Crítica | Espíritos 2: Você Nunca Está Sozinho

O casal Tun e Jane sofreu bastante diante da vingança de Natre, espírito perturbado por sua experiência nada agradável enquanto esteve viva, num retorno em busca de retaliação que levou basicamente todo mundo que a fez purgar durante os seus últimos momentos na existência física. Espíritos – A Morte Está ao Seu Lado termina com o protagonista amaldiçoado pela eternidade da presença do fantasma na famosa cena que explica a sua dor constante nas costas. O tal “encosto” manteve-se durante todo tempo pendurado em seus ombros, justaposto ao seu corpo como mostrou o desfecho da história.

Sucesso de crítica e com bons rendimentos financeiros, a dupla de cineastas responsável pela produção engatilhou outro projeto, aqui no Brasil, tratado como continuidade, mas na verdade uma produção que possui como elo apenas o time de realizadores, afinal, trata-se de outro rumo narrativo, mesmo que a vingança fantasmagórica esteja nas bases de seu argumento, escrito desta vez numa parceria com Soplon Sakdaphisit e Aummaraporn Phandintong, colaboradores na condução de Espíritos 2 – Você Nunca Está Sozinho,  trama sobre uma jovem atormentada pela suposta presença sobrenatural de sua irmã siamesa, separada ainda na adolescência, mas que não consegui êxito e morreu durante o procedimento de separação.

Diante de uma história que envolve vingança, além da enxurrada de narrativas para nos espelharmos no que diz respeito às referências, provavelmente o fantasma que morreu contra a sua vontade retorna em busca de retaliação. Adianto que é mais ou menos esse o caminho, mas há outras questões que precisam ser pontuadas. Mesmo que em 2007, já estivéssemos saturados de tantos lançamentos simultâneos de horror oriental com o mesmo mote, isto é, espíritos perturbados por vinganças contra aqueles que os prejudicaram ao longo da vida,  Espíritos 2 – Você Nunca Está Sozinho ganha a sua relevância pela forma como a trajetória dos personagens é conduzida, tanto nos quesitos dramáticos quanto estéticos.

Vamos, então, ao seu enredo. Ao longo dos 105 minutos de produção, acompanhamos a saga de Pim (Masha Wattanapanich), jovem que decide deixar o seu passado traumático na Tailândia para se mudar rumo à Coreia do Sul. Ela segue para a nova vida juntamente com Wee (Vittaya Wasukraipaisan). É um novo momento, com amigos diferentes, grupos de interação que a permite desanuviar de sua dolorosa história familiar, mas como se trata de um filme de horror, o passado retorna com força total, aparentemente interessado em cobrar algo que ela deixou em débito nesse tal passado obscuro. A sua mãe adoece e por isso, ela precisa retornar para a Tailândia, momento de resgate das memórias de sua irmã que terminou a vida em conflito com Pim, haja vista o interesse amoroso da moça por Wee.

Tudo isso é apresentado por meio de flashbacks explicativos que não tentam ser forçadamente didáticos, mas apenas ilustrações para a compreensão de algumas ações dos personagens diante do tempo da narrativa. A história com a irmã Ploy não foi das melhores, pois durante os bons momentos de união, mesmo diante das dificuldades de ordem física, as personagens dividiam não apenas a óbvia estrutura corporal, mas seus sentimentos. Eram cúmplices. Tudo mudou com a chegada de um interesse amoro para Pim. A irmã que antes não era favorável ao processo de separação pede a mudança de imediato, mas acaba por falecer. Descobriremos, mais adiante, as suas motivações sobrenaturais para cobrar o que lhe foi retirado.

O leitor provavelmente deve perguntar o que de fato foi retirado, pois diante das circunstâncias, todas as ações da garota podiam resultar em consequências que a mesma possuía total compreensão das possibilidades de ocorrência. É quando o roteiro nos prega a sua reviravolta que se apresenta bem interessante, mesmo que o desfecho nos faça lembrar de um filme slasher, com mortes aleatórias em prol da escolha narrativa do plot twist. E se Pim na verdade é Ploy, a irmã má que matou a outra por ciúmes e assumiu a sua identidade? Já pensou, caro leitor? Uma reviravolta digna de novela. É dentro deste feixe de possibilidades que a trama se desenvolve, tendo uma morte gerada num momento de ódio como mote para as aparições sobrenaturais.

Na seara dos efeitos visuais, Sornrob Choiekewong cumpre bem a sua missão de criar aparições fantasmagóricas convincentes, promovidas não só por seus truques, mas também pela eficiente direção de fotografia de Niramon Ross, excelente em seus jogos com espelhos, ajustes da profundidade de campo e boa condução dos contrastes entre luzes e sombras, algo que o antecessor, repito, apenas no nome, pois não é uma continuação oficial, fez muito bem. A trilha sonora de Chatchai Pongprapapham cumpre a sua tarefa sem grandes problemas, exaltada constantemente em consonância aos efeitos sonoros assinados pela equipe de Makin Poljairuk, repleto de ferrões musicais que amplificam os trovões, chuvas, espelhos trincados e outras manipulações da equipe de efeitos especiais. Na seara do design de produção, o trabalho também consegue manter-se digno, com ambientes bem construídos pela equipe de Pawas Sawatchaiyamet. Em suma, um exercício estético que funciona.

Em O Grito, tínhamos aprendido que devemos temer entidades oriundas de maldições gestadas em momentos de morte diante de profundo ódio. Em Espíritos 2 – Você Nunca Está Sozinho, o argumento não é muito diferente, sendo o diferencial apenas a maneira como o roteiro se desenvolve. Tecnicamente, como apontado, o filme não deixa a desejar. Seria injusto avaliar mal neste quesito, mas na seara das experiências narrativas enquanto espectadores, a impressão que temos é a de que estamos diante da mesma história, contada por realizadores diferentes, com elenco idem. É uma fórmula que se estabeleceu e fez bastante sucesso, merecido por sinal, mas que acabou por sucumbir dentro dos próprios mecanismos de repetição.

Espíritos 2 – Você Nunca Está Sozinho (Alone) — Tailândia, 2007
Direção: Banjong Pisanthanakun, Parkpoom Wongpoom
Roteiro: Aummaraporn Phandintong, Banjong Pisanthanakun, Sopon Sukdapisit, Parkpoom Wongpoom
Elenco: Marsha Wattanapanich, Vittaya Wasukraipaisan, Rachanu Boonchuduang, Hatairat Egereff, Rutairat Egereff, Namo Tongkumnerd, Chutikan Vimuktananda, Chayakan Vimuktananda, Nimit Luksameepong
Duração: 85 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.