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Crítica | Eternos (Sem Spoilers)

Um épico sem escopo.

por Kevin Rick
6.178 views (a partir de agosto de 2020)

  • Leiam, aqui, a crítica com spoilers.

Parece que toda crítica ao redor do UCM acontece em relação a tal “fórmula Marvel”. O quanto o filme de super-herói em questão se distancia das normas e preceitos que ficamos acostumados nos últimos 10 anos parece estar intimamente vinculado a como a audiência vê a qualidade desta nova fase pós-Ultimato. Honestamente, eu não compartilho dessa visão, pois tenho zero problema com a fórmula usada pelo produtor Kevin Feige na franquia. Afinal, o sucesso dessa fórmula vem justamente do trabalho autoral de caras como Joss Whedon e James Gunn, que acabaram ditando o tom e estilo narrativo que vemos hoje em dia; ou você vai voltar a ver Vingadores e dizer que, lá em 2012, uma obra que praticamente incorpora tudo do que dizemos que é formulaico no UCM, só funciona porque foi pioneira?

Quando a crítica não é direcionada à fórmula Marvel em si, e sim à falta de inovação dela nos novos filmes, aí eu consigo embarcar e concordar. O método não é o problema, mas sim a execução. Vide a duologia do Homem-Formiga que utiliza o modelo da franquia para criar filmes descontraídos e pastelões, que contém uma linguagem própria e distinta no UCM. Ou então como Taika Waititi abraça e mistura a fórmula ao seu próprio estilo autoral, transformando a história cinematográfica do Thor em uma dramédia sarcástica colorida, com bastante humor corporal e situações constrangedoras. E então temos casos, como o recente Falcão e o Soldado Invernal, que ficam demasiadamente confortáveis a seus parâmetros e não trazem algo “novo” à mesa.

Eternos é lançado sob essa discussão de originalidade e um cinema mais autoral no UCM; a famosa liberdade artística. A resposta de Feige é um tanto radical: entregar uma história de origem sobre um grupo de heróis desconhecidos (até mesmo no meio dos fãs de HQ’s) nas mãos de Chloé Zhao, possivelmente a cineasta que melhor personifica a palavra indie hoje em dia. Com um estilo documental, uso de não-atores, visuais contemplativos e narrativas silenciosas, a filmografia da diretora está o mais distante possível do que imaginamos como blockbuster moderno. E eu gosto dessa coragem. Me lembra o receio em torno do lançamento de Guardiões da GaláxiaE até certa medida, Zhao entrega o “diferente”.

Baseado nos quadrinhos de Jack Kirby, o grupo d’Os Eternos acompanha uma família que faz parte de uma raça alienígena imortal, criados pelos Celestiais. No filme, eles existem para combater os Deviantes, chegando à Terra em tempos imemoriais e protegendo a humanidade por milhares de anos, se tornando lendas, mitos e deuses para diferentes culturas. Diferente do que tivemos desde o início do UCM (até mesmo com a trilogia do Thor), Eternos tem uma proposta super-heroica de épico divino, supostamente fazendo o inverso do drama de “homens se tornando deuses” que a Marvel normalmente aborda. O grupo plural e diversificado é composto pela líder Ajak (Salma Hayek), a manipuladora de matéria Sersi (Gemma Chan), a ilusionista Duende (Lia McHugh), o inventor Phastos (Brian Tyree Henry), o controlador de mentes Druig (Barry Keoghan), o Superman da Marvel poderoso Ikaris (Richard Madden), o atirador Kingo (Kumail Nanjiani), a velocista Makkari (Lauren Ridloff), a saguinária Thena (Angelina Jolie) e o maciço Gilgamesh (Don Lee).

A diretora Chloé Zhao aplica sua marca estética distinta dentro dessa proposta. O resultado é um blockbuster de beleza suave incomum. Cumprindo os requisitos visuais de um espetáculo divino de ficção científica, Zhao, acompanhada do cinematógrafo Ben Davis, desacelera e desfruta de momentos de naturalismo e quietude, desde um pôr do sol babilônico, a melancolia de deuses atravessando um desfiladeiro, até as planícies tempestivas do meio-oeste americano. O visual cósmico do longa também impressiona, como o confronto epopeico com os celestiais, os belíssimos figurinos do grupo principal e a ótima configuração para os poderes – ainda que os Deviantes sejam seus típicos bichos de CGI acinzentados sem graça. Contudo, para além dos visuais de Zhao e do design de produção solene (alguns ambientes históricos são uma beleza à parte), Eternos, bem, falha em todo o resto.

