Crítica | Eu Não Sou um Homem Fácil

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Produção francesa distribuída pela NetflixEu Não Sou um Homem Fácil (2018) é a extensão de uma temática trabalhada pela diretora, atriz e roteirista Eléonore Pourriat em seu curta-metragem Maioria Oprimida (Majorité Opprimée), de 2010. A premissa do filme é simples e facilmente apreendida pelo público, assim como sua intenção principal, com um machista inveterado chamado Damien (Vincent Elbaz) tendo uma concussão e acordando em um mundo onde todas as situações de opressão, condições históricas, naturalização e entendimento social e ideológico de gênero estão invertidos. Ele sai de uma sociedade machista, patriarcal, onde ele se vê livre para soltar cantadas para toda mulher que ele considera adequada ao seu apetite sexual (a presa perfeita), e se vê em uma sociedade femista (não confundir com feminista), matriarcal, onde as mulheres fazem a mesma coisa com os homens.

É muito importante destacar que o roteiro de Pourriat, em parceria com Ariane Fert, não tem a intenção de fazer uma exposição teórica sobre feminismo e que também passa por clichês dramáticos ao exagerar situações para que sejam melhor percebidas ou adequadas à comédia. Embora correto nas críticas e inversões que faz, o filme não deixa de ter o entretenimento como base central do texto, de modo que uma série de arranjos para os personagens serão muito similares a coisas que vimos à exaustão, em outro núcleo de exposição de personagens (o da sociedade machista). E também é importante dizer que (infelizmente) o filme não abre o leque para todas as esferas sociais, dentro de cada gênero que sofre ou exerce opressão. Estão de fora questões ligadas a classe, etnia e majoritariamente questões sobre sexualidade (citada em dois momentos distintos, mas de maneira distanciada da crítica geral), além de elementos mais específicos para as diversas esferas humanas.

Destaquei esses pontos de ausência não por uma questão de exigência, como se fossem temas sem os quais o filme seria um desastre. Nem perto disso. Mas é importante esclarecer qual é o recorte da obra, a fim de que possamos assisti-la, entendê-la e discuti-la exatamente pelo que se propõe a dar, não pelo que deveria ou poderia ser. E só para deixar registrado, acredito que esses temas engrandeceriam a película imensamente. Ainda assim, Eu Não Sou um Homem Fácil dá muito bem o recado. A sociedade femista que se apresenta no texto é uma verdadeira sequência de chacoalhões sociais, especialmente para nós, homens, porque toca em aspectos básicos de como crescemos e exercemos a nossa masculinidade e de como, socialmente falando, isso chegou a um patamar de domínio histórico sobre as mulheres, cabendo todo tipo de “justificativa” para esse tratamento, que ganha uma baita representação crítica nessa sociedade: os homens que lutam por igualdade são chamados de masculistas. Como era de se esperar, eles são tratados como histéricos que parecem não ter nada em casa para fazer, que só fazem “isso” por um capricho devido à falta de sexo, baixa autoestima, porque não cuidam de seus corpos ou porque são feios e ninguém os quer.

Utilizando muito bem a trilha sonora — as canções se enquadram como grandes surpresas nas cenas que surgem e as peças orquestrais não são exageradas ou sentimentais demais –, a diretora consegue passar ao menos um pouco do sentimento de estar cercado, sendo olhado por todos como um prêmio para coleção sexual, além de ser colocado em posições inferiorizadas em relação a toda esfera de poder e cargos de liderança em áreas distintas. O contraste é ainda mais forte porque o começo do filme nos mostra um pouco do que temos em nosso mundo real e isso, quando refletido em outro cenário, se torna mais… agressivo. É a velha história da identificação e de representar um grupo vivendo algo como uma forma de engajar. O ótimo trabalho do elenco também ajuda a vender o que acontece nesse Universo, com destaque para os papéis interpretados por Vincent Elbaz e Marie-Sophie Ferdane.

Existem situações que ganham muito em crítica e noção de vivência quando, na ficção, se utilizam do humor para ridicularizar e ao mesmo tempo denunciar o que há de errado com este cenário. Aqui, o ambiente de dominação ou de normatização ideológica de gêneros é o foco da vez, e esses ingredientes nos fazem rever o mundo onde vivemos. De produtos de beleza, noção genérica do que é sexy ou não para um gênero, definição do que é “coisa de mulher” e “coisa de homem“, clichês cinematográficos ao filmar corpos nus, figurinos (a escolha das roupas aqui foi pensada com muito rigor), depilação, maquiagem e frases cotidianas que vão de piadinhas com hormônios e definição de quem é “naturalmente mais adequado para assumir tal papel“, até o jogos de paquera, de primeiro namoro e sexo ou de preparação romantizada para a vida futura, vemos neste filme um convite atual, bem humorado e muito necessário para pensar papeis sociais de homens e mulheres. O tipo de obra que deveria ser vista por todo mundo.

Eu Não Sou um Homem Fácil (Je ne suis pas un homme facile) — França, 2018
Direção: Eléonore Pourriat
Roteiro: Ariane Fert, Eléonore Pourriat
Elenco: Lucie Leclerc, Pierre Benezit, Moon Dailly, Vincent Elbaz, Marie-Sophie Ferdane, Blanche Gardin, Camille Landru-Girardet, Alan Maxson, Céline Menville, Veronica Scheyving
Duração: 98 min.

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.