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Crítica | Eu Sou Todas as Meninas

por Ritter Fan
1531 views (a partir de agosto de 2020)

Eu Sou Todas as Meninas é um daqueles filmes com temática tão destruidora que a produção consegue atrair na mesma proporção que gera repulsa. E a principal razão para isso é que os assuntos tratados – tráfico de mulheres e crianças e pedofilia – são reais e corriqueiros no mundo todo, o que só deixa claro que a Humanidade não tem muita salvação, mesmo que o longa sul-africano tente fazer sua parte não só para aumentar a conscientização sobre o assunto, inclusive criando heroínas com que, de formas diferentes, podemos nos identificar.

A trama, que é uma extrapolação completamente crível de um caso de um suspeito de pedofilia e de participação em uma organização de tráfico humano do final dos anos 80, lida com a investigação, no presente, de um assassinato pela detetive Jodie Snyman (Erica Wessels), obcecada em desbaratar uma gangue de traficantes de crianças, que é desviada para essa morte aparentemente desconectada, como forma de repreensão pela falta de resultados práticos recentes. Mas é claro que o assassinato, com a vítima marcada com as iniciais de uma menina desaparecida há décadas, está intimamente relacionado com a linha de investigação de Jodie, o que a faz mergulhar ainda mais profundamente no caso.

O que torna o filme diferente de uma mera obra procedimental policial é que o assassino usa as mortes para guiar e facilitar as investigações de Jodie, o que o torna uma espécie de parceiro invisível usando métodos extremos para lidar com os criminosos. A identidade do assassino é evidente de imediato para qualquer um que minimamente prestar atenção no filme, mas não a revelarei aqui para evitar qualquer tipo de spoiler.

Jodie, que tem uma relação amorosa secreta com a médica legista Ntombizonke Bapai (Hlubi Mboya), relação essa que o longa faz de tudo para tornar a mais discreta possível, sem qualquer abordagem sequer próxima de explícita (confesso que não sei se isso é fruto de algum tipo de censura em vigor no país de origem ou se foi uma escolha deliberada – e estranha – do roteiro), torna-se ainda mais obcecada e incansável quando percebe que está se aproximando dos políticos e figurões que controlam o tráfico humano, com o filme estabelecendo as necessárias conexões com o mencionado caso dos anos 80, mas sempre usando nomes fictícios, o que leva a alguns flashbacks horrendos (em razão da temática, não da qualidade) que aos poucos vão fazendo a história ficar bem amarrada, ainda que tudo seja muito facilmente telegrafado pela direção nada sutil de Donovan Marsh.

Não que o filme precise de surpresas e reviravoltas para funcionar, pois não precisa, mas o problema é que Marsh parece achar que cultivar o mistério da identidade do assassino por algo como meia hora é uma boa ideia, mesmo que seus esforços nessa direção sejam pífios, o que cria uma mensagem ambígua que acaba detraindo do desenvolvimento do assunto principal e tornando parte do longa um thriller de whodunit banal. Mas a convergência da narrativa no terço final, assim com a conturbada relação de Jodie com seu chefe, o que gera alguns momentos interessantes que inclusive lidam com questões de procedimento policial e de abismo social na África do Sul, acabam fluindo bem, com Wessels e Mboya convincentes em seus respectivos papeis.

O longa também sofre um pouco de indecisão em como encerrar a ação, criando uma sequência um tanto quanto cansativa de finais falsos que fazem a história perder um pouco de seu ritmo até encontrá-lo novamente bem no fim, que faz esforço para ser esperançoso, eventualmente até abrindo portas para uma futura – e desnecessária – continuação. Mas, no geral, Eu Sou Todas as Meninas, apesar de seus problemas, funciona como um bom thriller policial e, principalmente, um ótimo lembrete do tamanho do problema do tráfico humano, ainda que, justamente por isso, seja desagradável de assistir pela primeira vez e quase impossível de retornar a ele.

Eu Sou Todas as Meninas (I Am All Girls – África do Sul, 14 de maio de 2021)
Direção: Donovan Marsh
Roteiro: Wayne Fitzjohn, Marcell Greeff, Emile Leuvennink, Donovan Marsh, Jarrod de Jong
Elenco: Erica Wessels, Hlubi Mboya, Mothusi Magano, Masasa Mbangeni, Israel Makoe, Brendon Daniels, Matt Stern, Lizz Meiring, Ben Kruger, Mampho Brescia, Federico Fernandez, Khutjo Green, Kaseran Pillay, Rafiq Jajbhay
Duração: 107 min.

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