Crítica | Evandro Teixeira – Instantâneos da Realidade

Evandro Teixeira é um dos maiores nomes do fotojornalismo no Brasil. Ao lado de Sebastião Salgado, compõe uma forte marca no que tange aos registros históricos de nuances variadas da nação em momentos importantes de sua trajetória. Dirigido e escrito por Paulo Fontenelle, o documentário começa com uma narração inconfundível, na voz de Chico Buarque, com imagens que mesclam fotos famosas. Logo mais, os depoimentos se iniciam, mas não sem antes o roteiro esmiuçar uma breve filosofia da fotografia, numa exposição sobre a “permanência do tempo no papel”. A morte e o funeral de Pablo Neruda, imagens peculiares da Ditadura Militar Brasileira, registros do sertão conectados com a nossa literatura, dentre tantos outros marcos fazem parte do pacote de histórias atreladas ao percurso de Evandro Teixeira na tradição fotojornalística brasileira.

Há vários depoimentos, alguns mais importantes que outros, mas todos preocupados em refletir sobre as suas instancias pessoais e sociais. Familiares, personalidades da mídia e outros fotógrafos renomados participam do painel de depoimentos organizados pelo roteiro de Paulo Fontenelle. Para Sebastião Salgado, o fotógrafo “representa um pedaço da nossa história”, sendo Evandro Teixeira um profissional “profundamente brasileiro”, que “não perdeu o gás em momento algum, sempre a fazer de tudo”. Seu depoimento, juntamente com os de filhos, colegas de profissão e outras participações relevantes são conduzidos por trechos com exposições de várias fotografias importantes, acompanhadas pela trilha sonora de Marcos Souza e design de som de Joel Hilário.

Dentre os casos, há um hilariante depoimento sobre uma peça pregada para Evandro Teixeira numa das redações em que atuou. Conta-se que ele havia tomado banho no local e estendido as suas roupas por lá. Um acidente próximo causou bastante comoção e os colegas disseram que o motivo da fatalidade era uma cueca que voou e atrapalhou a visão de um motorista. Escrito aqui pode parecer um detalhe bobo, mas são relatos que humanizam o personagem social, empregam humor e fazem a produção avançar para mais perto dos seus espectadores, algo já possível por conta da simplicidade e paixão empregadas pelo fotógrafo em seu trabalho, reiterações reforçadas constantemente pelas imagens que dividem a tela com os depoentes, concatenadas com opiniões que afirmam ser o documentado, um “homem à altura da elite da fotografia brasileira”.

Com sua técnica formidável de apresentar cenas verticalizadas, tais como painéis que retratavam de alguma forma um retrato conciso dos brasileiros, as fotografias da fase militar são algumas das mais instigantes, mas devo considerar que o fotografo consegue ir além e alcançar outros patamares da linguagem expressiva da fotografia, numa superação da produção de cunho exclusivamente político e social. Mais reconhecido no exterior que em sua própria nação, Evandro Teixeira, salvaguardadas as devidas proporções, teve o seu projeto de Brasil semelhante ao que pretendia José de Alencar ao idealizar uma literatura de cunho essencialmente nacional. O que isso significa? Clicou Canudos, numa belíssima e lírica abordagem do sertão, penetrou a cultura indígena e radiografou cenas bem peculiares, além de cenas urbanas igualmente marcantes. Numa visita à sua cidade natal, os realizadores captam um belíssimo depoimento de sua mãe, uma senhora bem idosa, mas tão lúcida e agradável, sendo estes um trecho marcante da produção.

Considerado, ao lado de Sebastião Salgado, como um dos 40 maiores fotojornalistas do mundo, Evandro Teixeira também deixou a sua marca na badalada visita do papa João Paulo II ao Brasil, cobriu a Conferência Rio Eco 1992, repleta de renomados chefes de estado, etc. Num determinado momento, um entrevistado alega que sempre que há algum fato de seu passado a ser rememorado, uma fotografia de Evandro Teixeira surge como ponto de conexão, numa comprovação cabal da sua permanência na memória coletiva cultura brasileira. De volta à sua técnica, cabe ressaltar pontos específicos de sua produção, isto é, fotos que se explicam por si só, sem necessariamente depender de legendas, uso de contraste, cores saturadas, ângulos inusitados e a já citada verticalidade das cenas. De Lula operário ao Lula presidente, o fotógrafo contemplou momentos de celebridades, ícones do esporte, tal como Aryton Senna, etc.

Outro caso interessante é uma situação racial peculiar. Levado a fazer fotos de casamentos pela cidade, registrou uma união de um homem negro com uma mulher branca. Seu editor, insatisfeito com a foto, pois considerava ultrajante veicular a foto do homem nos jornais, ampliou o negativo e embranqueceu o fotografado, numa exposição breve e sem muita reflexão no documentário, mas que para o espectador permite um debate sobre a perigosa manipulação da imagem numa era prévia ao digital. Ainda sobre os casos, há também o bem-humorado reencontro de Teixeira com o militar fotografado durante uma queda de sua motocicleta, uma das imagens mais marcantes do jornalismo brasileiro que na época, mostrava por fotos o que no texto poderia ser censurado. Importante: Evandro Teixeira foi o único fotógrafo a registrar o General Castello Branco no Forte de Copacabana durante o golpe militar em 31 de março de 1964. É dele também um importante registro da queda de Salvador Allende no Chile, em 1973, e a repressão ao Movimento Estudantil no Rio de Janeiro, em 1968.

As informações que constam no depoimento, por sua vez, são parte integrante do personagem, não da forma como a história é contada. Apesar das boas intenções de Paulo Fontenelle ao escrever e dirigir um documentário de tema tão pertinente, falta algum ritmo na montagem do material, talvez por conta de ter o próprio realizador também como editor dos depoimentos ao longo de breves, mas relativamente arrastados 76 minutos de produção. Evandro Teixeira – Instantâneos da Realidade é um material que merecia ir além do interesse acadêmico ou didático, mas o resultado não permite ir muito além disso. No entanto, a força do personagem radiografado é tão imensa que se fizermos um esforço, conseguimos envolver a produção num invólucro de entretenimento, afinal, conhecimento e cultura urgem no Brasil e a riqueza de temas e questões expostas no documentário precisam atingir o máximo de pessoas, não necessariamente estudantes de fotografia, historiadores ou ingressantes no curso de Comunicação Social com Jornalismo.

Evandro Teixeira – Instantâneos da Realidade — (Brasil, 2003)
Direção: Paulo Fontenelle
Roteiro: Paulo Fontenelle
Elenco: Evandro Teixeira, Paulo Fontenelle, Sebastião Salgado, Chico Buarque, Marcos Sá Correa, Sérgio Cabral, Fritz Utzeri, Ayrton Senna
Duração: 76 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.