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Crítica | Espiral: O Legado de Jogos Mortais

por Leonardo Campos
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Ainda há espaço para a franquia Jogos Mortais? Esse é um questionamento quase unânime entre os críticos, espectadores, distribuidores e realizadores. Para alguns a resposta é um sonoro não, haja vista o desgaste de uma saga que já teve oito filmes e não tem mais o que dizer. Para outros, há, tranquilamente, a possibilidade de se renovar, pois é parte da história do gênero esse processo de transformação e ressurgimento. Fico, em meu posicionamento, com a opção 2, isto é, o sim para o retorno de Jogos Mortais, sem deixar de dizer que concordo com as observações do primeiro grupo, afinal, depois de tantas armadilhas curiosas, mortes excessivas, reviravoltas absurdas e jogos sádicos que levam as suas vítimas ao suplício, como apresentar esse universo por um caminho oxigenado? Esse foi o desafio dos realizadores de Espiral: O Legado de Jogos Mortais, nono filme deste universo de mortes violentas e antagonista em posição de justiceiro, responsável por levar pessoas de ética questionável ao seu tribunal de julgamentos onde na maioria das vezes, não há absolvição e a punição geralmente é bem dolorosa.

Aqui, estamos diante de uma linha narrativa de filmes que dialogam com o suplício como punição para indivíduos transgressores daquilo que Jigsaw considera imoral, inadequado, antiético. É uma perspectiva de pensamento que nos remete ao que Michel Foucault chamou de ordem jurídico-pedagógica, isto é, a punição que busca ensinar, consertar, implementação do poder coercitivo que atua sobre os corpos como uma maneira de mostra-los o caminho de uma verdade perpetrada pelo autor das armadilhas, o homem que “brinca de Deus”, um mortal estabelecedor de limites para aqueles que fogem dos padrões de uma sociedade que vive os ditames da civilização e não pode se entregar ao “mal-estar” estudado por Freud em uma de suas principais reflexões, bastante norteadora, por sinal, para compreender Jigsaw e seus imitadores, realidade a ser enfrentada em Espiral: O Legado de Jogos Mortais, narrativa que traz um novo ceifador de vidas corruptas, uma espécie de Marques de Sade do nosso tempo, salvaguardadas as devidas proporções comparativas quando lembramos do clássico polêmico 120 Dias de Sodoma, publicado no século XVIII, obra com traços bem parecidos com os atuais jogos mortais.

Depois da trajetória de Jigsaw, ou John Kramer, personagem interpretado por Tobin Bell, não demorou para os produtores investirem em imitadores, pessoas manipuladas por seus desejos psicóticos, levadas aos extremos na ânsia de continuar o legado do assassino justiceiro dos filmes antecessores. Sob a direção de Darren Lynn Bousman, responsável pelos episódios dois, três e quatro da franquia, retornamos ao universo em questão com um novo assassino a desafiar as autoridades, em especial, o detetive Ezekiel Banks, também conhecido como Zeke (Chris Rock), filho de outro policial corrupto, Marcus Banks (Samuel L. Jackson). Ele é desafiado pelos crimes que começam a rondar muito próximo de sua vida pessoal e profissional, num padrão que envolve o habitual assassinato violento, seguido do registro enviado para contemplação e organização do quebra-cabeça que os levará ao desfecho com as revelações que aqui, são até simplistas demais, algo para vermos como um desafio genérico, sem as complexidades reflexivas de outros momentos mais elaborados dos primeiros anos desta franquia bem-sucedida. Para ajuda-lo na investigação, o protagonista contará com o detetive William Schenk (Max Minghella), uma peça fundamental para a condução da angustiante saga de crimes e mistérios.

O filme começa num evento em pleno feriado de 04 de julho. Pessoas brincam num parque de diversões e o que aparenta ser só alegria nos deixa com a sensação de inquietude. A normalidade, logo, será quebrada pela histeria quando uma mulher tem a sua bolsa roubada por um ladrão bastante veloz. Um policial de folga observa a cena e decide reagir, indo atrás do criminoso que se bifurcou por uma tubulação e foi parar nos corredores subterrâneos da região que serve de passagem para o metrô. Logo, ele é atacado por trás por uma figura vestida com máscara de porco. Em minutos, acorda pendurado nos trilhos e com um monitor próximo. O que segue a gente já conhece: o mascote vai conversar, explicar a sua podridão enquanto ser humano, propor uma salvação, mesmo que com isso, um preço alto seja necessário para garantir a sobrevivência. Neste caso, para não ser destrinchado pelo vagão que se aproxima, ele precisa se desprender da armadilha e perder a sua língua. Viver ou morrer? É preciso fazer uma escolha.

