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Crítica | Eu Sei O Que Vocês Fizeram No Verão Passado – 1ª Temporada

Uma série morna que não justifica a retomada deste universo.

por Leonardo Campos
1.630 views (a partir de agosto de 2020)

SPOILERS! 

Depois de Pânico, foi a vez de Eu Sei O Que Vocês Fizeram No Verão Passado se tornar série televisiva. Se engana, no entanto, quem prega que a produção desenvolvida em oito episódios tem como ponto de partida o filme de 1997, slasher escrito por Kevin Williamson no auge de sua criatividade. Aqui, encontramos paralelos, mas o mote é inspirado no livro de Lois Duncan, publicado na década de 1970, fábula moral com possibilidades reflexivas ainda nos dias atuais, material aproveitado pela equipe da nova empreitada dentro deste universo, infelizmente elaborado com muitas reviravoltas desnecessárias e atmosfera excessivamente novelesca. Sabemos o quão desafiador é ampliar os recursos dramáticos de um filme para uma narrativa seriada, mas isso não é motivo para os realizadores entregarem um conteúdo tão apático, morno e com graves problemas de ritmo. Em linhas gerais, é o retorno de uma história que não acrescenta tensão, drama e debates suficientes para justificar a sua leitura em 2021.

No livro publicado recentemente no Brasil, acompanhamos todo o estresse, medo e sentimento de culpa que toma de assalto quatro jovens responsáveis pelo atropelamento de uma figura misteriosa numa estrada. Sem procurar a polícia, receosos dos impactos que a situação geraria para o resto de suas vidas, abandonam o corpo que parece não ter morrido como eles imaginavam. Com resultados devastadores em suas existências, haja vista o cancelamento de planos, o desempenho acadêmico duvidoso, dentre tantas outras crises, os quatro atravessam um período conturbado, ainda mais intenso depois que alguém parece ter sido testemunha ocular do fatídico acontecimento ocorrido no verão anterior. Essa pessoa, com forte desejo de vingança, dribla a lógica, coloca todos os personagens em perigo e ameaça o grupo constantemente, até o desfecho revelador, transformado quando levado ao cinema, em 1997, na esteira de Pânico.

Quando lançado, o filme se tornou uma referência, afinal, é o melhor genérico de Ghostface, isto é, uma narrativa com diálogos humorados, concepção sombria, ritmo alucinante e personagens envolventes, distribuídos numa estrutura dramática que soube mesclar entretenimento e reflexão. Eu Sei O Que Vocês Fizeram No Verão Passado ganhou uma continuação bastante irregular e desnecessária, bem como um terceiro filme deslocado, aberrante de tão pueril, Eu Sempre Saberei O Que Vocês Fizeram No Verão Passado, produção que vai do nada para lugar nenhum e toma o mito do homem do gancho para criar alguns poucos momentos engraçados, mas nulos artisticamente. A concepção de um reboot, refilmagem ou adaptação para o formato televisivo era questão de tempo. E o momento chegou, mas decepcionante, desde o seu trailer de divulgação, material publicitário que em sua minutagem breve, demonstrou o quão vazia e sem vida era a tradução intersemiótica do livro para a televisão.

Quando estreou, o programa confirmou. Sara Goodman, figura central da sala de roteiristas, criadora e também produtora da série, desenvolveu alguns conflitos para que houvesse a chance de driblar o marasmo, afinal, com o mote já conhecido, não dava para ultrapassar mais que dois episódios. É possível perceber o esforço da profissional, com os dramas familiares envolvendo todos os responsáveis pelo atropelamento e fuga, a inserção de questões religiosas, o abandono da fábula moral em prol de um olhar mais realista para nossos tempos, mas a sensação que se tem é a de que estamos diante de uma narrativa seriada insossa que não justifica a sua existência. É tudo superficial demais, sem o clima slasher realmente ameaçador. O centro da trama é Lennon (Madison Iseman), irmã gêmea de Alisson (idem). Elas são parte de um interessante e já bastante explorado contraste. Personalidades distintas, antagônicas.

Numa certa noite de formatura, entre idas e vindas, cinco jovens adentram no carro para retornar aos seus lares. Quem está no volante? Alisson ou Lennon? Como saberemos? A série demonstrará mais adiante, num esquema que lembra a brasileira Mulheres de Areia, com Glória Pires, salvaguardadas (por gentileza) as suas devidas proporções comparativas. No caminho, atropelam alguém. E a revelação é devastadora: a outra irmã. O que fazer? Juntos, Margot (Brianne Tju), Dylan (Ezekiel Goodman), Dale (Spencer Sutherland) e Riley (Ashley Moore) se dividem entre se entregar e revelar o acontecido, ou então, esconder o cadáver da jovem. O pior, pensamos que a gêmea boazinha cometeu uma espécie de vingança contra a sua rival complexa, mas na verdade parece ter havido um acidental troca de lugares. A má está viva e renovada, enquanto a menina do bem perdeu a sua vida. Alguém parece saber disso, e, um ano depois dos fatos, retoma a história para estabelecer a sua doce vingança.

Um a um, os jovens começam a morrer ao longo dos episódios, em cenas tediosas, distribuídas ao longo dos 8 episódios com os habituais 45 minutos de duração. A reversão da moral de 1997 é compreensível, com personagens mais naturais, ambíguos em suas virtudes e posturas questionáveis, mas infelizmente o que poderia ser uma nova discussão com bons momentos de entretenimento se transformou numa saga forçada de adolescentes rebeldes, oriundos de lares disfuncionais, com histórias contadas parcialmente por seus familiares, mergulhados em segredos que vão além do mistério central envolvendo o atropelamento. As mortes, supervisionadas pela equipe de maquiagem e efeitos de Vincent Van Dyke, convencem, da mesma forma que o design de produção e direção de fotografia, assinados por Elizabeth Jones e Ankya Malatynska, respectivamente, conseguem dar conta das questões estéticas, com cenas algumas cenas ao ar-livre, concebidas no Havaí, um deleite para nossos olhos.

Na condução musical, Drum & Lace, juntamente com Ian Multquist, conseguem inserir alguns momentos envolventes, mas nada memorável, afinal, esmero estético diante de uma história dramaticamente frágil não garantem adesão e bons resultados. Ademais, a série Eu Sei O Que Vocês Fizeram No Verão Passado teve direção de Logan Phillips, Craig William Macneill e Benjamin Semanoff, o primeiro dominante, com quatro episódios, e os dois últimos, com duas unidades cada, no geral, todos irregulares, com poucos bons momentos, tal como já mencionado ao longo de toda a análise. Assim, devo dizer que a proposta falhou de maneira retumbante. Há um tom que flerta com o sobrenatural, mas seria interessante mesmo manter a atmosfera slasher de luxo do filme de 1997, modificando apenas o tom moralista para os novos tempos. Sabemos que quando bem concebido, um slasher pode ter muito a dizer e entreter. Os realizadores desta série podem até ter tido isso como ideia, mas não conseguiram firmar na prática.

Eu Sei O Que Vocês Fizeram No Verão Passado – 1ª Temporada (I Know What You Did Last Summer, EUA/2021)
Criação: Sara Goodman
Direção: Logan Phillips, Craig William Macneill, Benjamin Semanoff
Roteiro: Sara Goodman, Phoebe Fisher, Shay Hatten, Lois Duncan, Gary Tieche
Elenco: Madison Iseman, Brianne Tju, Ezekiel Goodman, Ashley Moore, Sebastian Amoruso, Fiona Rene, Cassie Beck, Brooke Bloom, Bill Heck
Duração: 08 episódios/46 minutos cada.

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