Crítica | Estou Me Guardando Para Quando o Carnaval Chegar

A divulgação do documentário Estou Me Guardando Para Quando o Carnaval Chegar é um fenômeno publicitário no mínimo curioso. Primeiro, se você olha para o cartaz sem observar com muito detalhismo, percebe uma pessoa diante de uma máquina de costura que parece uma alegoria do Elevador Lacerda. A imagem icônica e a palavra-chave “carnaval” no título nos levam a imaginar que se trata de mais um filme sobre a festa de rua mais famosa do mundo. Há três anos que a produção brasileira tem investido neste segmento, com uma produção anual no circuito de exibição, desde Axé – O Canto do Povo de Um Lugar. Desta maneira, imaginei se tratar de uma narrativa sobre os bastidores do festejo popular, com possíveis críticas aos mecanismos de exclusão entre elite e trabalhadores que ralam para ganhar o suficiente para o sustento peremptório. Logo mais, temos a leitura da sinopse. Não é nada disso que imaginei.

O que sabemos, conforme descrição da Vitrine Filmes, é que o documentário de Marcelo Gomes retrata os habitantes de Toritama, uma região do interior do Pernambuco, pessoas com um hábito revolucionário: trabalham arduamente o ano inteiro, mas no período carnavalesco, se desfazem de tudo que possuem para curtir o carnaval e as delicias do litoral de Recife. Quando o filme começa, ainda estamos diante dessa ideia, mas recebemos outra rasteira. A produção é sobre essa reflexão em torno do capitalismo em força total nos confins do Brasil, mas também é um resgate memorialístico da trajetória de Marcelo Gomes e suas lembranças em torno da vida com seu saudoso pai, um agente de tributos que ia para essa cidade constantemente a trabalho quando Gomes era criança. Ao passar pela frente da entrada da cidade, leu o nome, viu um outdoor de uma das marcas bem-sucedidas do lugar e decidiu investigar.

E assim nasceu o documentário Estou Me Guardando Para Quando o Carnaval Chegar, uma rasteira que pode ser levada na esportiva, pois é vendida como algo que de fato não é, mas isso não é ruim. Só pode minar expectativas, algo que a seara de produção brasileira deve evitar diante do marasmo nas bilheterias e experiência do nosso público diante do constante complexo de vira-lata que nos impede de contemplar melhor o que é realizado em terreno nacional. Lançado em 2019, a narrativa de 85 minutos traz diversos depoimentos de pessoas não creditadas na ficha técnica, juntamente com a inserção de alguns offs de Marcelo Gomes para reforçar as passagens que buscam um tom mais didático sobre a história de sua vida e dos entrevistados, os habitantes da cidade que produz mais de 20 milhões de jeans durante o ano.

São pessoas que vivem a ilusão do acúmulo de bens e a posse de sua produção, sem depender de patrões e limites salariais. O grande problema é que elas vivem para trabalhar, sem lazer, entretenimento ou qualquer busca por desanuviar. Começam a produção por volta das sete da manhã e alguns levam até às onze da noite. Estudar? Não é preciso, pois conforme uma depoente, lá é diferente de São Paulo e outras cidades com fluxo migratório, locais em que a concorrência pede por estudo e aperfeiçoamento. Em Toritama não. Basta se conformar com a vida simplória, a falta de planejamento e qualquer agendamento futuro, numa existência que parece a adaptação cinematográfica do que se dialoga sobre Reforma da Previdência. Os habitantes vivem o aqui e o agora, sem perspectiva para o “amanhã”. Curiosamente, no Carnaval, as pessoas deixam tudo que acumularam e vende moto, geladeira, sofá, tendo em vista partir para a folia e na volta, recomeçar todo o processo.

Marcelo Gomes passeia pelos espaços de trabalho na cidade sem o intuito de ser crítico demais, mas não consegue. É transparente a sua visão diante de um comportamento tido como irracional por pessoas que vivem as suas existências de maneira mecanizada, vítimas do capitalismo que na cidade, alcança o ilusório status de prestígio, mas que na verdade é pura ilusão de pessoas manipuladas por óticas econômicas neoliberalistas, isto é, um modelo nocivo de se trabalhar e produzir, mesmo como donos de seus próprios negócios. Não há ambições, as vidas são predeterminadas por comportamentos horizontalizados, situações de uma cidade que tem a Igreja como maior construção arquitetônica, ambiente que tal como sabemos, prega a lógica do “trabalha que Deus ajuda”. Deus ajuda e o ímpio em busca de redenção banca o dízimo.

São questões religiosas oriundas de ilações de quem vos escreve, pois não são detalhes debatidos pelo filme, apenas superficial neste segmento, acredito que na tentativa de evitar grandes polêmicas. Karen Harley edita as imagens da direção de fotografia de Pedro Andrade e entrega ao público os depoimentos originados das entrevistas incisivas do cineasta Marcelo Gomes diante de tantas pessoas que trabalham para gastar e gastam para trabalhar ainda mais, num ciclo sem fim de suor e dedicação que deixa a vida passar. Apenas alguns depoimentos falam sobre o verdadeiro grito de liberdade na região, em especial, uma agricultora que diz ser o regime de produção algo muito pesado e que não combina com o seu ideal de vida digna. Noutro, um homem fala sobre ser um dos poucos a olhar para o céu uma vez ao dia, sem estar preso dentro das grandes, médias ou pequenas fábricas de Toritama, tampouco das facções, nome dado para as produções realizadas por pessoas em seus quintais, salas e cozinhas.

É o trabalho gerado dentro de casa, incansável e em busca de lucrar cada vez mais, para as necessidades da sociedade de consumo que não acomete apenas os grandes centros urbanos, como muita gente imagina. Sem teatro, biblioteca, cinema ou qualquer outro ambiente de lazer que não seja as praças para brincadeiras infantis e o espaço natural em si, tomado por muitas construções irregulares, ruas estreitas e a feira dominical, Toritama é a representação cabal do nosso imaginário sobre a Revolução Industrial. O documentário Estou Me Guardando Para Quando o Carnaval Chegar consegue radiografar tudo isso de maneira assustadora, mesmo que as pessoas da região acreditem que tudo aquilo seja o ideal para as suas vidas predeterminadas. Será que nós, do lado de cá na contemplação das imagens, não estamos envenenados pelo exotismo diante da existência e do costume dos “outros”? Complexo, caro leitor.

Estou Me Guardando Para Quando o Carnaval Chegar — (Brasil, 2019)
Direção: Marcelo Gomes
Roteiro: Marcelo Gomes
Elenco: Marcelo Gomes
Duração: 85 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.