Crítica | Espelho Mágico (2005)

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Espelho Mágico (2005) é mais uma das lindas e estranhas empreitadas barrocas de Manoel de Oliveira. O filme traz a fé como elemento gerador do argumento central e, a partir dele, o fanatismo encontra lugar e se propaga, gerando situações que beiram o surreal e abraçam a comédia. Inspirado no romance A Alma dos Ricos, de Agustina Bessa-Luís (segunda parte da trilogia O Princípio da Incerteza, composta pelos livros Joia de Família, A Alma dos Ricos e Os Espaços em Branco), Espelho Mágico contou com algumas rusgas no processo de produção, com um pequeno desentendimento entre Oliveira e Bessa-Luís, escritora que o cineasta adaptava desde Francisca (1981). Esses problemas foram resolvidos ainda no processe de filmagens e todos estavam relacionados ao tratamento do diretor em relação ao tema da riqueza e da fé.

Neste longa-metragem Manoel de Oliveira visita os recônditos da fé cristã, e o “espelho mágico” do título é inserido numa base sobrenatural e íntima para Alfreda (Leonor Silveira), aristocrata que carrega a ideia fixa de ver-se frente à santidade de Maria, mãe de Jesus. Ela quer contato com os santos e imagina que as famílias bíblicas pertenciam igualmente às aristocracias de seu tempo. Tudo pode parecer uma simples trama de loucura mas, neste filme, vemos uma nova dimensão para esta demonstração do fanatismo andando lado a lado com uma explicável e mais comedida crença nos santos em Deus, este aspecto representado pelos religiosos ao redor da protagonista.

Amparada pelo marido (também carente de redenção), Alfreda compartilha a sua crença com diversas personas e o diretor nos mostra todas essas relações a partir de uma abordagem técnica levemente distinta, ressaltada pelos excelentes figurinos que marcam o Universo e personalidade de cada um. Aparecem aqui um teólogo, um padre e uma freira, mas Oliveira não poderia deixar de filmar um contraponto que relativizasse as conversas religiosas mais sérias… e é aí que entram em cena a dupla de trambiqueiros interessados na fortuna de Alfreda e seu marido. Para faturar, eles pretendem encenar a aparição da Virgem Maria para a devota esperançosa.

Aqui, ganha imenso destaque a música-tema da película, o incrível poema sinfônico Danse Macabre, de Camille Saint-Saëns. A música abre e fecha o filme e a mensagem dada é a de que a morte ronda o homem e também à sua fé e sua visão de si mesmo. E em meio a esse poço de adoração ao invisível há os incrédulos, aqueles que se aproveitam da fé dos outros para fraudarem. A magia da fé (extremada ou comedida) versus a crueza infame da realidade (e que às vezes encontram pessoas de boas intenções, porque nem só de perfídia vive a humanidade) são os dois lados da moeda encontrados no filme.

Espelho Mágico é um filme sensível e provocante, cheio de idas e vindas em relação aos desejos e à imaginação. Um filme cheio de fulgor e que atravessa diversas mortes simbólicas: do corpo, da alma, da moral e da fé. Um maravilhoso exemplar da marca maior do diretor, a de representar as absurdas e profundas ambições, dores e memórias do homem, e que além de questionar o divino e discutir a morte, traz uma relevante reflexão sobre o que é sagrado e o que se fabrica como sagrado. Um filme mais necessário aos cristãos da atualidade do que um par de cultos de doutrina para “bons cidadãos” que valorizam tudo o que vai da violência à esculhambação moral de seus inimigos, deixando de lado aquilo que supostamente deveria fazer-lhes cristãos: a magia do espelho onde se vê o mundo pela fé. O momento a partir do qual tudo deveria mudar.

Espelho Mágico (Portugal, 2005)
Direção: Manoel de Oliveira
Roteiro: Manoel de Oliveira (baseado na obra de Agustina Bessa-Luís)
Elenco: Leonor Silveira, Ricardo Trêpa, Luís Miguel Cintra, Leonor Baldaque, Glória de Matos, Isabel Ruth, Adelaide Teixeira, Diogo Dória, José Wallenstein, Maestro Atalaya, P. João Marques, Marisa Paredes, Michel Piccoli, Lima Duarte, Eugénia Cunha
Duração: 137 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.