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Crítica | “Escape” – Journey

por Iann Jeliel
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Escape

Two hearts, born to run Escape

Who’ll be the lonely one?

One love, who’s crying now?

Característico e dominante entre os anos de 1975 até o fim da década de 80, AOR (Album-Oriented Rock ou Album-Oriented Radio ou Adult-Oriented Rock) foi um estilo musical que unia rock progressivo em tom de balada romântica com o que havia de pop na época, em ramificações melódicas influentes do soul/funk/jazz. Em certa medida, o subgênero deu origem ao pop-rock que conhecemos mais comumente hoje como rock alternativo, contudo, ao invés de inserções eletrônicas para potencializar as batidas do baixo e acordes das guitarras, eram os teclados e sintetizadores que marcavam presença na construção instrumental. Fora que o intuito estava bem mais direcionado numa gourmetização do consumo de rock, do que uma experimentação de uma nova valência do gênero.

No surgimento do hard rock, punk, dentre outros movidos conduzidos pela juventude, o rock era tratado como um estilo para marginalizado e destrutivo – consumo de álcool e drogas –, então bandas de AOR (e é disso que vem a origem da etimologia do “adulto”) surgiram para desmistificar esse rotulo, trazendo um teor populista de discoteca as canções, ainda que numa elaboração sonora mais sofisticada, visando criar álbuns com grandes hits em sequência para tocar nas rádios, o meio de comunicação mais forte para a venda e sucesso de uma música. Interessante analisar historicamente como essa junção de popularidade e sofisticação elitista fizeram o movimento, pois mesmo com o intuito de criar canções grudentas, ele ganhou muita força por conta de rádios subversivas que colocavam álbuns inteiros para tocar ao invés de intercalar diferentes canções. Isso reflete para num futuro bem perto, refletiu influência no hard rock mais romântico e jovial de bandas como Bon Jovi ou Aerosmith, por exemplo.

Particularmente esta está entre as minhas vertentes favoritas do rock, embora muita gente olhe estranhamente com mal gosto e subestime bastante bandas do AOR original, que tem em Journey, uma das gigantes representantes do estilo. Escape é o seu álbum de maior sucesso, embora longe de ser o mais regular da sua discografia – prefiro Infinity ou Frontiers –, possui pelo menos três canções que transcendem o estilo, o álbum e a banda. Impossível conhecer alguém que nunca tenha ouvido Don’t Stop Believin’ alguma vez na vida e não tenha se emocionado assim que se deparou com esta que para mim é uma das melhores canções de todos os tempos. A letra inspiradora, universal e humanista, de uma instrumentação alegre e contagiante que melhora o dia de qualquer pessoa que esteja pra baixo, mas instrumentalmente possui uma das construções sofisticamente harmônicas que já ouvi, numa sigilosa crescente ao refrão, com direito a um solo prévio fantástico de Neil Schon, para que a força do que ele signifique, transcendam o emocional do ouvinte.

As duas outras mencionadas, seriam o que na época, foram os grandes hits de fato da banda, embora não tenham sobreviveram tanto com o tempo como Don’t Stop Believin’. Isso não anula a força lírica de Who’s Cryin’ Now e Open Arms, canções com letras devidamente mais melancólicas que a abertura esperançosa e as que melhor trabalham os teclados de Jonathan Cain como auxílio das guitarras (que o próprio também conduz). A segunda, a última música do disco, finalizando-o num tom ambíguo, entre o perdão do eu-lírico, mas a não volta de um passado igualmente caloroso do seu amor. A premissa do álbum em seus coros, trás muito esse misto de aconchego e melancolia, da esperança e liberdade incerta, guiadas pela fé mais no outro do que em si para se recuperar. Além de me identificar bastante com a temática, Escape e Journey em geral transparecerem esse sentimento na sonoridade, não transformando seu virtuosismo sofisticado em alo meramente gratuito ao hit, por vezes transformando as letras simples com esse objetivo em narrativas dramáticas que nos passeiam entre esse misto de sentimentos para conversar com nosso subconsciente quando estivermos em qualquer uma das situações.

Fato que o tom de balada, deixam algumas músicas bem mastigadinhas, algo que vale e dá para encaixar com pelo menos metade do álbum – com ênfase nas músicas Keep on Runnin e Dead or Alive. No entanto, fora a tríade mencionada, Mother, Father, Still They Ride e a autointitulada Escape são canções com bem mais conteúdo lírico do que sugerem o apelo de seus refrões grudentos. Vale destacar Lay It Down com a proposta mais extravagante, “suja” e hardcore do álbum pode-se dizer assim, confirmação de que Journey tinha heterogenia e recursos fora do clima de balada. Um clima, que como dito, não vejo muito sentido em quem reclama, afinal são as canções que melhor consegue se comunicar sensorialmente suas intenções através do tempo. Fora que poucos vocalistas, tinham a capacidade de um Steve Perry, num timbre agudo especial para transitar entre os momentos de empolgação e relaxamento das músicas.

Por mais que Journey e outras bandas do AOR não sejam bem lembradas hoje – no sentido de esquecimento mesmo –, talvez por uma construção preconceituosa deste tipo de rock adjunto das distorções dos valores pregados por rockeiros hoje em âmbito geral, um público que infelizmente sofre com a não renovação, o que só torna esse fato mais irônico dado o significado da sigla do estilo – mas aí é assunto para outro texto –, Escape é um álbum que certamente passa do pertencimento a época, memorável e símbolo dos anos 80, mas inspirador e emocionante de ser ouvido até hoje, há exatos (na data de publicação do texto) quarenta anos do seu lançamento.

OBS: A versão remaster de 2006, contém uma faixa bônus excelente denominada La Raza Del Sol, além de três versões em live, no show de Huston em 1982, do trio de canções mais conhecidas do álbum.

Aumenta!: Don’t Stop Believin, Who’s Crying Now, Open Arms
Diminui!: Keep on Runnin
Minha Canção Favorita do Album!: Don’t Stop Believin

Escape
Artista: Journey
País: EUA
Lançamento: 31 de julho de 1981
Gravadora: Columbia
Estilo: Rock, AOR, Pop Rock, Rock Alternativo

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