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Crítica | Escalado para Morrer

por Ritter Fan
253 views (a partir de agosto de 2020)

O projeto diretorial seguinte a Interlúdio de Amor de Clint Eastwood retorna o diretor – e ator, já que ele é também o protagonista da obra – para o tipo de filme que ele era mais conhecido, o de ação e/ou aventura de viés violento. Mas Escalado para Morrer, baseado em romance de Rod Whitaker publicado em 1972 e que já vinha rodando Hollywood há algum tempo com revisões de roteiro e trocas de elenco, além de dúvidas sobre como executá-lo para as telonas, acabou sendo primordialmente uma porta de saída de Eastwood da Universal, já que o cineasta não havia gostado de como seus dois filmes anteriores haviam sido tratados, permitindo, posteriormente, o início de sua longeva relação com a Warner que continua até hoje.

Além disso, Eastwood aproveitou para fazer algo que, provavelmente, não teria chance de fazer em razão de sua idade (ele já tinha 44 anos no início da fotografia principal) se esperasse muito mais: seus próprios stunts em grande parte da obra. Não que ele não tivesse feito isso antes, claro, mas, aqui, considerando a temática de escalada de montanhas, o jogo seria em outro nível e bem mais perigoso já na largada, mas que acabaria levando o ator a momentos inesquecíveis em sua carreira, como depois diria a quem quisesse ouvir.

Mas, antes de chegar nas escaladas propriamente ditas, Escalado para Morrer é um filme estranho, muito estranho. A história gira em torno de Jonathan Hemlock, professor de arte (há uma cena de uma aluna paquerando-o que muito provavelmente foi a inspiração para sequência parecida em Os Caçadores da Arca Perdida) que, secretamente, foi um assassino de aluguel de uma agência super-secreta do governo americano batizada de C-2 e que, além disso, tem uma impressionante coleção de obras de arte que ele adquire no mercado negro com dinheiro não declarado. Como reza aquele clichê básico de filmes do gênero, Hemlock é retirado de sua aposentadoria para “sancionar” (daí o título em inglês), ou seja, matar dois agentes “do outro lado” (é hilário como o roteiro evitar mencionar a União Soviética) que, por sua vez, mataram um agente da C-2 em preâmbulo passado na Suíça.

Toda essa contextualização sobre o passado de Hemlock, sua coleção de arte, sua hesitação em voltar à ativa, um terço inicial inteiro dedicado a matar um dos assassinos e à apresentação de seu chefe, Dragon (Thayer David), um homem albino que precisa viver no escuro e trocar de sangue de tempos em tempos, algo que é mais afeito a um filme da franquia de 007, é, sem medir palavras, completamente inútil e provavelmente fruto das diversas versões que esse roteiro teve, inclusive algumas pedidas pelo próprio Eastwood para trazer motivações maiores a Hemlock do que só o dinheiro.  A mixórdia que resulta disso é inadvertidamente até engraçada, ainda que, no final das contas, torne o filme desnecessariamente longo e arrastado em seu começo, algo que atrapalha seu aproveitamento.

Quando essa baboseira toda acaba e Hemlock vai finalmente treinar escalada com seu amigo Ben Bowman (o saudoso George Kennedy, que havia contracenado com Eastwood em O Último Golpe, no ano anterior) para poder participar de uma equipe internacional que pretende escalar a face norte do monte Eiger, no cantão de Berna da Suíça de forma a assassinar o segundo agente inimigo, a produção encontra seu foco e começa a realmente engajar o espectador. E tudo se deve à escolha de Eastwood de fazer as filmagens exclusivamente em locação, evitando, a todo custo, cenários artificiais, uma espécie de marca em todos os filmes do gênero que antecederam Escalado para Morrer.

Com isso, o cineasta, fazendo uso das belas paisagens naturais do Monument Valley, nos EUA, onde os grandes faroestes foram filmados (a poesia de ter Eastwood, o grande pistoleiro dos western spaghetti, usando essa locação é inescapável) e, depois, no monte Eiger, consegue diferenciar sua obra, algo que é amplificado pelo já mencionado fato de que, em muitos momentos, é o próprio Eastwood quem faz as escaladas. Obviamente, isso acontece em ambiente mais do que controlado, ainda que o risco seja presente em razão da idade do ator e, claro, do fato de que ele não era escalador profissional. Se vemos uma outra dupla escalar o estupendo Totem Pole, isso não retira o valor de Eastwood e também de Kennedy, que foram baixados de helicóptero para o pico, permanecendo lá sem equipamento de apoio.

