Crítica | Espada Selvagem de Conan (2019) – Vol. 1: O Culto de Koga Thun

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É impressionante como esta nova versão de Espada Selvagem de Conan — parte do retorno do Cimério para a Marvel, depois de muitos anos — difere imensamente de outro título da mesma safra e com o mesmo personagem, o sensacional Conan, o Bárbaro cujo arco de estreia, A Vida e a Morte de Conan, Livro Um arrancou todos os elogios possíveis da minha 666ª personalidade (agora amaldiçoada pela feitiçaria de Tsotha-lanti). Se no outro título vemos respeito às origens do personagem e uma abordagem que condiz com tudo o que Conan representa, seja na literatura ou nos quadrinhos, esta versão-2019 de Espada Selvagem parece não ter exatamente uma preocupação nesse sentido. Aliás, se existe uma preocupação aqui, é talvez criar um espetáculo “cheio de identidade sombria e novidades alucinantes” que, na verdade, mal sustenta a premissa interessante que tem.

Nós começamos a trama com Conan à deriva (aqui ele tem 20 anos, segundo o roteiro de Gerry Duggan) após seu navio ter sido destruído por piratas. Claro que Conan é o único sobrevivente da batalha. A grande problemática está apresentada de maneira simples, num tom de saga típico das histórias de espada e feitiçaria, onde o herói errante, acossado ou vencido, passa por um jornada de provações, enfrenta criaturas e pessoas terríveis e sai vitorioso, a caminho de sua próxima aventura. Justamente por ter esse tom de ‘ciclo completo de aventuras’ O Culto de Koga Thun consegue pelo menos ser um arco mediano, mais uma vez trazendo uma história onde Conan enfrenta um feiticeiro, o tipo de personagem que sempre deixa o Cimério desconfortável.

Na primeira partes das provações de Conan nós o vemos ser salvo por comerciantes de escravos e colocado no porão do navio para ser vendido, caso sobrevivesse. O bárbaro escapa de seus captores com alguém que o ajudou a se recuperar (um homem de rápida adequação moral chamado Suty), enfrentando uma sequência de eventos que o colocará em nova provação, agora ligada à temática do arco, sendo revelado para ele um mapa até a cidade de Kheshatta, na Stygia. E é neste bloco que as coisas desandam. Ou melhor: não andam. O texto de Gerry Duggan se limita a algumas descrições simples de pensamento, lugar, situação e diálogos que mostram a importância da ameaça em questão mas não faz nada de realmente impressionante com essas informações. Ao fim, o leitor está pouquíssimo interessado em seguir com a leitura da história do arco seguinte, o que é algo praticamente inédito em se tratando de Conan.

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E para piorar, ao menos na minha visão, temos a arte de Ron Garney, que não ajuda em nada. Eu até entendo o motivo pelo qual o artista foi escalado — seu estilo sujo, caótico e facilmente relacionável com o mundo onírico, perturbador e afins deixam clara a intenção dos editores do título — mas Conan é o tipo de personagem que EXIGE um artista muito mais técnico ou que pelo menos consiga, mesmo com o desenho mais solto possível, cercar o personagens de coisas realmente impactantes, o que também não acontece neste arco, nem nas cenas tipicamente de terror, nem onde Conan sai cortando tripas e cabeças para todos os lados. Seguindo a linha da “marca básica” temos as cores de Richard Isanove, outro setor da revista que não ajuda muito, preferindo mergulhar os quadros em uma única cor situacional (como se isso fosse realmente ajudar a criar uma atmosfera sem a ajuda dos desenhos) ou fazer mínimas variações ao longo das edições, algo que até poderia funcionar se tivéssemos uma arte mais detalhada ou quadros mais cheios.

Esta viagem ao estranho subterrâneo de uma cidade dominada por feitiçaria e mais alguns mistérios herdados dos primeiros tempos da Era Hiboriana funciona até o limite da mediocridade. Os diálogos são rasos e são bem poucos os momentos em que o autor consegue realmente nos prender com seu drama fácil de caça ao tesouro + perseguição de magia das trevas. Pelo menos as capas são excelentes. Mas em termos de história, Conan merecia algo bem melhor.

Savage Sword of Conan Vol.2 #1 a 5: The Cult of Koga Thun (EUA, 2019)
Roteiro: Gerry Duggan
Arte: Ron Garney
Arte-final: Ron Garney
Cores: Richard Isanove
Letras: Travis Lanham
Capas: Ron Garney, Alex Ross
Editoria: Mark Basso, Ralph Macchio
120 páginas

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.