É assim que se comporta o assassino que utiliza, desta vez, um novo mascote, o humorado porco com roupa de policial, dando ao assustador boneco Billy de Jigsaw, o afastamento necessário, pois segundo os realizadores, como John Kramer não estava envolvido na história com presença além do seu legado, não era interessante envolver os elementos de sua vanguarda. James Wan e Leigh Whannel, diretor e roteirista do primeiro filme, lançado em 2004, retornam para a produção executiva, juntamente com Chris Rock, ator visto com mais frequência em filmes de ação e comédia, desta vez, numa trama de horror que é mais uma narrativa policial genérica, longe de ser ruim, mas sem o vigor esperado para uma proposta que pretendia ser o novo respiro da franquia. Para o leitor que se pergunta os motivos, as respostas são simples: as mortes e os desdobramentos da investigação são mecanizados por um roteiro muito morno, aparentemente sem coragem de ousar tanto. Falta, digamos, emoção, mesmo que visualmente ainda tenhamos os ambientes inóspitos, a perversão aliada ao ideal de renascimento e a figura do pai tirano, traços comuns ao gótico que neste universo sádico parece ser retomado como tema.

Ademais, as armadilhas surgem como variações inferiores do que já foi feito ao longo de oito filmes. A corrupção policial, tema central da história, é provocada e mantém o filme mais interessante do que poderia ter sido sem este foco, mas a ausência de aprofundamento e melhor desenvolvimento da crítica fazem de Espiral: O Legado de Jogos Mortais, uma narrativa média, nivelada no “bom”, algo que talvez melhor trabalhado, renderia um ótimo filme de terror com toques de trama policial. Falta ritmo e a sensação é a de espera constante por algo revelador, fora da curva, uma reviravolta que nos tire do chão e permita expressar “ah, sim, agora saquei o retorno”. Tudo isso, no entanto, fica no terreno das expectativas. São as grandes esperanças que se tornam falsas intenções. O responsável pelo estabelecimento de uma nova onda de crimes oriunda do legado de Jigsaw é uma vítima do sistema, ansiosa por limpar as ruas da cidade e exaurir a corrupção policial sistêmica, assunto fervoroso na contemporaneidade. Ele até consegue, em partes, num desfecho aparentemente favorável ao imitador de John Kramer. É esperar para ver se haverá continuação, pois uma proposta para transformação da franquia em série televisiva circula por meio de documentos na mesa dos produtores desde 2020.

Orquestrado por Darren Lynn Bousman, Espiral: O Legado de Jogos Mortais foi escrito por Josh Stolberg e Pete Goldfinger, equipe que entrega o material dramático para a direção de fotografia de Jordan Oram adequar o seu tom para uma atmosfera de iluminação quente, numa espécie de busca por imagens que nos transmita a sensação de estarmos diante de algo retrô. É um setor eficiente em seu trabalho, tal como o design de produção assinado por Anthony Cowley, adequado para a proposta, mas sem o vigor de alguns dos seus antecessores, até inferiores dramaticamente, como os abomináveis Jogos Mortais 4 e 5, filmes ruins que capricharam na construção de espaços cenográficos que eram melhores que qualquer uma de suas linhas de diálogos escritas nos roteiros. Ainda que tenha a colaboração de Charlie Clouser, o criador do ótimo tema principal da franquia, a música desta vez teve o apoio do rapper 21 Savage, responsável por turbinar a atmosfera habitual com um tom peculiar. Sem o excesso de jumpscare comum ao tipo de narrativa, a empreitada mediana desse imitador de Jigsaw funciona esteticamente, tendo problemas apenas no desenvolvimento de seus atributos dramáticos.

Espiral: O Legado de Jogos Mortais (Spiral: From The Book of Saw, Estados Unidos – 2021)
Direção: Darren Lynn Bousman
Roteiro: Josh Stolberg, Pete Goldfinger
Elenco: Chris Rock, Samuel L Jackson, Max Minghella, Marison Nichols, Zoie Palmer, Dan Petronijevic, Nazneen Contractor
Duração: 93 minutos

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