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Crítica | Estados Unidos Vs Billie Holiday

por Iann Jeliel
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Billie Holiday

A qualidade de uma cinebiografia normalmente está vinculada a coerência da escolha do recorte temporal com a proposta cinematográfica. É preciso saber o que se quer contar sobre a pessoa biografada, se não, abre-se um caminho fácil de cair no território de “resumão”, que pode ser facilmente descrito em páginas como Wikipédia. Em Os Estados Unidos vs. Billie Holliday, o cineasta Lee Daniels consegue o feito de trazer o pior ponto de vista possível para abordar a persona de Billie Holiday (Andra Day) e ainda não consegue sustentá-la durante seus cansativos de 120 minutos, também caindo nesse território convencional de resumão, só que sem o benefício da qualidade informativa.

No caso, o diretor escolhe o ponto de vista do policial Jimmy Fletcher (Trevante Rhodes) para reforçar a ampla perseguição que a cantora sofria na época por conta da sua canção “Strange Fruit”. Na letra, havia uma denúncia ao linchamento as pessoas de cor, que incomodavam a elite, com medo de que ela através da música incentivasse uma revolução de cobrança aos direitos civis dos negros. Como não podiam prendê-la por conta de uma música, os agentes ficavam em seu pé para pegá-la no flagra consumindo heroína, na qual ela usava como uma válvula de escape das dores de um relacionamento abusivo e traumas carregados de uma infância dedicada a prostituição por sobrevivência. E é isso. A narrativa basicamente trará essa pequena parcela da vida da cantora como seu mote dramático, não indo para outros lados pela limitação de ser somente aquilo que Jimmy pode observar dela enquanto cumpria seu dever, parcialmente obrigado.

O maior conflito do filme, na verdade, é dele. Onde ele questiona sua legitima ideologia de combate as drogas que estavam destruindo seu povo, perdendo-o sua principal válvula de escape fora o vício. Jimmy possui um arco mais acentuado que a própria e teórica protagonista, pois, ao se apaixonar por ela, o personagem começa a compreender que a dependência química ali criada era somente uma fuga para as constantes injustiças que o povo sofre. No lado de Holiday mesmo, a biografia se baseia em encenar vários de seus shows de forma tecnicamente limpa, enquanto pouco captura a angústia nítida que Andra Dey apura em seu olhar de estar sendo sigilosamente silenciada, impotente, sem poder de reação ao que está engasgado em sua garganta, enquanto em outros momentos trás suas cenas de sofrimento alheio ao vicio e o abuso do marido de forma totalmente apelativa.

Aliás, esse caráter apelativo é parte do histórico do cinema de Daniels. Ele não sabe trabalhar o explicito em sua mise en scene sem o auxílio de uma trilha aguda ou movimentos de câmera que desesperadamente direcionam o foco as expressões exageradas de sofrimento. Parece que o cineasta não tem recursos para propor uma denúncia sem ter de provar que ela existe a cada nova sequência ou mesmo diálogo. Nessa repetição de cenas de injustiça obvias, o discurso que ele defende acaba sendo totalmente pausterizado, canalizado na superfície do debate, que nunca progredi, tampouco deixa sobrar tempo para valorizar o rebate. Há muita pouca cena aqui, por exemplo, para evidenciar a reação pública diante ao símbolo que Holiday teoricamente representa, porque também há muita pouca cena para valorizar essa imagem vendida somente em passagens na montagem com manchetes em jornais.

Tudo bem, se o intuito era realmente mostrar somente o que ela sofreu e não adentrar no seu processo criativo, relações com outras pessoas importantes ao seu redor (membros da banda, por exemplo) ou força política que criou a imagem de mulher forte de resistência negra e grande cantora, ao menos, escolhe-se adentrar na psique aproximada da personagem pelo seu ponto de vista e não escolher um observador qualquer para ser o sinônimo de que também estamos observando. Fora que isso nem faz sentido na estrutura do filme que começa num formato entrevista, passa vários minutos sem retomá-la até que lhe é conveniente e quando volta, não justifica o formato, pois é somente uma repetição falada do que aconteceu na última “narração”, ou acontecerá na narração posterior. Vale ressaltar só novamente a performance de Andra, que mesmo sem o auxílio de um filme síncrono com a construção da personagem, consegue extrair dali algo muito maior do que uma mera imitação de trejeitos, aqueles casos de sumir realmente na persona que interpreta.

Pena que não é suficiente para adicionar quaisquer substâncias a um filme que escolhe um recorte e parte para outra abordagem, ambos limitadores do que poderia oferecer um estudo decente de tal figura tão icônica na história da música negra. Billie Holiday definitivamente merecia mais do que um melodrama sentimentalmente apelativo, tipicamente feito só para conquistar premiações. Ao menos, a única que conseguiu (Day), mereceu, mas definitivamente, não foi graças ao filme.

Estados Unidos Vs Billie Holiday (The United States vs. Billie Holiday | EUA, 2021)
Direção: Lee Daniels
Roteiro: Suzan-Lori Parks (Baseado no livro Chasing the Scream de Johann Hari)
Elenco: Andra Day, Leslie Jordan, Miss Lawrence, Natasha Lyonne, Trevante Rhodes, Dusan Dukic, Erik LaRay Harvey, Da’Vine Joy Randolph, Koumba Ball, Kate MacLellan, Kwasi Songui, Adriane Lenox, Letitia Brookes, Tyler James Williams
Duração: 130 minutos

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