Crítica | Etrigan, o Demônio: Fase Jack Kirby (1972 – 1974)

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Na introdução da edição americana para o encadernado Jack Kirby – The Demon (lançado em 2017), Mark Evanier faz um relato maravilhoso sobre como Etrigan, o Demônio veio a existir, estando ele ao lado de Jack Kirby, enquanto aguardava um sanduíche de peru, quando o Mestre teve a ideia para a criação do personagem. O contexto inicial é o melhor possível. Em 1972 Kirby seguia muito feliz escrevendo suas histórias para o Quarto Mundo na DC Comics. Em abril daquele ano, porém, algo iria acontecer que mudaria, em pouco tempo, a sua felicidade.

A edição #148 da revista Superman’s Pal, Jimmy Olsen foi a última do Mestre naquele título, o que significava que ele iria ficar com um débito de páginas com a editora. Em uma reunião com o chefão da casa, Carmine Infantino, Kirby recebeu a missão de pensar em novidades para o cumprimento de sua grade de publicações, coisas que flertassem com um grande sucesso cinematográfico da época, a saga do Planeta dos Macacos (que em 72 colocaria nos cinemas A Conquista do Planeta dos Macacos) e coisas de terror na linha das revistas House of Secrets, House of Mystery e Witching Hour.

Na linha da ficção científica, tendo a febre símia como inspiração (importante lembrar que Infantino tinha tentado adquirir os direitos para a publicação de uma revista baseada na saga, mas não conseguiu), Kirby criou Kamandi. Já para o mundo do terror, criou Etrigan, o Demônio. Inesperadamente, as revistas fizeram um enorme sucesso, vendendo bem mais do que dois dos xodós do Mestre na época, Povo da Eternidade e Novos Deuses, que acabaram sendo canceladas no número #11, em novembro de 1972, para que o artista continuasse em suas novas e bem-sucedidas criações, algo que ele não achou nada interessante, mas mesmo assim, prosseguiu. Pelo menos ele ainda tinha Senhor Milagre na grade, que também adorava escrever e desenhar.

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Etrigan, o Demônio nos é apresentado inicialmente em um cenário de guerra, na Idade Média. A primeira aparição do personagem acontece em Libertar Aquele Que Espera, no dia da queda de Camelot. A guerra segue, grandiosa. Merlim não sabe mais o que fazer. Morgana Le Fay avança com todo o seu Exército demoníaco sobre Camelot e só a ajuda de um ser sobrenatural poderia ajudar a vencer a guerra — ou ao menos a diminuir os seus terríveis resultados (sábio como era, Merlim já tinha uma bela noção do que realmente aconteceria) e é então que ele invoca um demônio. Alternando entre a proteção do Livro da Eternidade e uma forma de enganar Morgana é que se estabelece a presença de Etrigan na Terra.

Kirby conseguiu criar aqui uma sequência de histórias que nos deixam presos o tempo inteiro, expondo a ação de um demônio na Terra, dividindo sua realidade com a de um humano chamado Jason Blood, com quem divide o corpo, sendo chamado à ação a cada vez que o humano se vê em perigo. Com o passar das histórias, Blood vai se distanciando do maravilhamento e, ao mesmo tempo, receio de dar vida a Etrigan, acabando por adotar atitudes que acrescentam um grande valor dramático às histórias, pois quebram o ritmo “normal” das crônicas de vida desse personagem e fazem com que o demônio venha à tona por outros caminhos, alguns muito bons, outros, nem tanto. Para a transformação, há um poema que inicialmente é dito por Jason Blood, ritual que à medida que ele vai dominando o poder, se torna menos pomposo e bem mais objetivo. O poema/invocação/palavras mágicas iniciais, no entanto, são muito boas, como vocês podem ver abaixo.

Transforma-te, homem, transforma-te! Abandone as impurezas da carne, Pois no peito de fogo o coração arde! Abandone a forma humana, vilã! Erga-se o demônio Etrigan!

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Das histórias contidas nessas 16 edições de Demon Vol.1, as que eu menos gosto são, em primeiro lugar, as que formam o arco do “Fantasma da Ópera” — na verdade, o fantasma dos esgotos de Gotham City — e as que usam de maneira completamente questionável a Pedra Filosofal, único conceito de toda essa jornada do Etrigan de Kirby para o qual eu torci o nariz o tempo todo. Nem o uso da Pedra por parte do protagonista, para se ver livre do demônio, nem as formas de afastar as criaturas indesejáveis são boas colocações do roteiro, normalmente terminando com algum tipo de Deus Ex Machina irritante. Fora esses dois pontos problemáticos, temos em Demon um épico de fantasia macabra que aborda elementos das lendas arturianas relacionados com conhecimentos gerais sobre o mundo da magia e como relíquias e manifestações das trevas ou da luz, do bem ou do mal, podem ser dar em pleno século XX (que é quando essas histórias se passam). Mais uma grande e inesquecível criação do Mestre Jack Kirby.

Demon Vol.1 #1 a 16 (EUA, setembro de 1972 a janeiro de 1974)
No Brasil: Panini, julho e agosto de 2018 (dois volumes com 8 edições cada um)
Roteiro: Jack Kirby
Arte: Jack Kirby
Arte-final: Mike Royer
Letras: Mike Royer
Capas: Jack Kirby
Editoria: Jack Kirby (com Steve Sherman nas edições #13 e 15)
392 páginas (encadernado Panini)

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.