Crítica | Espelhos do Medo

Após o sucesso de Samara e Kayako, o Homem-Sombra ganhou as telas do cinema em 2008, juntamente com os espíritos vingativos dos espelhos que deram origem ao filme Espelhos do Medo, narrativa sobre algo que já havíamos contemplado antes, não apenas pelas refilmagens, mas por conta das produções orientais que também ganharam espaço em nosso mercado, disponíveis em salas de exibição ou lançadas diretamente no mercado de vídeo. O ponto de partida desta vez é a trama de Espelhos, realizada por Sung-Ho Kim, adaptada para as plateias ocidentais pelo roteiro de Gregory Levasseur, tendo como cineasta, o francês Alexandre Aja, conhecido por seu ótimo trabalho na refilmagem do clássico Quadrilha de Sádicos, bem-sucedido no slasher Alta Tensão, lançado em 2003, produções que lhe deram as bases para assumir filmes com cargas sanguinárias acima do comum.

Para o sucesso de Wes Craven dos anos 1970, Aja conseguiu construir um filme que não fica em nada atrás do seu “original”, pois Viagem Maldita talvez seja a melhor refilmagem slasher da década de 2000. Ele tinha um bom ponto de partida, assim, soube conduzir bem o seu material. Já no caso de Espelhos do Medo, a sensação que se tem é a da provável interferência dos produtores no processo de banalização da carga dramática do filme, transformado num festival de mortes e efeitos visuais. Importante ressaltar que a obra que lhe serve como ponto de partida também não é um filme grandioso, o que não lhe impedia, por sua vez, de realizar uma versão melhorada no esquema de produção estadunidense. Isso não aconteceu. O que temos é um filme óbvio que não é ruim, mas apenas comum demais, sem nada que o justifique como uma trama memorável de horror. Em suma, apenas entretenimento, repleto de falhas.

Na trama, acompanhamos Ben Carson (Kiefer Sutherland), um ex-policial que teve a sua vida transformada diante de uma tragédia que ceifou a vida de seu parceiro. Amargurado, ele é afastado do cargo, adentra o perigoso mundo da bebida, com ações que refletem diretamente na vida de sua família, formada por Amy (Paula Patton), e seus dois filhos, Daisy (Erica Gluck) e Michael (Cameron Boyce). Além das bebidas em altas doses, Ben constantemente toma remédios controlados e comporta-se de maneira instável. A sua esposa pede o afastamento, principalmente por conta das crianças, e a solução do sofrido personagem é morar com a irmã por algum tempo, até a normalização das coisas.

É quando surge uma oportunidade de trabalho, algo que pode mudar novamente a sua vida e fazer bem ao seu casamento e imagem pública. Ben começa o trabalho num shopping center em ruínas, chamado Mayflowers. O espaço é a representação cabal se seu estado psicológico, pois é o amontoado de restos oriundos do incêndio de um homem transtornado que matou quarenta pessoas e depois colocou fogo no local. A sua estadia como segurança parece um trabalho simples, mas cada centímetro daquele espaço carrega energia de espíritos que aparentemente não estão satisfeitos com o ocorrido em vida e decidem enviar mensagens por meio de um portal, o grande espelho que fica no centro da área principal. A morte na cena de abertura reforça que há algo de muito assustador no local e a nossa missão como espectador será acompanhar o estabelecimento da crise e os desdobramentos na vida do protagonista.

De volta ao espaço, as paredes são sujas, os manequins lembram cadáveres, a iluminação é baixa, o que dá espaço para a escuridão e os breves feixes de luzes criados para estabelecer os contrastes, elementos justapostos ao grande espelho que não se destruiu no incêndio, portal transmissor das mensagens sobrenaturais. É um objeto que nos faz perguntar os motivos de não ter se destruído durante o incêndio. As respostas chegam aos poucos, em meio aos sustos provenientes do uso constante de jumpscare, recurso da equipe de design de som e da trilha sonora de Javier Navarrete. A direção de fotografia e o design de produção, assinados por Maxime Alexandre e Joseph C. Nemec, respectivamente, conseguem construir uma boa atmosfera de terror ao longo dos 110 minutos de Espelhos do Medo, trama que investe em muitos truques de profundidade de campo e de outros movimentos para pregar peças no espectador.

Interessante observar o esforço da direção de arte de Stephen Bream, setor do design de produção cuidadoso com os seus espelhos dispostos de maneira eficiente para a captação das imagens, além do trivial, mas instigante chão em estilo xadrez, reforço de que o personagem circula por espaços que lhe serão desafios durante todo o filme. E os espelhos, obviamente, ponto alto do filme, único recurso adaptado da versão oriental, ganham num filme um uso interessante como portal. Nas tramas refilmadas deste segmento, já tivemos celulares, fitas VHS, recentemente DVD e aplicativos de celular. O uso de espelhos, elementos bastante significativos no bojo de nossa sociedade de símbolos e nas interpretações da psicanálise seria um ótimo recurso enquanto portal, caso tivesse sido exposto numa trama mais substancial.

Da investigação inicial de Ben até descobrirmos a maldição que envolve Anna Esseker (Mary Beth Peil), todos estão em perigo, pois os irrefreáveis espelhos não poupam vidas, até que a missão incumbida ao herói seja atendida. A maldição não poupa ninguém e a morte de Angela (Amy Smart), na banheira, é um dos pontos altos do sangue e exagero em Espelhos do Medo. Ademais, como desfecho dessa análise, aponto os efeitos visuais da equipe de Stephane Bidault como excelentes em algumas passagens, mas exagerados noutras, numa espécie de compensação do filme por sua baixa qualidade dramática, bem como os seus constantes furos na condução do roteiro. Há também alguns diálogos um pouco constrangedores, algo que nos faz desrespeitar os atributos estéticos da produção que em 2010, ganhou uma continuação desnecessária, acontecimento comum no sistema de produção artística industrial. Se fornece lucros, por qual motivos parar, não é mesmo?

Espelhos do Medo (Mirrors) — Estados Unidos/Romênia, 2008
Direção: Alexandre Aja
Roteiro: Alexandre Aja, Grégory Levasseur, Sung-ho Kim
Elenco: Kiefer Sutherland, Adina Rapiteanu, Aida Doina, Amy Smart, Bart Sidles, Cameron Boyce, Darren Kent, Erica Gluck, Ezra Buzzington, Ioana Abur, Jason Flemyng, John Shrapnel, Josh Cole, Julian Glover, Mary Beth Peil, Paula Patton, Roz McCutcheon, Tim Ahern, William Meredith
Duração: 90 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.