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Crítica | Eu Tenho Uma Foto (2017)

por Luiz Santiago
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Eu Tenho Uma Foto, documentário egípcio lançado em 2017, é o tipo de filme que nos faz repensar a política dos autores através de um contato cultural pouco usual para nós, ou seja, de um cinema fora dos polos aos quais estamos acostumados. E não só isso. Tanto o papel da direção quanto o processo de discussão, consumo, entendimento, História e legado do cinema são colocados em discussão e revisão aqui, fazendo a obra alcançar de modo muito sutil um significado que vai muito além de seu objetivo primário: filmar o mais icônico figurante do cinema egípcio, o ator Metawee Eweiss.

O jovem diretor Mohamed Zedan procura esse rosto que viu dezenas de vezes nos filmes nacionais e encontra um homem cheio de memórias, histórias, e que juntamente com o amigo Kamal El-Homossany (um dos mais velhos assistentes de direção do Egito) muda o rumo que o filme inicialmente parecia tomar, num processo que se liga com o que eu disse no parágrafo de abertura da crítica, fazendo com que o espectador repense a política de autores através de um novo espaço de criação, de um recorte cultural nostálgico e que nos convida a rever uma parte da História do Cinema como conhecemos. Em dado momento da obra, El-Homossany afirma que o Neorrealismo é egípcio, fazendo uma interessante comparação entre o tema do italiano Ladrões de Bicicletas e o tema do egípcio Ladrões de Búfalos. E assim o filme se marca como um fantástico processo de reflexão cinematográfica.

A tentativa de registro de um profissional esquecido — note que o papel do figurante é explorado aqui de modo bastante respeitoso, com El-Homossany e Zedan nos convidando a ver esses indivíduos com outros olhos — acaba se transformando em um registro inesperado de criação cinematográfica, dividido entre a parte dramatúrgica e a presença forte de El-Homossany saindo de seu papel de entrevistado para o de assistente de direção e depois para o de diretor. Essa troca de papéis beneficia o filme de maneira tremenda, porque fortalece os papéis históricos que tiveram cada um desses homens no cinema e mostra o quê e o quanto eles podem fazer, mesmo muitos anos depois de afastados.

Essa oficina de criação serve também como impulsionadora da matéria-prima para o documentário, e é fazendo cinema que ouvimos esses velhos profissionais falarem de cinema, de suas experiências, do método de se filmar no Egito décadas atrás, e de como eles veem o cinema hoje. O amor à Sétima Arte vem á tona, assim como divergências criativas, camaradem e compartilhamento de uma outra mídia, a fotografia, que coroa o filme através de um dispositivo interessantíssimo de memória, através da vasta coleção de Metawee Eweiss, que guarda retratos de boa parte dos filmes que participou.  A perpetuação da memória no filme e na fotografia se encontram na formação de uma memória de trabalho sobre dois homens, um figurante e seu amigo de longa data, um assistente de direção.

Um jogo. É isso que Eu Tenho Uma Foto termina sendo. Seu estilo de corte seco misturado a um preenchimento didático são abordagens bem diferentes para um tema pouco visto e constantemente desprezado pela própria indústria (seus profissionais de bastidores ou figuração), o que torna esse trabalho metalinguístico ainda mais especial.

Eu Tenho Uma Foto (I Have A Picture. Film No. 1001 in the Life of the oldest Extra in the world) — Egito, 2017
Direção: Mohamed Zedan
Roteiro: Mohamed Zedan
Elenco: Mohamed Zedan, Mohamad El-Hadidi, Kamal El-Homossany, Metawee Eweiss, Mark Lotfy, Ahmed Magdy Morsy, Sameh Nabil, Mohamed Zedan
Duração: 72 min.

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