Crítica | Everyday (1929)

estrelas 5

As máquinas, o crescimento dos complexos industriais e o seu nocivo efeito sobre os homens foram os motivos que impulsionaram o surgimento da Sociologia. As condições humanas no mundo pós-industrial, especialmente nas grandes metrópoles, passaram a ser objeto de estudo e preocupação: a máquina se tornara o novo meio de vida das populações citadinas. Desde o início do século XX, a tecnologia e as máquinas foram as grandes senhoras da vida urbana, acelerando a sociedade consumista e as diversas indústrias.

Em 1929, um dos revolucionários da imagem das vanguardas, Hans Richter, filmou Everyday, obra na qual sintetiza a opressão do homem pelo ritmo insano das grandes cidades (lembra um pouco Metropolis de Fritz Lang), o homem oprimido pelo excesso de trabalho, pela falta de lazer ou prazer pessoal, pelo ambiente-máquina que o cerca.

O curta de 17 minutos tem o seu ritmo narrativo alterado (acelerado) conforme as sequências cotidianas são reproduzidas. Tudo começa com um despertador tocando. Segue-se a rotina dos preparos matinais para o trabalho e os componentes da metrópole e do cotidiano se mostram: trânsito, multidão, relatórios, burocracia, prazos, ordens, números, hora do almoço, café da tarde, ânsia pelo fim do expediente, cinema, curta noite de sono, o despertador… de novo. E este ciclo dura o filme inteiro.

Everyday alcança um ritmo tão real, que a sensação de cansaço no espectador é quase física quando chega o final do curta. Através da montagem dialética, o cineasta disseca o humano que dá a vida pela máquia, pela burocracia do trabalho, e morre, enquanto a máquina permanecem ganhando novos formatos e funções.

Alguns recursos usados por Richter para o embate entre homem e máquina foram as sobreposições e a aceleração de imagens. Uma atormentadora voz de um narrador off, fala o tempo inteiro em números, estatísticas, pesos e medidas, juros, lucros, cotações. Até o desejo sexual é dominado pelo cansaço, encobrindo qualquer possibilidade de erotização. Herbert Marcuse trabalhou esse conceito em Eros e a Civilização, onde chega à conclusão de que as avançadas civilizações capitalistas tem suas pulsões recalcadas por um princípio de realidade agravado, o que resulta na ‘deserotização’.

Everyday lembra o ciclo da música Cotidiano, de Chico Buarque. O homem consumido pela máquina que criou. E nas lentes de Richter, isso alcança um nível ainda mais doentio e provocante.

Everyday (UK, Suíça, 1929)
Direção: Hans Richter
Roteiro: Hans Arp, Hans Richter
Elenco: Sergei Eisenstein, Michael Hankinson, Basil Wright
Duração: 17 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.