E o mesmo vale para as tomadas no Eiger, que são realmente de tirar o fôlego, com Eastwood mostrando maestria no posicionamento de câmeras, na criação de suspense e na manutenção do realismo por todo o tempo, sem invencionices ou atos heroicos completamente deslocados. Por vezes até parece que estamos vendo um documentário não fosse o rosto perfeitamente reconhecível do ator em diversas tomadas.

Infelizmente, porém, apesar da destreza de Eastwood na complexa tarefa de direção desse filme, o espectador – especialmente o espectador moderno – precisa ultrapassar o início que em nada contribui para a história e um roteiro que usa piadas de estupro (são duas!) e carregadas de preconceito racial e de gênero que mancham a obra de maneira muito feia. Sim, trata-se de uma produção de 1975, mas isso não é justificativa para um texto tão canhestro e inábil considerando as diversas outras produções da mesma época que não precisam recorrer a isso.

Escalado para Morrer demora para realmente começar e erra em tom diversas vezes, mas é inegável que as sequências de escaladas são das melhores do Cinema e elas, por si só, fazem valer o filme e nos fazer suportar os vários problemas do roteiro, inclusive a real natureza da missão de Hemlock e sua resolução que dependem de informações “extras” que caem de paraquedas. Eastwood mostra sua flexibilidade tanto na frente quanto atrás das câmeras em uma obra diferenciada que poderia ter sido fora de série.

Escalado para Morrer (The Eiger Sanction, EUA – 1975)
Direção: Clint Eastwood
Roteiro: Hal Dresner, Warren Murphy (como Warren B. Murphy), Rod Whitaker (baseado em romance de Rod Whitaker)
Elenco: Clint Eastwood, George Kennedy, Vonetta McGee, Jack Cassidy, Heidi Brühl, Thayer David, Gregory Walcott, Reiner Schöne, Michael Grimm, Jean-Pierre Bernard, Brenda Venus, Candice Rialson, Elaine Shore
Duração: 129 min.

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3 comentários

Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 7 de junho de 2020 - 17:23

Meu Deus… esse filme… Eu acho ruim (minha nota é 2), mas cara, o tanto que eu ri aqui e o tanto que fiquei com raiva também, tu não tem noção.

Primeiro: as piadas politicamente incorretas aparecem com o pior mal gosto possível. Às vezes a gente vê “piadas” desse nível que em algumas ocasiões “fazem sentido”. O contexto do filme suporta a coisa toda. Aqui não. E o negócio do estupro é o pior mesmo. Podre.

Agora uma delas me fez gargalhar. O cachorro. O NOME DO FILHO DA PUTA DO CACHORRO É FAGGOT!!! HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA E pior ainda é que o dono dele é uma bixa-agente que tem um guarda-costas turrão e incompetente e está o tempo inteiro fazendo piadinha sexual e meio que dando em cima do personagem do Clint. É horrível, mas eu ri demaaaaaaais.

Depois tem o fato de que a primeira parte do filme não serve pra quase nada, né? Parece que fizeram duas produções, daí filmaram meia dúzia de cenas de ligação e juntaram o negócio. Essas várias versões do roteiro ajudam a explicar a colcha de retalhos aqui.

Já a segunda parte, a partir do momento que ele começa a treinar, é a melhor mesmo. Tem um monte de problemas, mas é como você disse, eles meio que são nublados pela ótima direção e aproveitamento das paisagens. E as cenas de escalada da montanha são sensacionais.

Só uma coisa: coitados dos escaladores!

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planocritico 7 de junho de 2020 - 17:54

Cara, o nome do cachorro é sensacional. Quando o dono chamou o bicho eu pensei “não, claro que não é isso”, mas aí ele explicitamente diz para a moça da piscina que o nome é Faggot e aí eu não resisti e morri de rir. É inacreditável.

Mas é como você diz: essa do Faggot até passa, pois sei lá, fica no contexto da brincadeira mesmo. Mas as piadas com estupro são surreais, assim como as tiradas racistas contra a jovem indígena que, claro, acaba na cama do Hemlock. Que raio de roteiro foi esse, pois mesmo para a época era deslocado…

Minhas 3 estrelas vão exclusivamente para as tomadas de escalada e para os cojones de Eastwood de ele mesmo fazer as cenas. Chega a ser impressionante pesquisar as fotos de bastidores e ver o cara pendurado no Eiger e outras lá no Monument Valley.

Abs,
Ritter.

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Filipe Isaías 7 de junho de 2020 - 22:12

Essa do cachorro me lembrou do filme The Dam Busters, onde o nome do cachorro é a “palavra com N”. Tá certo que é baseado numa história real, mas eles falam o nome do cachorro O TEMPO TODO. E quando eles vão voar (e num dá pra levar o cachorro pra dizer o nome dele), eles batizam uma operação com o mesmo nome. É uma obsessão mesmo.

Abs.

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