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Crítica | Eu, Tonya

por Gabriel Carvalho
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“Eu fiz de você uma campeã, sabendo que você me odiaria por isso. Esse é o sacrifício que uma mãe faz!”

Alguns atletas ficam marcados na história do esporte mais pelas polêmicas que envolveram seus nomes do que pelos seus próprios talentos. São inúmeros os exemplos possíveis capazes de fazerem uma pessoa vir à tona, nas manchetes de jornais ou em programas de televisão sensacionalistas, mais do que uma medalha nas Olimpíadas. Esse não é o caso exato de Tonya Harding, que definitivamente tinha talento para a patinação artística. Muito provavelmente, porém, a jovem não seria relembrada até hoje se não fosse o evento que destruiu a sua carreira. Uma via de mão dupla, é claro, fazendo-a ser lembrada com ódio por muitos, mas lembrada. Sua história é uma tragédia surreal, movimentada por facetas naturalmente deturpadas. Steven Rogers faz questão, porém, de examinar no roteiro todas as incongruências que, enfim, não trouxeram respostas suficientes. Desde os primórdios da vida de sua protagonista, Rogers explora no texto a “verdade” por trás da jornada de uma patinadora artística que o mundo amou odiar. Logo, temos uma obra emaranhada de pontos de vista, que não absolve e nem condena a personagem principal. Esse papel é do público que, muito provavelmente, sairá do filme fazendo as duas coisas: condenando a personagem pelos seus erros, mas absolvendo-a em relação a sua história, compreendendo uma vida de violência.

É por isso que Eu, Tonya tem muitas características de falso-documentário. Seria fácil contar essa história sem usar apoios narrativos como a quebra da quarta-parede e a estética de entrevista, que vai-e-vem no filme, fluindo sem quebrar o ritmo da obra, devido, entre outros motivos, a excelente edição de Tatiana S. Riegel. Porém, Craig Gillespie não encontraria a autenticidade devida se não fossem esses itens, os quais, portanto, não são apenas apoios, mas engrenagens de um conto assustadoramente real. Todavia, o longa-metragem vai além, moldando tudo sob óticas ambíguas, tornando a realidade sarcástica a si mesma. A relação entre Tonya (Margot Robbie) e seu marido Jeff Gilloly (Sebastian Stan) é um desses casos de meia-verdade, apesar de Gillespie conduzir o seu trabalho para que a versão dela prevaleça sobre a dele, provocadoramente enganosa. Sendo assim, Sebastian Stan é um complemento fundamental para a transposição cinemática de um relacionamento abusivo; sua visão das coisas é sonsa, tentando acobertar uma participação substancial em casos de violência. Os pedidos de desculpas, as idas e vindas do casal, soam repetitivas, o que em alguns casos mostraria uma redundância no storytelling. Porém, aqui, a exaustão expõe um relacionamento tóxico, que, no final das contas, aumentou profundamente as cicatrizes de Tonya.

Em um outro plano, o conservadorismo no esporte não permitiria Tonya ir muito longe, visto que ela não era um retrato do sonho americano a ser exportado para o mundo inteiro ver e aplaudir – uma questão bastante frisada pela narrativa, que fomenta discussões válidas sobre se o esporte deveria ser só sobre o esporte. O roteiro, dessa forma, insere momentos, possivelmente fictícios, para trazer mais camadas à tragédia tonyana. O que se tem com isso é um foco muito honesto em, se não transmitir a verdade pelos fatos que acontecerem, transmitir a verdade na essência do que aconteceu, no todo envolvendo a carreira da mulher, que a afetou drasticamente pelo resto de sua vida. Quando se vai falar finalmente do caso Kerrigan, o ápice de uma história violenta, Gillespie, diferentemente do que fez com o romance entre Jeff e Tonya, não traz nenhuma tendência que nos leve a deduzir quem é o dono da verdade. A verdade é propositalmente confusa, com vários usos de continuidade retroativa para mostrar a complexidade da situação: as palavras de uma pessoa contra as palavras de outra. Infelizmente, é nessa parte que Eu, Tonya desencontra equilíbrio narrativo, esquecendo de Tonya como protagonista. Aliás, Nancy Karrigan (Caitlin Carver) também é uma outra personagem relegada a participações injustamente menores.

Ademais, em frente a um espelho, no clímax da obra, Robbie destrói, demonstrando, com meras expressões faciais, todos os pedaços humanos que compõem a sua personagem. Em frente a um juiz, um monólogo nos comove e nos relembra a trajetória bem difícil de sua personagem, partindo da complicadíssima relação entre ela e sua mãe LaVona, uma personalidade que, em todos os seus aparatos vilanescos, permite Allison Janney também entregar uma performance exuberante. Eu, Tonya alinha muita tensão entre as duas e desarma em nossos corações qualquer chance de reconciliação entre ambas, fadadas a viverem ou longe uma da outra, ou em uma constante rinha de galo. LaVona é uma mulher que verbaliza acidez, o que tendeu a tornar – e tornou – Tonya uma mulher corroída, tendo na patinação no gelo sua válvula de escape e único alívio emocional. Sua expressão de felicidade ao conseguir atingir certos feitos é contagiante e isso também é levado para dentro da pista, onde o diretor sabe muito bem conduzir as sequências, mesmo com elas fraquejando um pouco por conta da computação gráfica. Mas Eu, Tonya não deixa de ser um sucesso de filme, envolvente, intrigante e verdadeiro com a história, mesmo baseado em tantas mentiras. Parafraseando a personagem-título, “não existe isso de verdade, cada um tem a sua própria.

Eu, Tonya (I, Tonya) – EUA, 2017
Direção: Craig Gillespie
Roteiro: Steven Rogers
Elenco: Margot Robbie, Sebastian Stan, Allison Janney, Bobby Cannavale, Julianne Nicholson, Paul Walter Hauser, Caitlin Carver, Dan Triandiflou, Bojana Novakovic, Mckenna Grace
Duração: 119 min.

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