Crítica | Eu Sei O Que Vocês Fizeram No Verão Passado, de Lois Duncan

Mesmo sendo uma obra bastante conhecida no terreno da literatura produzida para jovens adultos, Eu Sei O Que Vocês Fizeram No Verão Passado é uma história que ainda se mantém firme em nosso imaginário por causa do filme de 1997, um slasher comprometido com os seus requisitos estéticos bem estruturados, além da trama envolvente, conduzida por personagens carismáticos. O livro, publicado pela primeira vez em 1978, também funciona como entretenimento, mas perde grande impacto para aqueles que já conhecem a sua estrutura pelo viés cinematográfico, mesmo que entre um suporte e outro, haja mudança de perspectivas.

Aqui, não temos a lenda urbana do homem com um gancho, tampouco mortes sangrentas. O mote é simples: jovens acuados por alguém que alega saber o que eles fizeram no verão passado. Lois Duncan, em sua trajetória de escritora, poetisa e jornalista, ganhou fama com romances nesta linha e tornou-se referência na literatura direcionada aos jovens adultos. Ela também é conhecida pelo polêmico Killing Mr. Griffin, romance que se tornou Tentação Fatal, o fraco filme originado do roteiro de Kevin Williamson, também responsável por Eu Sei O Que Vocês Fizeram No Verão Passado, Pânico, Prova Final e outros filmes do subgênero slasher na segunda metade da década de 1990.

Mas, afinal, o que foi que os quatro personagens fizeram mesmo no último ano? É o que saberemos na primeira digressão do romance. Depois de receber uma mensagem ameaçadora, Julie James aciona os amigos Barry Cox e Helen Rivers, além de Ray, seu namorado na época. Ela precisa informar que o conteúdo da mensagem inesperada revela que alguém sabe em detalhes, os mistérios envolvendo o último verão, ocasião de festas comemorativas regadas à álcool, motivo badalado que permitiu o fatídico atropelamento de Daniel Gregg numa bicicleta, jovem que morreu e além disso, foi abandonado pelo grupo no local, um crime bárbaro e visto pela âmbito legalidade como uma ocorrência digna de prisão, filosoficamente covarde quando visto por outros ângulos de interpretação da nossa vida cotidiana.

De todos, Julie James é quem mais carrega o sentimento de culpa, algo que a persegue desde a noite do acidente. Barry seguiu a sua vida, valente e machista em muitos aspectos, Helen vive mais tranquila, preocupada com questões mais triviais, tais como compras e bronzeamento, e Ray, na época namorado de Julie, segui para Califórnia em busca de ofertas de trabalho. James até enviou flores anônimas para a família de Gregg durante o funeral do garoto, tendo em vista redimir um pouco da sua dor que compreendemos, principalmente pelo fato dela saber que o silêncio de todos é a confirmação do quão errado estão não apenas pelo viés da lei, mas também da ética e da valorização da vida alheia. Para fugir da responsabilidade, os jovens abandonaram o garoto morto, sem pensar de imediato na família, nas pessoas que amavam aquele ser humano que tinha projetos de vida, amigos e uma rotina ceifada pela falta de zelo dos envolvidos.

James, com péssimos resultados acadêmicos, vive constantemente com a sensação de ameaça. Não sabe se a mensagem é uma brincadeira, mas o retorno de algo que ela tentava esquecer é o que tem tirado o seu sono. Ela flerta com Bud, jovem atraente que se tornou seu interesse sentimental depois de Ray, relação que tinha tudo para dar certo, mas foi abalada pelo histórico recente. Helen vive algo com Brian, mas também não é mais a mesma coisa. A chegada do vizinho Collie muda um pouco as coisas, aparentemente em vias de mudança para a personagem que já deixou o trauma do verão passado mais sublimado que Julie. Assim, o grupo vai levando as suas existências e tentando descobrir o que está por detrás dos mistérios. Há tiros alvejados em um deles, pessoas com dupla jornada de identidade e outras revelações rumo ao clímax interessante, mas raso no que tange ao suspense.

Ademais, Eu Sei O Que Vocês Fizeram No Verão Passado é uma publicação veiculada num cuidadoso suporte simples, mas atraente, organizado pela Benvirá, editora que investiu na capa de Guilherme P. Pinto para reforçar um tom de mistério adotado pela escrita de Lois Duncan, traduzida pelo eficiente Pedro Sette Câmara. Ao longo de suas 224 páginas, diagramadas pelo grupo Balão Editorial, acompanhamos a história de 1978 adaptada para o contexto contemporâneo, decisão pouco inteligente de modernizar o conteúdo para atrair os preguiçosos leitores atuais que não valorizam a análise diacrônica dos fenômenos que acontecem em seu entorno. É uma escolha equivocada, pois o desdobramento de alguns conflitos são pontuais da época de desenvolvimento original do romance, numa desnecessária busca editorial para agradar jovens que não conseguem ler nada sem que haja alguma correlação direta e objetiva com o seu cotidiano. Onde fica o espaço para a subjetividade e a análise crítica, hein?

Eu Sei O Que Vocês Fizeram No Verão Passado (I Know What You Did Last Summer) — EUA, 1978
Autor: Lois Duncan
Tradução: Pedro Sette-Câmara
Editora no Brasil: Benvirá (2014)
Páginas: 224

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.