Crítica | Era uma Vez um Pai

Segundo drama de Yasujiro Ozu produzido durante a Segunda Guerra Mundial, Era uma Vez um Pai retorna a um tema caro ao diretor: a relação entre pai e filho. Escrito em 1937 quando Ozu foi para a China, ele retrabalhou o roteiro juntamente com Tadao Ikeda e Takao Yanai em sua volta ao Japão, aparentemente jamais ficando satisfeito com o resultado. Apesar de lançado em 1942, a única versão atualmente existente da obra é aquela re-editada de acordo com a visão dos censores trabalhando sob a supervisão de Douglas MacArthur para relançamento no pós-Guerra, o que pode não refletir exatamente a visão do diretor, mas sem que o filme jamais perca sua “natureza Ozu” de ser, por assim dizer.

Pouco conhecido, Era uma Vez um Pai é um pequeno épico de Ozu, que acompanha a vida de um pai (viúvo) e um filho desde que o segundo é bem jovem até ele próprio ser um pai, sempre sob a ótica do relacionamento distante dos dois. Mas essa distância tem uma origem e uma explicação, com Shuhei Horikawa (Chishū Ryū), o pai, impondo-se uma pena severíssima de uma vida inteira ao, em uma excursão comandada por ele do colégio onde trabalha, um aluno morrer em um passeio de barco não autorizado. O peso da culpa que ele carrega pelo incidente, apesar de ficar muito bem estabelecido que ele não poderia ter feito muita coisa (mas poderia ter feito algo, com Ozu brilhante e propositalmente deixando essa porta entreaberta), o faz desistir de sua profissão de professor de matemática e mudar-se com o filho para Ueda, uma cidadezinha menor.

Mas esse exílio que ele se impõe não é o suficiente. Sob a desculpa de ter que procurar um emprego melhor para garantir o futuro de seu filho Ryohei (vivido por Haruhiko Tsuda quando pequeno), ele se muda para Tóquio, deixando o filho em um internato em Ueda, marcando a separação para sempre entre os dois, apesar de eles mutuamente professarem que o que mais querem na vida é, um dia, morar juntos novamente. Assim que a grande separação acontece, o espectador sabe que pai e filho não mais viverão sob o mesmo teto. Ozu deixa isso evidente ao manter os dois separados constantemente mesmo quando juntos e ao dividir cirurgicamente os cenários, estabelecendo barreiras entre eles.

Com isso, a dolorosa jornada de Horikawa culpando-se pela morte que acha que poderia prevenir, de um lado e de Ryohei, que cresce longe da figura do pai, é trabalhada com elipses temporais que aproximam os dois por pouquíssimo tempo a cada intervalo de anos, com o filho logo passando a ser vivido por Shûji Sano, o Ryohei adulto. O ritmo é lento e o relacionamento dos dois é delicadamente distante, sem aproximação física, sem que sentimentos aflorem nas atuações da dupla protagonista. Há uma frieza terna – e sim, a contradição é proposital – entre pai e filho que Ozu joga para o espectador decidir como tratar.

Afinal, podemos olhar para Horikawa e ver um pai rígido, capaz de manter-se longe da vida do filho para que o filho tenha uma vida. Mas também podemos olhar para ele como um homem aprisionado e esmagado pela culpa que, na cabeça dele, provavelmente o torna inadequado para cuidar de um filho. Ou podemos vê-lo como uma composição, como uma amálgama entre frieza e culpa sem que por momento algum duvidemos de seu amor pelo filho, mesmo que a demonstração seja, para padrões ocidentais, praticamente inexistente. Esse, aliás, é uma barreira a mais que pode levar o espectador ocidental a tender pelo lado da frieza enquanto que não é apenas esse que pode ser visto, especialmente considerando o período difícil em que a obra foi rodada.

Utilizando uma câmera parada rente ao chão quase que 100% do tempo, Ozu mantém uma postura observadora, poucas vezes fazendo efetivo uso de planos próximos ao rosto dos atores. Com isso, o espectador mantem-se também distante, também afastado daqueles dois ali da mesma maneira que eles são afastados entre eles. Estudamos personagens que se amam, mas que não podem ou não querem ou não sabem manifestar suas emoções com mais do que preocupações verbais sobre bem-estar. Vemos, principalmente, o tempo passar inexoravelmente, na velocidade das locomotivas tão adoradas pelo cineasta, com o pai sendo literalmente confrontado com essa passagem temporal ao ser homenageado pelos alunos agora adultos de sua antiga escola, com todos casados e com filhos. Ozu, se pudesse, acho que viraria a câmera para nós em uma indicação de suas intenções sublinhada com uma pergunta: e você, o que você está fazendo com seu tempo?

Era uma Vez um Pai pode demorar a surtir efeito, mas ele vem de uma maneira ou de outra. E esse efeito certamente diferirá em cada um de nós, mas ele muito provavelmente nos fará no mínimo olhar ao redor para percebermos que talvez estejamos perdendo alguém ou alguma coisa que amamos muito sem que percebamos ou até mesmo possamos fazer alguma coisa. E isso doerá.

Era uma Vez um Pai (Chichi Ariki – Japão, 1942)
Direção: Yasujiro Ozu
Roteiro: Yasujiro Ozu, Tadao Ikeda, Takao Yanai
Elenco: Chishû Ryû, Shûji Sano, Haruhiko Tsuda, Shin Saburi, Takeshi Sakamoto, Mitsuko Mito, Masayoshi Ôtsuka, Shin’ichi Himori,  Haruhiko Tsuda
Duração: 94 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.