E aqui retorno ao meu argumento da “fórmula marvel”. Com exceção da estética, o longa realmente não se resolve entre uma conformação ou desconstrução do gênero da franquia. Vejo a maior problemática dessa “crise de identidade” no enredo e nos diálogos. Tentando vincular o visual épico com o texto, o roteiro escrito por Zhao, Patrick Burleigh, Ryan & Kaz Firpo, quer dar um nível de profundidade filosófica que não tem o espaço individual, considerando a quantidade absurda de personagens a serem desenvolvidos, ou então o caráter simbólico, talvez a arma mais importante de uma história com contornos bíblicos, religiosos e fabulares, resignado a pequenas referências históricas. Tudo isso fica ainda pior com a tentativa deslocada de comédia, principalmente através do comediante Kumail Nanjiani, em uma trama sem humor.

O que resulta de tudo isso é uma mitologia densa e frequentemente boba, com o filme parando a todo instante para  esclarecer um extenso número de informações através de vários diálogos expositivos. Acaba sendo um épico sem grandiosidade, pois a obra não tem um escopo delineado, conforme está sempre se auto-explicando até o desfecho. Parece até uma narrativa em constante introdução, conforme a apresentação didática de cada Eterno ganhando seu rápido backstory só termina próxima do ato final. Pensando nessa super-exposição e didatismo enfadonho, podemos perceber como a montagem tenta consertar (e termina por piorar) o desenvolvimento dos personagens com pequenos interlúdios do passado que sempre aparecem para pontuar ou explicar alguma situação acontecendo no tempo presente da história.

Dessa forma, Zhao não se perde apenas no escopo e desenvolvimento de personagem, mas também falha em interação e ritmo. Raramente vemos todos os Eternos interagindo entre si, especialmente Makkari e Phastos que são negligenciados por uma grande porção da narrativa. E quando há interação, temos em tela um melodrama cafona e raso, com poucos contornos divinos que envolvam a audiência, contando ainda com péssimos antagonistas, em especial os Deviantes que só exercem o papel de bucha de canhão no filme. Além disso, é ironicamente trágico como a obra se vende como uma experiência de diversidade cultural e representatividade, mas reforça muitos estereótipos, especialmente com o personagem “bollywoodiano” de Kumail. A única exceção é o drama pessoal de Thena, com ótima performance de Angelina Jolie, junto da única boa química entre os Eternos com um também empático Don Lee no papel do bondoso Gilgamesh.

Por fim, Eternos é um longa que fica num limbo entre ser o filme “diferentão” da Marvel e seguir o mesmo molde do que veio anteriormente. Como eu disse no início do texto, o problema não é o modelo, mas como ele é aplicado. Chloé Zhao e companhia parecem tão interessados em explicar como seu filme é profundo e épico, criar todo um banner vazio de representação mal-feita e fazer uma subversão do gênero (vemos isso em alguns desfechos e reviravoltas), que eles realmente só ficam na explanação e na justificativa (com bons visuais e coreografias, diga-se de passagem), mas sem nunca deslanchar o escopo da trama ou nos envolver no seu épico, que, honestamente, tem mais de Bollywood que de divindade.

Eternos (Eternals) – EUA, 04 de novembro de 2021
Diretor: Chloé Zhao
Roteiro: Chloé Zhao, Patrick Burleigh, Ryan Firpo, Kaz Firpo (baseado na obra de Jack Kirby)
Elenco: Gemma Chan, Richard Madden, Kumail Nanjiani, Lia McHugh, Brian Tyree Henry, Lauren Ridloff, Barry Keoghan, Don Lee, Harish Patel, Kit Harington, Salma Hayek, Angelina Jolie, Harry Styles
Duração: 156 min.

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