Crítica | Estrada Sem Lei

“Manos arribas!”

Reveja o passado desse mundo, a partir de livros consagrados, professores prestigiados ou até mesmo personalidades questionáveis. Verá, com a mais absoluta certeza, distinções notáveis entre quem são os heróis a serem saudados e quem são vilões a serem temidos. Quem eram Bonnie e Clyde, por exemplo? O tempo, o espaço, o comportamento e os pensamentos da sociedade: cada uma dessas coisas poderá transformar completamente as suas respostas. Para o tempo desses ícones de uma geração, os anos 30, Bonnie e Clyde eram oposição ao capitalismo que, em época de Depressão, vingavam àqueles sugados por bancos. Para a Nova Hollywood, tornaram-se os papéis vividos – e com charme – por Warren Beatty e Faye Dunaway.   Uma juventude transviada?

Bonnie e Clyde eram, certamente, mais complexos que qualquer Robin Hood – ao menos a versão da animação, extremamente carismática -, sempre usado como comparação a bandidos com fins honrados, ou algum Jack, o Estripador, um dos grandes antagonistas ao público. Pois para o mais recente Estrada Sem Lei, Bonnie e Clyde são perigosos criminosos, possuindo auras místicas ao redor de seus corpos, amados por muitos civis e rejeitados por todos os governantes. Estão para serem, como a premissa aponta, capturados ou assassinados por Frank Hamer (Kevin Costner) e Manny Gault (Woody Harrelson), aposentados rangers que retornam ao serviço para essa missão. O longa até questiona a capacidade desses velhos coiotes, mas é sobre a moralidade em questão.

O seu começo é, porém, mais burocrático, apresentando, sem muito esmero, a problemática que norteará os passos do enredo. Os usos de Kahty Bates e John Carrol Lynch, grandes atores, são menos espirituosos que poderiam. Esses artistas, nesse início menos engajante, são vistos mais automaticamente por Estrada Sem Lei, apesar da primeira possuir os seus momentos mais sarcásticos, que engrandecem o viés interesseiro de certos personagens, sempre com segundas intenções. O longa de John Lee Hancock, porém, encontrará o seu verdadeiro valor ao questionar o que são essas pessoas que celebram criminosos, vistos como artistas de cinema, e quem são os protagonistas – e os antagonistas – dessa narrativa, o quão mocinhos e o quão vilões são. Uma das jogadas mais interessantes do cineasta é enxergar os criminosos sempre por fora, evitando mostrar os seus rostos. Impulsiona-se uma presença fantasmagórica – como se fossem intocáveis.

A sequência de perseguição, competente, sem muitas brincadeiras, ajuda na criação de mística ao redor desses foras-da-lei. Enquanto isso, a dupla protagonista é bastante frágil. O personagem de Kevin Costner, por exemplo, aponta em uma passagem que possui 16 balas alojadas em seu corpo. Os atores estão bem, no geral, mesmo que Hancock termine revelando os seus passados de uma maneira arbitrária demais, sem conseguir estabelecer um drama mais sensível. Toda a discussão, no fim, será resolvida com uma rajada de balas, sem pensar, sem mais argumentar, sem mais supor outras saídas para um caso tão complicado. Gault espera que Bonnie Parker se renda. Hamer é um homem menos otimista. Mas aonde que essas esperas irão terminar, portanto?

John Lee Hancock poderia ter sido mais esperto na sequência conclusiva, no entanto. Uma possibilidade seria meramente sugerir, ao invés de expor tão objetivamente, o comportamento do casal no momento climático de suas vidas. Por outro lado, essa é uma obra que realmente assume a imoralidade de Bonnie e Clyde de uma maneira menos amenizada que o clássico de 1967. E, embora encontre antagonistas mais fáceis com essa abordagem, que os espectadores realmente torcem pela prisão, consegue ainda discutir as suas naturezas para além. É uma obra que, mesmo possuindo alguns desvios no meio de uma caminhada produtiva, realmente pensa a moralidade, a criminalidade, as armas e até a América. O culto às celebridades mostra ser uma caçada macabra.

Estrada Sem Lei (The Highwaymen) – EUA, 2019
Direção: John Lee Hancock
Roteiro: John Fusco
Elenco: Kevin Costner, Woody Harrelson, Kathy Bates, John Carroll Lynch, Thomas Mann, Dean Denton, Kim Dickens, William Sadler, W. Earl Brown, David Furr, Jason Davis, Josh Caras, David Born, Brian F. Durkin, Kaley Wheless, Alex Elder, Emily Brobst, Edward Bossert
Duração: 133 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.