Crítica | Era uma Vez em Tóquio

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Encerrando a Trilogia NorikoEra uma Vez em Tóquio (1953) explora uma questão bastante cara ao diretor Yasujiro Ozu, que era a relação entre pais e filhos, pautada pela negligência natural que as novas gerações têm em relação aos pais, uma postura que em boa parte dos casos muda ao longo dos anos, mas em outros, permanece como uma grande marca de ingratidão somada a um sentimento de culpa. Com boas raízes em A Cruz dos Anos (1937), de Leo McCarey, o diretor já havia trabalhado esse tema em Os Irmãos e Irmãs Toda (1941), mas volta para ele aqui de maneira mais madura e com reflexões mais amplas em torno dessa principal questão familiar.

A premissa aqui é bastante simples. Shukichi (Chishû Ryû) e Tomi (Chieko Higashiyama) são um velho casal prestes a fazer uma viagem de sua vila no interior do Japão até Tóquio, onde mora a maioria de seus filhos. Como é de se esperar em um filme de Ozu, nós começamos e terminamos o longa em um tipo de contemplação e reflexão de distintos níveis sobre o ambiente e os indivíduos que vemos na tela. Ao longo de suas 2h16 de duração, a película nos dá a oportunidade de conhecer este casal e mergulhar em sua visão de mundo, muitas vezes apenas através de expressões ou pela forma como se comportam diante dos filhos em momentos que claramente não são bem-vindos.

Sem levantar uma crítica explícita ou didática — mas a crítica ela está lá o tempo inteiro — o diretor e seu parceiro na escrita do texto, Kôgo Noda, mostram para o espectador o peso dos anos para um pai e uma mãe através do desencontro que em relação aos filhos e aos netos, a partir de determinado momento de suas vidas. O roteiro considera, em um pequeno diálogo, que esta não é necessariamente a realidade para todas as famílias, mas certamente é para a maioria: as responsabilidades e ritmo de vida dos filhos os afastarão consideravelmente dos pais na vida adulta. A frase tem um quê de dilema moral e ao longo do filme nós nos vemos repreendendo ou tentando compreender a atitude deste ou daquele filho diante dos pais.

O roteiro nos dá essa oportunidade de colher informações sobre todos os personagens e, como já disse, de entender o comportamento dos pais. A câmera no tatame, a fotografia com leves contrastes e ângulos perfeitos nos coloca também como parte dessa família, que tenta divertir, dar atenção ou se livrar dos pais, dependendo da ocasião. E em cada um desses momentos, o texto e a direção fazem um jogo de ação-e-reação pelos diálogos (sim, os pais reagem pouco, mas não estão alheios ao que acontece) e pelas atitudes e forma como a câmera os filma, em cenas que vão da mais trivial contemplação do teto, enquanto se espanta mosquitos, até os diálogos mais tocantes e filosóficos, como os que temos no final da fita, depois de um importante evento.

SPOILERS!

A morte da mãe é a grande marca deste drama, porque coloca as ocupações, as frases, as exigências e todas as outras coisas dos filhos em perspectiva, um jogo do qual também participamos, por contemplação ou por identificação com a dor da família que perde um ente querido. E é nesse estágio de coisas em perspectiva, através da morte, que o valor à mãe falecida e às memórias dela se manifesta, juntamente com o proverbial “é tarde demais“.

Algumas vozes que destacam pontos negativos neste filme falam de sua lentidão exagerada, mas isso é um ponto delicado em se tratando de Ozu. O que posso dizer é que na parte final do filme, o ritmo começa a cobrar um pequeno preço e fica difícil para o espectador não comparar a velocidade com que as coisas acontecem aí e o tempo de contemplação “gasto” ao longo de toda a projeção. Também me incomodaram um pouco as elipses na segunda metade da obra, e este é igualmente um ponto delicado para se falar de Ozu, já que esta é uma de suas marcas narrativas, especialmente no pós-Guerra. E novamente, o preço cobrado pelo lento ritmo vem à tona quando julgamos a necessidade e o impacto dessas elipses. Mas nenhuma dessas coisas foram grandes o bastante para me fazer tirar algo da obra. O que me incomodou a ponto de vê-la um pouco menos incrível desta segunda vez foi o diálogo final entre Noriko (Setsuko Hara) e Shukichi.

Me incomodou tremendamente o comportamento da personagem nesse diálogo, algo bem diferente do que havia sido apresentado antes para ela. E aqui, algo característico das atuações nos filmes de Ozu (ou em clássicos japoneses, em geral), que é a marca mais afetada herdada do kabuki, acabou tendo um impacto negativo para mim em relação à interpretação da atriz, algo que não havia acontecido antes. Colocado de lado esse pequeno impasse do final, Era Uma Vez em Tóquio mantém-se como um daqueles filmes sobre a vida que impressiona pela crueza e realismo com que expõe sua problemática. Algo que todos nós conhecemos muito bem e que, depois de uma sessão dessas, nos pegamos novamente pensando a respeito.

Era uma Vez em Tóquio (Tôkyô monogatari) — Japão, 1953
Direção: Yasujiro Ozu
Roteiro: Yasujiro Ozu, Kôgo Noda
Elenco: Chishû Ryû, Chieko Higashiyama, Setsuko Hara, Haruko Sugimura, Sô Yamamura, Kuniko Miyake, Kyôko Kagawa, Eijirô Tôno, Nobuo Nakamura, Shirô Ôsaka, Hisao Toake, Teruko Nagaoka, Mutsuko Sakura, Toyo Takahashi, Tôru Abe
Duração: 136 min.

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.