Crítica | Este é o Meu Garoto

“Ele não deveria estar se masturbando se ele se sente tão resfriado.”

Considerada pela crítica uma das piores comédias protagonizadas por Adam SandlerEste é o Meu Garoto possuía condições para ser um projeto ainda mais reprovável. Os seus problemas começam já em sua premissa, significativa a esse processo de rejeição. De cara exemplifica-se o porquê da reação das pessoas, que prontamente perdem os seus apetites, ser tão negativa ao filme. O enredo em questão, primeiramente, é de um mau-gosto grande, passível de condenação. No caso, o protagonista tem uma criança enquanto muito jovem, que é fruto do seu relacionamento com a sua professora no colégio. Este acontecimento, entretanto, a obra não se importa em problematizar. O que prioriza-se, na verdade, é o exato oposto a isso, com o menino angariando um sucesso por ter realizado os “sonhos” de milhares de adolescentes. O drama, agora situado no presente, mora no pai, interpretado por Sandler, querendo se aproximar de seu garoto, vivido por Andy Samberg, ao passo que também precisa confrontar outros tantos equívocos do seu passado.

Consequentemente à legitimação de um abuso sexual a um menor de idade, termina sendo consideravelmente indefensável o longa-metragem. Que o cineasta Sean Anders, responsável pela direção, repensasse certas questões que apresenta em primeira instância, por meio de um humor subversivo. Haveria possibilidade para uma paródia a essa insanidade que se transforma o amor “proibido” entre Sandler e a sua professora, interpretada posteriormente por Susan Sarandon. Pelo contrário, existe uma intenção verdadeira da obra em comprar esse “relacionamento”. O drama sobre pai e filho não vai muito além, principalmente porque o projeto não se preocupa em nos simpatizar ao protagonista. Ele é um garoto que continua sendo um garoto, sem perceber o que aconteceu no seu passado. Da mesma maneira, pouco convence Adam Sandler tentando se pagar de gostosão. Ao menos, a graça da produção atinge em cheio o seu público-alvo, que é o mais imbecil existente, provavelmente, composto por garotos que colocam os pênis no centro do mundo.

Mas até que Adam, impedindo a obra de ser totalmente nuclear, se sai moderadamente quando o longa configura um contraste coerente na mesclagem de passado e presente pela sua veia cômica. Enquanto o seu personagem era um sucesso no passado, no presente, em contrapartida, é um zero à esquerda. Retoma-se – em um primeiro momento, com a sua interpretação afetada – um humor naturalmente ultrapassado, mais particular dos anos 80 e do contexto daquela época. O “What’s Up!”, por exemplo, é uma marca de tempo insistentemente reiterada, assim como a participação de Vanilla Ice, uma das poucas coisas genuinamente engraçadas aqui. O texto tanto explora as tentativas de adaptação do personagem ao seu garoto quanto explora essa comédia que busca, mas não consegue, transitar entre uma geração e outra. Andy Samberg contrapõe-o neste sentido, resistente. Porém, o drama em si é ignorado. Já Anders esforça-se em retirar humor das tentativas de gags do roteiro, como a vovó promíscua e o padre, interpretado por James Caan.

Este é o Meu Garoto opta por misturar essa contraposição entre épocas, mais “refinada”, a uma comédia assumidamente perturbada, como são as piadas com incesto e abuso de menores. Há um mau-gosto cíclico em questão, que compara gerações distintas com o quão destruídas são. Porém, enquanto poderia ser mais consciente de sua nocividade intrínseca, o longa acaba brincando com tudo de uma maneira negligente, extremamente vazia, apenas retardada mesmo. Quase criminoso todo o projeto, na verdade. Como Sandler não foi preso e condenado a prisão perpétua pela quantidade de apologias estranhas que proporciona nessa comédia permanece sendo um dos maiores mistérios do cinema. Quem sabe o artista acredite que o projeto é um dos mais geniais que ele já teve a honra de participar? Quem sabe nós, meros mortais, não conseguimos ainda absorver a inteligência com que Anders usa da comédia pastelona para apontar os excessos doentios do povo americano?  Até chegarmos lá, esse continua sendo um dos maiores crimes de uma carreira.

Este é o Meu Garoto (That’s My Boy) – EUA, 2012
Direção: Sean Anders
Roteiro: David Caspe
Elenco: Adam Sandler, Susan Sarandon, Eva Amurri Martino, Leighton Meester, Andy Samberg, Dan Patrick, James Caan, Vanilla Ice, Todd Bridges, Will Forte, Rachel Dratch, Milo Ventimiglia
Duração: 114 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.