uma canção composta por Manson, Always For, Always Forever, “hino sobre submissão e culto”, entoada por um grupo de mulheres antes do personagem se tornar propriamente parte da história. Bernard Hermann surge como espécie de substituição da supremacia Morricone nos filmes do cineasta, tendo um trecho seu, fruto de uma parceria com Hitchcock, integrado ao filme.

Ademais, no projeto geral, Tarantino parecer fazer de sua trilha uma reprodução fiel das programações de rádio da época, uma fase divisora de águas para a indústria do cinema e o surgimento de realizadores que marcaram para sempre a história desta arte fascinante, tais como Martin Scorsese, William Friedkin, Francis Ford Coppola, George Lucas, Steven Spielberg, Roman Polanski, dentre outros. Os jingles sobre perfumes, carros, cigarros, etc. refletem o que era transmitido em termos de publicidade, num fluxo de linguagens sonoras em diálogo. A KHJ Bossa Radio, uma referência para Quentin Tarantino em sua infância, aparece no filme como um canal de informações que conecta os personagens (todos são ouvintes) e nós, espectadores, com o filme e a sua respectiva época badalada por mudanças estruturais na esfera pública.

O lançamento de um filme de Tarantino não é apenas a exibição de algo para entretenimento num final de semana qualquer. Mesmo diante de contradições ou adoção de algumas estratégias narrativas questionáveis, seus filmes são acontecimentos, objetos de culto, algo que deságua também na relação do público com a trilha sonora. Dos arranjos em surf music de Pulp Fiction – Tempo de Violência, ao soul de Jackie Brown, passeando pelas referências ao trabalho de Ennio Morricone em diversos filmes, para em Os Oito Odiados, trazer o compositor e realizar um trabalho original. São passeios de um circuito realizado por um dos cineastas mais criativos, polêmicos e rentáveis da história do cinema recente. Em Era Uma Vez em… Hollywood, como podemos notar, não foi diferente.

Once Upon a Time in… Hollywood (Original Motion Picture Soundtrack)
Compositor: Artistas Variados
Gravadora: Columbia Records
Ano: 2019
Estilo: rock, Trilha Sonora

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.