Crítica | Espelhos do Medo 2

Mais vingança, mais sangue, outra refilmagem. Eis que depois de tantas abordagens, em 2010, a indústria ainda demonstrava interesse por leituras ocidentais de filmes de horror do oriente. Espelhos do Medo 2 não chega a ser exatamente uma reinterpretação de um enredo oriental, mas a extensão do que foi desenvolvido no primeiro filme, dois anos antes, produção inspirada na trama criada por Sung-Ho Kim. Desta vez, o dono do shopping Mayflower decide reabrir as portas de sua franquia na Louisiana após o incêndio que demarcou o desfecho do filme anterior. A vítima agora será o seu filho Max Matheson (Nick Stahl), jovem que ainda é perturbado pelas lembranças de um acidente de carro relativamente recente, incidente que ceifou a vida de sua noiva bem no dia que ele pretendia fazer o bendito pedido de casamento.

Assim, no roteiro desenvolvido por Matt Venne, texto repleto de problemas em ações e diálogos, temos a presença de um “perdedor”, homem que precisará retomar a sua vida diante das mensagens sobrenaturais oriundas de tais espelhos, pois tudo indica que o seu pai pegou a peça principal do horror no filme anterior, o gigantesco espelho que serviu de portal para os espíritos vingativos, e a trouxe para o novo empreendimento onde o seu filho vai ficar como segurança. Perdido entre as drogas e bebidas Max ganha a estranha chance de se recuperar com um trabalho, mesmo que pelo desenvolvimento da história, tenhamos a sensação da falta de necessidade de um emprego, mas a importância de uma terapia mais firme e missões menos angustiantes, pois o jovem passa a ocupar o lugar do segurança anterior, homem que se desfigurou com cacos de espelho logo na cena de abertura da produção, guiado por uma mensagem do além ou coisa parecida, tal como o personagem de Kiefer Sutherland.

Sob a direção de Victor Garcia, Espelhos do Medo 2 funciona mais como um remake do primeiro do que efetivamente uma sequência, pois a estrutura é a mesma, semelhante ao que encontramos, por exemplo, na franquia Premonição, com a mudança de elenco e local, mas o mesmo modo de operação das mortes, bem como do mote do roteiro.  Tomado abruptamente pelo CGI oriundo da equipe de efeitos visuais comandada por Sean Findley, o filme continua com Max a sentir estranhas manifestações logo em sua primeira noite de trabalho. É quando a mensagem enviada pelo além reforça que há algum espírito muito insatisfeito com as coisas que lhe fizeram em vida e, por isso, precisa expor a sua mensagem para que todos saibam o desfecho trágico de sua vida.

A vítima desta vez é uma jovem garota, parte de um plano diabólico envolvendo pessoas inescrupulosas, interessadas em brincar com a vida alheia, sem imaginar o alto preço a ser pago por conta da maldade gratuita. As mortes, tal como a base da história, ocorrem conforme o espelho nos apresenta durante um breve momento de alucinação. Violentas, sem nenhum pudor diante da quantidade de sangue derramado, observamos o angustiado protagonista numa batalha para tentar poupar a vida das pessoas que lhe são apresentadas antecipadamente. Ele sequer pode fazer muita coisa porque o seu trauma diante do acidente de carro o impede de tomar qualquer automóvel para chegar mais rápidos aos integrantes da lista do espírito enraivecido.

Alguns filmes conseguem ser relevantes ao menos por sua condução estética. Espelhos do Medo 2, lançado em 2010 direto no mercado de vídeo, sequer nos surpreende com nada que seja além do trivial. A direção de fotografia de Lorenzo Senatore faz o que o filme anterior já havia apresentado, melhor, por sinal, algo que reforça a sua presença como algo apenas burocrático, sem ambições artísticas. O mesmo podemos dizer do design de produção de Andrew W. Bofinger, pouco inspirado, com alguns pequenos detalhes da direção de arte de Jeremy Woolsey como destaque, mas nada muito especial. A trilha sonora de Frederik Wiedmann é boa, tal como os efeitos sonoros da equipe de Chad J. Hughes. O único problema é a forma que os realizadores acharam de utilizá-los, isto é, o festival de excesso ao longo de seus 86 minutos de duração.

Ademais, mesmo que alguns diálogos com a Dra. Beaumont (Ann Mackenzie) sobre a representação dos espelhos em determinadas culturas sejam instigantes, Espelhos do Medo 2 recai nas repetições constantes das refilmagens, com muitos flashbacks, pistas falsas, uma fantasma ainda cheio de energia neste plano, focado em vingar-se de quem lhe fez mal, no entanto, pior que isso, ingrata, pois mesmo após a finalização de sua lista, ainda consegue acabar com a vida de outras pessoas que nada a fizeram. Incongruente, mas o menor problema de um filme que depende exclusivamente dos ferroes sonoros e efeitos visuais exagerados para nos chamar à atenção, afinal, impossível passar incólume aos saltitantes “berros” que surgem do nada no meio da narrativa. Em suma, uma produção focada em contar basicamente a mesma história, apenas com mudança de tempo e espaço, trocas não suficientes para tornar o filme um exercício relevante no bojo da linguagem cinematográfica e da indústria.

Espelhos do Medo 2 (Mirrors 2) — Estados Unidos, 2010
Direção: Víctor García
Roteiro: Matt Venne, Sung-ho Kim
Elenco: Amber Gaiennie, Ann Mckenzie, Christy Carlson Romano, Emmanuelle Vaugier, Grant Case, Jon Michael Davis, Lance E. Nichols, Lawrence Turner, Melody Noel, Monica Acosta, Nick Stahl, Stephanie Honore, Thomas C. Daniel, Wayne Pére, William Katt
Duração: 90 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.