Crítica | Espelho (2003)

Os filmes de terror são organizados estruturalmente dentro de tradições. No caso do segmento oriental e suas refilmagens ocidentais, os realizadores trabalham constantemente com portais de contato entre pessoas do mundo real em conflito com a seara sobrenatural. Atualmente, aplicativos, smartphones e notebooks tem sido a preferência para a chegada das entidades do além, pois como o cinema é a arte do contexto, as produções geralmente dialogam com questões próprias da realidade de seus realizadores.  E vivemos, obviamente, mais uma das eras da cibercultura. Nesse contexto, no entanto, ainda há espaço para portais mais tradicionais, presentes em narrativas desde a tradição literária. Refiro-me aos espelhos, itens de forte carga simbólica no bojo da ficção, em especial, dos filmes de terror.

Ele é o equivalente aos elevadores, armários e televisores, espaços utilizados como moradias ideais para entidades interessadas em tirar personagens do conforto diário de suas respectivas vidas. Antes de Sutherland entrar numa luta ferrenha para salvar a sua família de uma maldição em Espelhos do Medo, os coreanos já tinham ofertado a produção que serviria como ponto de partida para a refilmagem. Em Espelho, duplos, assimetrias e situações misteriosas envolvem bastante os personagens, num filme que teve apenas algumas correspondências levadas para o remake. Sob a direção de Sung-ho Kim, acompanhamos Wu Young-min (Yoo Ji-tau), jovem policial de Seul que durante uma ação, age sem os devidos cuidados e acaba sendo um dos responsáveis pela morte de seu parceiro de trabalho.

Ele vai trabalhar como segurança que está prestes a inaugurar, um local que há três anos, foi palco de um incêndio devastador. O empreendimento é de seu tio, homem frio e nada simpático, personagem que reforça constantemente para Young-min que está ali prestando um favor, além de delinear que não é um lugar para o jovem se sentir tão confortável, pois é um serviço que supostamente requer atenção redobrada, haja vista os acontecimentos com o último segurança que ocupava a vaga. Com um roteiro que se arrasta muito para contar coisas que seriam resolvidas de maneira mais prática e envolvente, o filme nos mostra que as vítimas do incêndio ocorrido no passado podem não ter descansado em paz, conforme se imagina. Há a presença frequente de uma mulher que aparece no espelho, aparentemente interessada em enviar algo.

Os suicídios dos funcionários anteriores são investigados por Heo Hyeon-su (Kim Myung-min), policial que busca por respostas que ele mesmo não consegue se responder, tamanha a arbitrariedade de algumas mortes e situações. Assim, o protagonista sai numa investigação pessoal que busca uma dupla missão, isto é, a resolução dos mistérios que envolvem os suicídios e também exercer o que de fato ele se profissionalizou para ser, numa busca por redenção própria dentro de seu próprio cenário nada animador. Ele vai se deparar com vinganças mirabolantes de presenças sobrenaturais que não se conformam com os males infligidos em vida, numa saga repleta de personagens tomados pela dor, raiva, luto, etc.

Ademais, os espelhos são elementos de forte carga simbólica há eras e funcionam aqui como portais para o mundo sobrenatural. Tal como apontado, a narrativa possui alguns momentos inspiradores, mas no geral o resultado é mediano, pois há potencial para uma história mais envolvente, tratado apenas como mais um filme de terror genérico-subjetivo-reflexivo- oriental, narrativa com boa condução musical, assinada por Il Won, setor que recebe o apoio do design de som de Ji-soo Lee, numa simbiose sonora que evita excessos, tais como os ferrões que hoje conhecemos por jumpscare. Quem também faz um trabalho muito acima da média é Han-cheoul Jeong, na direção de fotografia, seara da produção dominada por enquadramentos e movimentos eficientes, envolventes em sua proposta de nos deixar sempre em suspense.

Lançado em 2003, Espelho traz ao longo de seus 113 minutos, muitos diálogos sobre a condição dos próprios espelhos e seus significados em nosso cotidiano repleto de simbologias imersas numa cultura repleta de muitas informações em simbiose. Com a cinematografia bem planejada, cada reflexo dos espelhos é cuidadosamente trabalho para nos envolver nesta trama de duplos, gêmeos e outras questões abertas para subjetividade, mas que para entretenimento, acaba sendo um tanto extensa demais e monótona, além de fraca no que concerne aos desdobramentos supostamente complexos, mas sofisticados apenas nas estratégias utilizadas pelos realizadores para nos contar a história. Espelho é um filme que reluz, mas não é metal precioso. O seu tema é interessante. Perdeu impacto depois de transformado em narrativa.

Espelho (Geoul Sokeuro) — Coreia do Sul, 2003
Direção: 
Sung-ho Kim
Roteiro: Sung-ho Kim
Elenco: Kôichi Satô, Ji-Tae Yoo, Myung-Min Kim, Hye-na Kim, Ju-bong Gi, Kim Myeong Su, Yeong-jin Lee, Eun-pyo Jeong
Duração: 113 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.