Crítica | Espíritos: A Morte Está ao seu Lado

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Há quem jure com todas as forças que já viu um fantasma numa foto. Tal possibilidade até foi motivo de reportagens bizarras na ocasião da morte de um cantor sertanejo brasileiro nos anos 1990, supostamente exposto numa fotografia feita por uma fã durante a apresentação do seu parceiro de dupla que precisou, por motivos óbvios, seguir carreira solo. Na época foi um fervor na mídia televisiva oportunista, uma falta de respeito em grandes proporções para os familiares da pessoa falecida. No cinema, essa abordagem já foi tema de filmes de terror intrigantes, sendo Espíritos – A Morte Está ao Seu Lado, um dos casos mais emblemáticos, produzido na Tailândia e exportado para os Estados Unidos em sua refilmagem, intitulada Imagens do Além.

Na chamada era das releituras de filmes de terror orientais, como já apontado em outras reflexões deste segmento, a indústria manteve-se aquecida, haja vista o interesse do público por conhecer as versões “originais” destes filmes refilmados pelos estadunidenses. Se houvesse uma cópia dublada, em especial, o interesse ainda aumentava, pois conforme relato de uma das tantas clientes de minha era como indicador de filmes em videolocadoras, “filmes americanos” são suportáveis em formato legendado, mas se for espanhol, italiano ou de qualquer outra ramificação linguística, o interessante mesmo é conferir dublado. Assim, as distribuidoras cuidaram deste processo de veiculação dos filmes por aqui e o alcance aumentou, assim como a exposição do público aos enredos que logo se tornaram entretenimento cansativo.

A motivação? Simples. Por mais que sejam histórias bem intrigantes, algumas arrepiantes, os orientais realizaram muitas histórias extremamente parecidas, com a mesma personagem feminina vingativa, tendo em vista cobrar as mazelas que sofreu enquanto estava viva. Só os nomes mudam, os locais, às vezes, mas o mote é o mesmo. Isso não impede que tais narrativas não tenham os seus atributos estéticos relevantes, mas reconheço e assumo sem medo de retaliações: os orientais abusaram das almas vingativas da mesma maneira que os estadunidenses exploraram exaustivamente as comédias românticas ou assassinos slasher. Tudo isso não impede, como já dito, que Espíritos – A Morte Está ao Seu Lado, seja um filme ruim. Ao contrário, é arrepiante e até hoje espanta por sua reviravolta que envolve uma terrível dor nas costas, memorável e bastante comentado na época de lançamento do filme.

Sob a direção de Banjog Pisanthonakun e Parkpoom Wongpoom, cineastas tailandeses guiados pelo roteiro escrito em parceria com Sopon Sakdapisit, acompanhamos a trajetória de um casal que após atropelar uma jovem na estrada à noite, fogem do lugar e não cumprem a missão de prestar socorro. O resultado dessa equação é a constante aparição de imagens sobrenaturais nas fotos realizadas por Tun (Ananda Everinogham), o namorado de Jane (Natthaweeranuch Thongnee), moça que fica atordoada com o acontecimento e decide investigar o que está por detrás de tais aparições misteriosas. Não demora para descobrir que a presença sobrenatural nas imagens é fruto do passado de seu namorado, uma história aparentemente cheia de motivações para explicações aceitáveis, mas que se revela, em camadas, num conto aberrante de pavor.

As fotos de Tun, um captador de imagens que diferente da refilmagem estadunidense, é um fotografo amador, começam a apresentar borrões e outros problemas que não parecem se explicar tecnologicamente. Jane acredita que seja uma reverberação do acidente não atendido há pouco tempo. Enquanto isso, Tun sente bastante desconforto nas costas, além de outras indisposições. É quando a moça, em sua pesquisa constante, descobre que a garota atropelada é Natre (Achita Sikamana), uma garota da faculdade, da época de seu namorado, jovem conhecida por seu comportamento retraído. Segundo as informações, ela teve um “lance” com Tun e não reagiu bem quando ele decidiu não levar o relacionamento adiante.

Jane acredita, mas não sente firmeza total. Ainda assim eles tentam continuar na manutenção do relacionamento. A investigação ganha aprofundamento, com o casal indo até a casa da jovem, quando conhecem a mãe de Natre e descobrem que o cadáver da garota não foi enterrado. Eles decidem convencer a senhora do funeral e realizam o rito, numa crença que os faz acreditar que desta maneira, a falecida encontrará a paz necessária para seguir o caminho do além. O problema é que as situações estranhas continuam a acontecer e dois amigos da mesma época de faculdade de Tun cometem suicídio, ambos supostamente coagidos pelo tal fantasma vingativo. Mas, afinal, por qual motivo a garota ainda queria se vingar?

É a partir dai que a história adentra em sua reviravolta mirabolante, mas verossimilhante e envolvente. Ele luta por sua vida, pois agora acredita que será a próxima vítima. A sua namorada descobre, por pistas deixadas pelo fantasma, através do meio fotográfico, que o seu companheiro tem uma parcela considerável de culpa diante da morte da jovem, estuprada pelos amigos de Tun. Além de ser testemunha, ele registrou o acontecimento. Sem o sossego que pensou ser possível depois do funeral, ele é abandonado pela namorada que achou a história completamente absurda, perseguido agora pelo espírito de Natre, entidade que não consegue ceifar a sua vida, mas manter-se parte integrante de sua existência pela eternidade, montada desde sempre em seus ombros, motivação para a dor constante nas costas.

Arrepiante, não é mesmo? Em seu processo criativo, Espíritos – A Morte Está ao Seu Lado contou com Niramon Ross na eficiente direção de fotografia, profissional responsável pelos bons momentos de profundidade de campo e iluminação que flerta com os contrastes entre luz e sombra, ideais para o estabelecimento da atmosfera fantasmagórica solicitada pelo texto. Os efeitos sonoros de Nakorn Kositpaisarn evitam excessos, sendo contribuições para a trilha sonora de Chatchai Pongprapaphan. O design de produção de Surat Kadeeroj não apresenta nada que mereça muito destaque, tal como os efeitos visuais de Watchrasak Khonghochan, também eficientes, sem grandes rompantes de abominação visual, sendo a entidade desta produção um ser mais aterrorizante por sua carga dramática, indo além do meramente grotesco de sua imagem. A cena final nos apresenta o personagem no hospital, abalado fisicamente por conta do trauma que sofreu no acidente decorrente do “último” embate com Natre. Ela, fielmente, manteve-se com o jovem até mesmo em sua internação. Para o seu azar, obviamente.

Espíritos – A Morte Está ao Seu Lado (Shutter) — Tailândia, 2004
Direção: Banjong Pisanthanakun, Parkpoom Wongpoom
Roteiro: Banjong Pisanthanakun, Sopon Sukdapisit
Elenco: Ananda Everingham, Natthaweeranuch Thongmee, Achita Sikamana, Unnop Chanpaibool, Titikarn Tongprasearth, Sivagorn Muttamara, Chachchaya Chalemphol, Kachormsak Naruepatr, Apichart Chusakul
Duração: 85 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.