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Crítica | Evangelion 2.22: Você (não) Pode Avançar

por Kevin Rick
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A segunda parte da cinessérie Rebuild da franquia Neon Genesis Evangelion é basicamente um atestado da diferença de linguagem que Hideaki Anno quer imprimir, se deslocando o máximo possível do que esperaríamos em termos de contexto e experiência do que vimos na série original e em The End of Evangelion. Depois que o chato e preguiçoso Evangelion: 1.11 Você (não) Está Só estabeleceu a ideia da ação como meio de Anno e sua equipe explorarem evoluções técnicas, a sequência, Você (não) Pode Avançar, determina de modo bem mais preciso que estamos diante de um (quase) blockbuster.

Confesso sentir falta das filosofias, alegorias e a contemplação melancólica dos personagens, mas, bem, acredito que o inconformismo artístico de Anno, no sentido de estar sempre mudando a composição estética e narrativa da franquia, faz parte da identidade do diretor. Só acho curioso que ele tenha escolhido algo mais “básico” como a ação Mecha como nova personalidade da sua obra, após ter marcado toda uma geração com complexidade simbólica e variedade dramática dos arcos bastante incomuns de seus personagens no que conhecemos de animes. Felizmente, ainda que diante de uma proposta mais clichê e convencional, a série Rebuild começa a dar sinais de um prazeroso entretenimento explosivo.

O grande diferencial é que Anno tomou vergonha na cara e trouxe novidades para sua reciclagem de conteúdo que vão além do artificial. Apesar de ser o mínimo requerido para uma história inédita, mesmo que seja recontada em outro molde, o encadeamento narrativo é extremamente similar (com grande exceção do desfecho), mas diferente de trabalhar o diferencial apenas na colagem podre da montagem – quanto mais eu penso, mais acho que fui bonzinho com o “regular” do filme anterior – e na (fantástica) revisão gráfica, neste segundo filme, o cineasta consegue inserir novas perspectivas que nos deixam empolgados com a trama, e não apenas o visual.

Começar o filme com a extasiante sequência de ação com a nova piloto adolescente Mari (Maaya Sakamoto), é uma das escolhas mais certeiras da obra, pois, em um primeiro instante, já surpreende o espectador com um novo elemento no reconto, instigando a audiência em relação a quais mudanças teremos na história conhecida, e, em um segundo momento, estabelece o tom blockbuster que eu citei anteriormente. Antes de falar propriamente da ação, gostaria de pontuar como os personagens estão assumindo personalidades mais clichês de animes, com traços de psicopatia, feições exageradas e aqueles diálogos destemidos frente a morte que estamos acostumados. Faz sentido contextualmente com a linguagem mais clichê apresentada, mas confesso que me aborrece tanto os novos personagens quanto os antigos se tornarem paradigmas sem um dedo de aprofundamento.

Agora, vamos falar do lado positivo: monstros robóticos lutando contra monstros mitológicos. É isso, tá legal? Neon Genesis Evangelion se transformou em um blockbuster típico de bichões lutando com bichões, e, bem, eu acho que está tudo bem, pois Anno entende muito bem sua nova abordagem. A animação agora quer evidenciar a dinamização da narrativa pela ação, dando enfoque às EVA’s voando, caindo do céu em aviões, correndo pela Neo Tóquio como maratonistas destruindo a cidade – aliás, existem uns planos bem bacanas nesses momentos, no qual a câmera sempre dá foco ao impacto de destroços deixados pelas máquinas, dando um sentido ao espectador bem interessante de grandiosidade -, a forma como o quartel-general não discute mais sincronização, mas meios de usar a cidade para ajudar nas batalhas, entre outras ótimas soluções visuais. É um filme que começa, termina, feito pelo e para o combate.

A trilha sonora que mistura J-pop e rock, e a maneira como a animação agora se distancia de planos dos pilotos dentro dos Mechas, também são ótimos complementos à constante atmosfera de intensidade mantida durante as batalhas. Anno procura mais espaços e sequências bem iluminadas para manter a ação sempre esclarecida, exibida e realçada, com uma grande variedade de coreografias e estilos de combate – armamento, mão a mão, às vezes o foco inimigo é o campo A.T. ou então poderes a longa distância -, além de que os Anjos são feitos não apenas em prol de um horror dramático com seus designs animalescos, mas são verdadeiras armas de combate, com toda uma gama de concepção física concebida para diversificar o duelo. Realmente é uma obra que se constrói imageticamente com muito cuidado em prol da nossa experiência de ação ininterrupta.

Mas, claro, há problemas, justamente na falta de comprometimento com a cadência frenética. O filme começa com um bang e termina com um bang de lutas, explosões e o épico em foco, mas o miolo da obra é um puro arrastar narrativo com a tentativa superficial de desenvolver drama. Considerando como a proposta da fita não se existe mais na área íntima e psicológica, o roteiro procura caminhos mais convencionais de comédia, rivalidade amorosa, dinâmica escolar, entre outras situações juvenis superficiais do roteiro que atrapalham o ritmo da animação. Todo esse aspecto cotidiano existia na série original, mas era correlacionado com inseguranças, distúrbios e outros temas pesados como depressão e sociopatia, na proposta de vulnerabilidade pessoal, mas como aqui o peso dramático é inexistente para não atrapalhar o caráter mais comum, a dramaturgia soa rasa e artificial, como se fosse feita por obrigação.

Em cima dessa problemática, a montagem certamente não ajuda. A edição não tenta diluir o dramalhão entre momentos de êxtase, mas cria um espaçamento gigantesco entre o começo e o final bombástico, e o meio enfadonho. Evangelion 2.22: Você (não) Pode Avançar meio que perde o tom de frenesi, e vira um slice-of-life aguado… Todavia, o desfecho vem para salvar a pátria! Em um ótimo clímax, Anno consegue reiterar sua proposta de blockbuster na resolução que vai escalonando o escopo, indo de uma batalha a outra, um sacrifício ao outro, até o desfecho heróico de Shinji – quanta mudança de abordagem, não? – e um cliffhanger alegórico (!!) do Terceiro Impacto. Se antes o Apocalipse era um meio para emoções e depois virou uma experiência visual, agora ele é a desculpa para a narrativa sempre em apogeu – só falta mais comprometimento dramatúrgico em relação ao ritmo frenético.

 Evangelion 2.22: Você (não) Pode Avançar (ヱヴァンゲリヲン新劇場版: 破, Evangerion Shin Gekijōban: Ha) | Japão, 2009
Direção: Hideaki Anno, Masayuki, Kazuya Tsurumaki
Roteiro: Hideaki Anno
Elenco: Megumi Ogata, Kotono Mitsuishi, Megumi Hayashibara, Yūko Miyamura, Fumihiko Tachiki, Yuriko Yamaguchi, Motomu Kiyokawa, Kōichi Yamadera, Hiro Yūki, Miki Nagasawa, Takehito Koyasu, Akira Ishida, Tomokazu Seki, Tetsuya Iwanaga, Junko Iwao, Maaya Sakamoto
Duração: 108 min.

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