Crítica | Etrigan, o Demônio (1987)

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Escrita e desenhada por Matt Wagner, com finalização de Art Nichols, esta minissérie em quatro edições mostra o resultado a longo prazo da relação entre Jason Blood e o Demônio Etrigan, explorada inicialmente em toda a fase de Jack Kirby, criador dos personagens. Na versão clássica, Blood passou por uma fase de recusa e dificuldade de aceitação pela condição em que vivia, sendo o veículo pelo qual o Demônio servo de Merlim se manifestava na Terra. Nesta minissérie, Blood está no limite com essa condição. Ele não aguenta mais ser um veículo de possessão e começa a rejeitar o Demônio. Este, por natureza, tenta se vingar de alguma forma, oprimindo emotivamente o seu veículo, escondendo-lhe coisas, sacaneando-lhe, atraindo o perturbado Jason Blood para lugares onde supostamente conseguiria respostas para as suas perguntas.

Partimos de uma narração em off que nos encanta, no início da primeira edição, mas que infelizmente acabaria se tornando um dos pontos mais fracos da minissérie, por não ter uma exploração pensada de maneira mais orgânica por parte do roteiro. Apenas através de pesquisas a respeito do ambiente em que essa “linha de observação” ocorre, descobrimos que Merlim está no Inferno, prisioneiro do Demônio Asteroth, que o tortura e lhe mostra uma série de eventos passados na Terra. As provocações do Demônio são, no início, muito interessantes, cheias de malícia e indicando um cenário de desesperança para o Grande Mago, que não pode sequer falar.

Aí encontramos Jason Blood nas ruínas do Tintagel Castle, onde recebe friamente Glenda Mark, que foi encontrá-lo com a Pedra Filosofal e um livro da biblioteca particular de Jason, com a imagem do Demônio Belial, que guarda semelhanças com Etrigan. Desse ambiente, o texto nos leva para Daganbrack Tower, na Irlanda; para Londres e para Gotham, sempre com Jason às voltas com o seguinte dilema: preciso me livrar de Etrigan, mas não sei como. Em paralelo, temos as torturas e observações de Asteroth para Merlim. Não é preciso ser um vidente para entender que em quatro edições essa dinâmica acabaria sendo problemática, por sua previsibilidade. E isso se torna ainda pior porque o roteiro investe todas as fichas possíveis em “picuinhas demoníacas” por parte de Etrigan, Belial e Asteroth — sendo uma grande parte delas completamente descartáveis –, e jamais explica decisões e desejos básicos dos personagens, travando ou mesmo atrapalhando o nosso aproveitamento de uma parte das edições.

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A explicação sobre o livro com a imagem de Belial, o estabelecimento dos parentescos do Demônio com Merlim e Etrigan, a própria motivação para essa busca colocada de maneira sólida na HQ… nada disso acontece. O autor deixa muita coisa para a interpretação do leitor e permite que a verborragia dos seres do Inferno corra solta, talvez como um exercício poético ou de indicações simbólicas que tem sim o seu peso e qualidade, mas que só funcionariam de verdade se estivessem atrelados a uma realidade mais bem amarrada, o que não é o caso. E convenhamos que a arte de Matt Wagner também não ajuda muito. Existem quadros em que Jason Blood mais parece o Corcunda de Notre Dame e certas composições de luta são visualmente muito confusas. Em defesa do artista, vale dizer que o estilo geral combina com a linha sombria do enredo e que sua diagramação é bastante dinâmica, garantindo até excelentes quadros de resumo visual da história no início de cada revista. Pena que isso não é a regra para toda a minissérie.

A parte final da saga, no entanto, nos faz vibrar. Em resumo, toda a jornada aqui é um longo exercício de exorcismo, com Jason querendo se ver livre de Etrigan e vice-versa. A forma como o autor finaliza esse intento é muito boa, tendo um significado geral bem sombrio para o humano e amedrontador para o imóvel Merlim, vendo seu Demônio-escravo e meio-irmão agora livre no mundo, para agir sem o intermédio moral ou corporal de Jason Blood. A conclusão e o que ela representa, mais o ótimo início da trama foram os ingredientes que fizeram essa minissérie ficar acima da média, para mim. Mesmo com os tropeços no meio do caminho, chegamos a um resultado final marcante, com o surgimento de um novo momento para o demônio amarelo de Jack Kirby.

Demon Vol.2 #1 a 4 (EUA, janeiro a de 1987)
Roteiro: Matt Wagner
Arte: Matt Wagner
Arte-final: Art Nichols
Cores: Adrienne Roy, Anthony Tollin
Letras: John Costanza
Capas: Matt Wagner
Editoria: Len Wein
96 páginas

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.