Crítica | Eu Não me Importo se Entrarmos Para a História Como Bárbaros

plano critico Eu Não me Importo se Entrarmos Para a História Como Bárbaros mostra sp 42 mostra sp

Um filme como Eu Não me Importo se Entrarmos Para a História Como Bárbaros, nova aventura política ligada à História da Romênia, escrita e dirigida por Radu Jude (do sensacional Aferim!) é como um convite cínico à discussão, especialmente para um público como o brasileiro, em 2018. A polarização política do país neste fervoroso ano de eleições tem mostrado inúmeros maus caminhos e atitudes de seguidores dos mais diversos lados, mas esta não é a única coisa espantosa que vem no pacote da polarização de ideias. Em tempos de multiplicidade de telas, informações (verdadeiras e falsas) por todos os lados, gurus da “verdade que não te contaram na escola” e revisionistas para os mais diversos temas aparecem aos montes. E é no embate dessas pessoas e de quem deseja expor um problema específico, numa específica ocasião, que este longa-metragem crava as suas garras.

Política não se discute“. Já ouviram esse ditado? Bem, isso não existe mais. O mundo está conectado demais, complexo demais e com demasiados choques de ideias para que as pessoas simplesmente se coloquem à parte dessas questões, queiram elas ou não. Observando o mesmo movimento na Europa e em seu país, Radu Jude fez desse filme uma longa discussão de ideias políticas, históricas, sociais, culturais, artísticas e antropológicas que abordam, em essência, a II Guerra Mundial e o massacre feito pelos romenos aos judeus. O título do filme foi uma frase dita no Conselho Ministerial durante o verão de 1941, na onda da “limpeza étnica” da Frente Oriental.

Ioana Iacob vive Mariana, uma diretora de teatro que tem a ideia de representar esse evento da História da Romênia para um público ao ar livre. Daí, já se percebe que o filme será um exercício metalinguístico. E também entendemos que a abordagem e a duração da fita (140 minutos!) não são exatamente para todos os gostos. Abraçando a metalinguagem na manufatura de seu próprio conteúdo — com exploração da relação entre tela e palco –, adotando um caráter de falso documentário e marcando toda a jornada como o processo político de produção de uma peça política, entende-se porquê a obra não deve cair nas graças de todo mundo.

O ritmo também não “ajuda” nessa questão, e embora não tenha me incomodado em nada — todo o processo de representação, preparação e discussão foi bem medido pela montagem, na minha visão — a obra definitivamente não tem pressa em se fazer entender, até porque existem muitas ideias esperando o momento certo para virem à tona. O espectador entende que há a preparação teórica da diretora (pesquisa de figurinos, armas, tanques de guerra, sonoplastia, leituras), todo o componente social no bloco dos ensaios (onde os muitos preconceitos históricos vistos no passado são repetidos no presente, tal como o ódio aos ciganos, por exemplo) e, por fim, as questões da diretora com o representante do Estado, que junto à prefeitura, cuida para que o espetáculo público não seja agressivo e “não assuste as crianças“.

Em longos planos de conjunto, o diretor nos mostra discussões sobre a necessidade de se mostrar um massacre numa peça (e por quê esse massacre em específico), questões raciais, malabarismos teóricos para se justificar essa ou aquela visão política e, por fim, diálogos sobre censura, denúncia à imprensa e desobediência civil. Como o “gênero” aqui é o documentário, temos essa sensação de maior liberdade ao longo dos ensaios para a batalha da Segunda Guerra. Música romena também se faz presente em diversos momentos, tornando o filme uma espécie de comédia séria, múltipla de linguagens e abordagens que nos mostra o quanto a memória de um povo pode ser torcida, manipulada, confundida e até apagada, chegando ao ponto onde mesmo a representação do máximo sofrimento de um grupo de pessoas não gera o mínimo de empatia. Mas gera tentativas de justificar o horror. E gera frases que aceitam o horror “pelo bem da nação“. A verdadeira constatação da banalidade do mal florescendo no século XXI.

Eu Não me Importo se Entrarmos Para a História Como Bárbaros (Îmi este indiferent daca în istorie vom intra ca barbari) — Romênia, Alemanha, Bulgária, França, República Checa, 2018
Direção: Radu Jude
Roteiro: Radu Jude
Elenco: Ioana Iacob, Alex Bogdan, Alexandru Dabija, Ion Rizea, Claudia Ieremia, Ion Arcudeanu, Dana Bunescu, Eduard Cirlan, Bogdan Cotlet
Duração: 140 min.

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.