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Crítica | Eu, a Patroa e as Crianças – 1X01: Pilot

por Davi Lima
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Bem-vindos ao Plano Piloto, coluna dedicada a abordar exclusivamente os pilotos de séries de TV.

Número de temporadas: 5
Número de episódios: 124
Período de exibição: 28 de março de 2001 a 17 de maio 2005
Há reboot? Não.

Dentre as produções que os irmãos Wayans produziram, entre o filme As Branquelas e a série Eu, a Patroa e as Crianças, fica difícil dizer qual mais fez sucesso no Brasil. Muito se atrela às dublagens brasileiras que tornavam as piadas americanizadas e vocalmente interpretadas dessas produções em algo sonoramente cômico, no significativo feito cultural dos anos 2000, tornando o filme com uma espécie de “white face” e uma série de uma família negra do subúrbio rico dos EUA os frutos cômicos americanos desse período. Mas numa linha do tempo, a rede de televisão americana ABC e o SBT no Brasil aproveitaram a comédia acessível criada por Damon Wayans e Don Reo, dos estúdios Disney, antes das piadas com as gêmeas Wilson, para estrear com um episódio piloto extremamente assertivo em misturar vários temas modernos-familiares e um humor tipicamente Wayans.

De primeira, pode-se conectar o espectador ao contexto dos anos 2000, em que discussão inicial do casal Michael (Damon Wayans) e Janet (Tisha Campbell) Kyle é sobre a participação da mulher no mercado de trabalho. Embora seja uma discussão contemporânea de famílias mais tradicionais, é algo bem menos representado atualmente como problemática central como introdução de uma série televisiva de comédia. Agregado a isso, o filho Michael Jr. quer ir para um concerto de rap com músicas violentas, a filha mais velha, Claire, quer se demonstrar adulta para meninos da escola, e a mais nova, Cady, aprende espanhol com a babá que não serve um café a Michael. 

Se essa descrição não parece estranha, ou antiquada, em todos esses conflitos iniciais do piloto, é porque nenhum deles de fato são ultrapassados e inerentes apenas ao começo do século XXI, são apenas dinâmicas familiares que podem acontecer em qualquer uma, seja brasileira ou americana com mudanças circunstanciais de cultura e região. Esse é um ponto de efeito completo, temático e intrigante para o espectador televisivo, mas isso ser popular com a representação de uma família negra rica, bem-sucedida economicamente, sugere um ponto moderno referente ao começo do século. Não inovador nem transgressor em produção, como Um Maluco no Pedaço refletiu melhor, porém representativo em quesitos de grande distribuição da ABC para uma sitcom cuja história dialoga especificamente com a dimensão interna de uma família negra.

Com essa representação moderna bem relacionada com a época da produção, embora não incauta para revisões atuais, há um discurso quanto à aparente fragilização do homem, do pai e esposo sob o efeito do tempo. Nisso é que a comédia dos irmãos Wayans, especialmente do produtor e ator Damon Wayans, faz-se envolta e determinante para que todos os conflitos familiares não apenas sejam tratados com leveza de uma sitcom, mas também resolvidos numa proporção cômica muito centrada no personagem Michael, que é focado por uma das quatro câmeras do estúdio de gravação numa piada conclusiva. 

Em geral, os casos de família também não ficam datados apenas por serem recorrentes até hoje, mas também pelo humor Wayans tornar as conversas sobre os assuntos e as soluções parte dessa família negra, como uma linguagem dos Kyle de se tratarem de maneira desajeitada ou aleatória. É como se os showrunners integrassem esse modelo de situações das sitcom como um aspecto familiar, não mais como um trajeto televisivo artístico que tanto Seinfeld quanto Friends conquistaram o público. Com risadas clássicas de fundo e multicam, o personagem Michael sempre está improvisando como o homem negro, esposo e pai Kyle para enfrentar a modernidade típica dos anos 2000 quanto à masculinidade e o medo de mulheres abandonarem as casas e ele precisar saber cuidar dos filhos. Porque é exatamente esse o grande conflito, o pai que agora presta atenção nos filhos, nos pelos faciais do filho, nas histórias amorosas da filha, e precisa cozinhar. 

Porém, isso é bem roteirizado dentro da internalização familiar e objetivo em alternativas para resoluções tradicionais conservadoras. Se o casal briga e vai para um divã que apenas anota as falhas de Michael, se o filho quer conhecer o rap mais militante, o pai explana qual a realidade deles, e se a filha quer um namoradinho, o pai diz que é o único que a ama. Ou seja, a questão representativa não é sobre a família negra tratar de racismo ou uma questão política mais contemporânea, e sim, neste piloto, expor de dentro com as dimensões domésticas as referências juvenis do quarto dos filhos, como Michael Jr. ouvir Ice Cube, e uma babá latina não se submeter à alta corte da família, como a esposa Janet chama Michael. Essa modernidade que entra nessa família negra conservadora, mas que ainda trata as discussões progressistas com um humor paterno de juntar todos os integrantes familiares como medida protetiva. Por isso que todos os atores, especialmente Tisha Campbell, parecem estar rindo sempre, porque o humor Wayans se baseia nessa ambientação confortável de uma família negra rica ao tratar dos termos modernos-familiares sem rodeios. 

Por fim, é muito assertivo o modo como toda a estrutura moderna é ironizada com medo pelo pai da família, mas a resolução não abre mão da compreensão desse medo e da masculinidade frágil, muito menos da sagacidade impregnada na atuação de Michael. Soa tudo muito incrível em como tudo é pluralmente abordado, com a esposa, a filha menor, a mais velha e o filho do meio, sem aparente organização de que as sitcom se utilizam, mas sempre narrativamente bamboleando com a forma engraçada que os Wayans sempre se expressam, imitando, caricaturando, fazendo vozes engraçadas e ironizando. Chega quase a um humor físico total até mesmo com a verbalização, porque a química dos atores e a dimensão familiar parece tão envolvida nas interpretações que a ideia de um grupo familiar ser um só corpo, mesmo que submetido pelo título e pelo humor do chefe paterno, chega compreensivelmente a ser interpretado com muita graça ainda hoje.

Eu, a Patroa e as Crianças (My Wife and Kids) – 1X01: Pilot – EUA, 28 de março de 2001
Criação: Don Reo, Damon Wayans
Direção: Andy Cadiff
Roteiro: Don Reo, Damon Wayans
Elenco: Damon Wayans, Tisha Campbell Martin, George Gore II, Jazz Raycole, Parker McKenna Posey
Elenco (Dublagem Brasileira) : Paulo Vignolo, Mabel Cezar, Felipe Drummond, Lina Mendes, Indiane Christine
Duração: 22 minutos

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