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Crítica | Estrada Perdida

por Iann Jeliel
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Estrada Perdida

“Eu gosto de me lembrar das coisas do meu jeito, não como elas aconteceram.” Estrada Perdida

SPOILERS!

O cinema de David Lynch tem como principal característica a manipulação da percepção de realidade do espectador. Sua atmosfera enigmática e as ramificações incertas entre o sonho e o verossímil nos mergulham em uma espiral de desconforto curiosamente estimulante pelo princípio da busca de conexões. O mais interessante é que ele trabalha muito com imagéticas tiradas do subconsciente de seus personagens, o que acaba posicionando a narrativa exatamente no limiar entre o concreto e o abstrato, que dentro de seus inteligentíssimos textos variam constantemente para que o exercício de gênero prático e a leitura simbólica caminhem lado a lado a proporcionar uma experiência sensorialmente rica. No caso, Estrada Perdida é mais uma, embora tenha o diferencial de ser um pouco mais concreta para o nível Lynch.

Inicialmente, o mistério da premissa é tratado dentro de um espectro normal de suspense, o casal Fred (Bill Pullman) e Renee (Patricia Arquette) vive uma crise de relacionamento em que ele não satisfaz mais a esposa e desconfia de sua fidelidade. Como se não bastasse, os dois começam a receber fitas estranhas de gravações do exterior de sua casa. A captura dessas gravações é conduzida por Lynch de forma perturbadora, muito parecida com a atmosfera presente em seu primeiro filme, Eraserhead, sem o espectro surreal que a priori só será introduzido posteriormente, quando uma figura misteriosa aparece para dizer a Fred que é ele o responsável, mesmo sem conhecê-lo. Depois disso, ao final do primeiro ato, chega uma nova fita que mostra Fred matando a esposa e imediatamente depois sendo condenado pelo crime. Na cadeia, a narrativa passa a acompanhar outro protagonista, Pete (Balthazar Getty), que inexplicavelmente surge na cela de Fred e coincidentemente irá conhecer Alice (também interpretada por Patricia Arquette), prostituta de um gângster que leva seu carro para a oficina em que trabalha.

A princípio, Lynch não deixa claro se nessa troca de protagonismo a temporalidade da narrativa é de fato afetada, ou se aquilo se converterá em algo simbólico. Como dito, é o limiar entre o real e o abstrato, que dentro da atmosfera noir policial à la Twin Peaks é o primordial aspecto de estímulo ao público dentro do confuso desenrolar da narrativa. Aos poucos, com o desenvolvimento temático, esse limiar vai sendo quebrado pela explicitação dos desejos da jornada subconsciente do personagem. Percebam que há muito pouco desenvolvimento inicial do casal, e Lynch conduz suas conversas com uma estranheza atmosférica; não à toa, eles são quase desconhecidos. Mais para a frente, na outra narrativa, a relação de Pete e Alice é puramente baseada no desejo carnal proibido, em que os dois só querem fugir juntos pela vontade quase incontrolável de transar e não poderem fazer com segurança, devido à relação de comprometimento, também carnal, da moça com outro, que ameaça a vida dos dois caso descubra.

A segunda narrativa, portanto, caracteriza-se como uma aventura criada pelo subconsciente do protagonista, que memoriza (ou pode estar memorizando) a origem da primeira narrativa, tanto em aspectos positivos (os dois com o tesão à flor da pele) quanto negativos (o ciúme por traição, porque ele a pegou traindo outro). A alegoria até chega a ser falada, mas como o aspecto temporal e investigativo não chega a ser totalmente decifrado no filme, fica implícito ainda dentro de um limiar como estudo de personagem. Nesse ponto, a personagem de Patricia Arquette é um tanto maltratada, a reverência de seu aspecto femme fatale não é exatamente desenvolvida imageticamente fora da representação carnal, que dentro daquele universo pornográfico torna um tanto gratuita a explicitude e a constância de suas cenas de nudez, que em algum nível soam como objetificação fora da padronização dramatúrgica que busca capturar sua sensualidade sempre como algo perigoso, tal como Veludo Azul.

De fato é, só que mais pela atmosfera criada por Lynch do que necessariamente por termos práticos. Claro, pensando num filme dele, o sensorial sempre está à frente, e o exercício de suspense e paranoia surreal nos faz comprar a periculosidade da personagem, além do desnorteamento do(s) protagonistas, também estimulados a mergulharem a fundo no universo primitivo do filme, mas como no aspecto policial, ele incita a busca do significado de seus signos e oferece concretude para alguns deles, há de se pensar que na trama alguns conflitos e intrigas trazem algo bem básico e até mesmo juvenil. Por mais que sequências isoladas vão complexando o enigma a ser mais reflexivo, em termos dramáticos, de estudo de personagem, não é tão potente, embora seja daquelas experiências que dificilmente irão sair da cabeça tão cedo.

Estrada Perdida (Lost Highway | França – EUA, 1997)
Direção:
 David Lynch
Roteiro: David Lynch, Barry Gifford
Elenco: Bill Pullman, Patricia Arquette, John Roselius, Michael Massee, Robert Blake, Balthazar Getty,  Robert Loggia
Duração: 134 minutos

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