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Crítica | Estratégias Policiais

por Ritter Fan
178 views (a partir de agosto de 2020)

A presença da polícia na pentalogia cinematográfica sobre a Yakuza em Hiroshima e imediações desde o final da Segunda Guerra Mundial que Kinji Fukasaku e Kasuo Kasahara criaram a partir de artigos jornalísticos de Koichi Iiboshi, por sua vez baseado nas memórias de Kōzō Minō, criminoso real, manteve-se, no máximo, como um detalhe visto aqui e ali quando necessário para lidar com o destino dos mafiosos. Todo o ponto-de-vista é partir das diversas organizações e famílias da Yakuza, usando Shozo Hirono, personagem vivido por Bunta Sugawara, como elemento de conexão.

Apesar do título do quarto e penúltimo capítulo da saga – Estratégias Policiais – essa característica continua aqui. Claro que há um pouco mais de policia na narrativa, já que o filme marca o momento em que a população japonesa, começando a recuperar-se economicamente e às vésperas das Olimpíadas de 1964, sediada em Tóquio, passa a protestar contra a Guerra de Hiroshima empreendida pelos diversos clãs da Yakuza que, como em toda guerra, ameaça civis no processo, o que leva à reação policial concertada para desbaratar o crime organizado. Mas o foco permanece nos criminosos, especialmente, claro, em Shozo Hirono, agora líder consolidado de sua própria família, e uma constelação de outros personagens, tanto antigos como novos, naquela costumeira confusão inicial que marca a franquia.

A profusão de nomes dos membros da Yakuza, dos grandes grupos, das famílias menores e as constantes trocas de alianças é quase enlouquecedor e, mesmo depois de três filmes, ela não fica mais compreensível aqui. O que ajuda muito o roteiro de Kazuo Kasahara é o guarda-chuva da rivalidade entre o Grupo Shinwa, que tem a família Yamamori em Hiroshima, com a família Akashi, que abarca, dentre outras, a gangue de Hirono, já que essa definição clara é sempre citada e mantida como arrimo narrativo pelo roteirista. Dessa maneira, o vai-e-vem constante gerado pela guerra devastadora por poder acaba sendo elucidado de maneira mais direta pelo estilo jornalístico adotado por Fukasaku em todos os seus filmes, que paralisas as imagens oferecendo legendas sobre quem é quem, ou usa narração em off em estilo de telejornal para descrever situações e acontecimentos que não são mostrados em tela.

Mas Kasahara, em seu último roteiro para a série de filmes, insiste quase que completamente na abordagem realista a partir dos artigos de Iiboshi e em sua vasta pesquisa própria e isso nem sempre funciona. Afinal de contas, os Yakuza Papers, como a franquia ficou conhecida no Ocidente, não é uma série de documentários, mas sim obras ficcionais que por muitas vezes até parecem usar a linguagem de documentários, mas que não carregam a obrigação – ou a tentativa – de se aproximar da realidade. O maior exemplo desse problema é o uso do próprio protagonista aqui. Mesmo considerando sua inimizade eterna com o chefão da família Yamamori, os eventos do longa acontecem fundamentalmente apesar de Hirono, com quase nenhuma influência dele sobre os desdobramentos da guerra. Além disso, no final do segundo terço da fita, o personagem é preso e efetivamente sai quase que completamente da história, criando estranhamento na forma como o filme caminha para seu desfecho.

Por outro lado, Fukasaku tem mais conflitos para lidar em Estratégias Policiais e sua câmera “enlouquecida” nas sequências de ação está mais presente por toda a duração da obra, criando, por consequência, uma dinâmica melhor e de certa forma lembrando o que ele fez em Duelo em Hiroshima. É bem verdade que a repetição de situações – os diversos atentados a variados chefes e peões da Yakuza – pode cansar o espectador mais escaldado, mas a grande verdade é que ver tiroteios sob a lente caótica do diretor é um gosto que, uma vez adquirido, torna-se vício exatamente pela sujeirada, pela cinética e pelo desnorteamento que essas cenas causam, algo muito diferente da forma com que eventos semelhante são retratados na cinematografia Ocidental.

O penúltimo capítulo da saga é quase que seu efetivo fim, já que alcança o momento em que a própria vida mafiosa de Kōzō Minō acabou. No entanto, a forma como o longa lida com Hirono em seu encerramento simplesmente pede o desfecho efetivo que viria no muito didaticamente intitulado Episódio Final.

Estratégias Policiais (Jingi naki tatakai: Chôjô Sakusen, Japão – 1974)
Direção: Kinji Fukasaku
Roteiro: Kazuo Kasahara (baseado em história de Koichi Iiboshi)
Elenco: Bunta Sugawara, Akira Kobayashi, Kinya Kitaoji, Joe Shishido, Junkichi Orimoto, Kunie Tanaka, Shingo Yamashiro, Hiroki Matsukata, Goichi Yamada, Goro Ibuki, Nobuo Kaneko, Asao Uchida, Isao Konami, Harumi Sone, Takuzo Kawatani, Yumiko Nogawa, Nobuo Yana, Kenichi Sakuragi, Sanae Nakahara, Hiroko Fuji, Maki Tachibana
Duração: 101 min.

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