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Crítica | Everything Sucks! – 1ª Temporada

por Gabriel Carvalho
103 views (a partir de agosto de 2020)

Não contém spoilers, nem o que foi revelado no trailer.

Freaks and Geeks é uma inesquecível série de high-school, que teve, infelizmente, devido a baixa audiência, apenas uma única temporada. Tudo funcionava naquela série. Os personagens eram marcantes, relacionáveis e/ou engraçados, os arcos instigantes e as histórias envolventes, preenchidas com doses fortes de entretenimento do mais alto nível. Mesmo tendo muito mais do que 10 episódios, as coisas andavam de uma forma apaixonante, quase como uma breve carta de compreensão e de amor sendo escrita na língua da juventude para a juventude, daquela época e de qualquer outra. Everything Sucks! é uma espécie de sequência espiritual, pegando todo aquele caráter oitentista e o transportando para os anos 90. Dentre as similaridades, a música é uma delas, tendo papel fundamental na jornada de seus personagens. Todavia, a diferença mais gritante de um seriado para o outro é que a nova produção da Netflix não tem, nem de longe, o mesmo charme. Como nem tudo são flores, muito menos espinhos, o nosso líder por essa caminhada dentro do mundo juvenil é um garoto super simpático chamado Luke O’Neil (Jahi Di’Allo Winston). Se a maior parte dos coadjuvantes não convence, ao menos o nosso protagonista segura bem as pontas, embora os roteiristas não o trabalhem tão bem quanto poderiam, encurtando mudanças de humor, as quais soam artificiais, e sendo incoerentes com os sentimentos que eles gostariam de fazer o público sentir pelo jovem.

Entre tanta carisma, a história vai moldando caminhos para o personagem prosseguir que são difíceis de comprar; caminhos que acabam o tornando antipático. A exemplificar, as maiores crises de raiva que acometem o herói da trama são trazidas para dentro do cenário do Clube de Vídeo. Na história, juntamente com o Clube de Teatro, Luke será responsável pela criação de um filme, após um determinado incidente criar rixas entre os dois grupos, e o garoto se responsabilizar pela direção do trabalho. Uma ótima premissa, definitivamente, mas mal explorada, visto que tudo parece ir de encontro com a ocasionalidade. Seria extremamente importante que nós sentíssemos o amor de Luke pela criação audiovisual, pelo cinema, mas muito de seu envolvimento nesse projeto permanece atrelado fortemente ao comportamento de segundos e terceiros, o que o torna deveras egoísta. Há um combate a essa característica do personagem no futuro, na mensagem, mas mesmo no egoísmo precisamos sentir, nem que seja por um pouquinho, como o personagem está se sentindo. Ademais, Everything Sucks! maneja mal as ideias do público em relação a série, de forma manipuladora, visto que informações sobre as orientações sexuais de determinadas pessoas necessariamente criam barreiras delas com outras, no sentido amoroso da situação, o que já nos prenuncia o que irá acontecer e não nos faz investir sentimentalmente em determinados arcos.

Por outro lado, Kate Messner (Peyton Kennedy), filha do diretor da Boring High School (nome sensacional para uma cidade), é uma personagem que sofre o contrário do que aconteceu a Luke. Após desenvolver um relacionamento com o garoto, embalado por seguidos usos sensacionais de alguns dos mais famosos hits da banda Oasis, Kate irá passar por uma jornada de descoberta sexual – estragada pelo trailer da série. Enquanto, em um primeiro plano, ela aparenta ser uma “aborrescente” comum, a atriz e o roteiro vão dando algumas saídas mais interessantes para a construção da personagem. Continua, porém, a sensação que falta empatia; falta a série nos jogar por completo para dentro daquele universo, nos fazendo comprar as frustrações e anseios dos personagens. Apenas na metade da trajetória isso é dado para nós, mas o vazio emocional não é completamente preenchido pelo que acontece no restante da história. Felizmente, há muito mais para ser avaliado do que apenas os protagonistas, razoáveis dentro de um escopo próprio, mas extremamente falhos se formos comparar com “competidores” que se saíram muito melhor em nos aproximar a suas figurinhas principais. A graça do negócio, a não ser determinadas cenas que, em contextos e com personagens melhores, seriam muito mais impagáveis, é vivenciar o relacionamento entre os pais dos dois “pombinhos”, crível (de certa forma, algumas atitudes do diretor, como fumar maconha no carro, são inacreditáveis, mas vamos lá, comprei a intenção) e natural, fomentado pelas semelhanças que um tem pelo outro, mas concretizado pelas diferenças.

Contudo, até nessa relação que estava surgindo de uma maneira orgânica, com calma, Everything Sucks! testa a nossa paciência com reviravoltas mal projetadas, que nos fazem olhar para certos personagens não como seres palpáveis, moldados por razão, mas bonecos sendo colocados onde Ben York JonesMichael Mohan bem entenderam. Sherry O’Neil (Claudine Mboligikpelani Nako) é um desses casos de mudança de certo ponto de vista para outro, que não são comprados pelo espectador, obrigado a engolir algumas situações abruptas. O que falta em pontuais acontecimentos é um texto que saiba transpor o que precisa transpor por meio de diálogos sinceros. De fato, há ocasiões que trazem interações certeiras, como a conversa (uma reviravolta impressionante no status quo, sentida pela atuação e pelo argumento) de Kate e Luke na ponte, pelo final da temporada, mas mesmo que haja motivação, que se consiga analisar algo que faça alguém agir de tal maneira, o audiovisual não tem de nos fazer saber das coisas, mas sentir as coisas. Todo o background do protagonista com seu pai distante, portanto, se quebra quando não há nada substancial para ser dito disso, deixando tudo para o futuro da série, que é promissor diante das nossas expectativas otimistas. O mesmo, felizmente, não pode ser dito sobre o que acontece entre Kate e seu pai Ken Messner (Patch Darragh), uma relação gradualmente aproximada, compreensível diante da dor que ambos nutrem pelo passado – e pelo presente.

No meio de tantos personagens deslocados, seja o pessoal do Clube do Vídeo, seja a galera do Clube do Teatro, Everything Sucks! não permite que nós sintamos todo aquele ambiente de high-school e suas conexões criadas, tanto as positivas quanto as negativas. É preciso que personagens como McQuaid (Rio Mangini) saiam da área do cartunesco e tornem-se seres vivos, relacionáveis. Acaba-se por ser incomparável os laços entre os membros do trio dessa série, quase automáticos, com os do trio de Freaks and Geeks. No passo que lá temos uma ligação extremamente forte entre a trindade, uma amizade verdadeira oriunda de uma natureza falha, Everything Sucks! não dá espaço para que algo seja efetivamente sentido. É uma série, enfim, insensível em boa parte, que demora muito para engatar. Dessa forma, é preciso muito mais do que algumas frases de efeito meia-boca e presunção de que somos fantoches compráveis, para que o louvor de Tyler (Quinn Liebling) por Oliver (Elijah Stevenson) funcione. O calouro e o veterano sendo amigos é, descaradamente, uma fabricação súbita. Contrapondo-os, Emaline Addario (Sydney Sweeney), seja com Oliver, com McQuaid e até com Kate, tem interações melhores norteadas, entendíveis e instigantes. Sendo assim, ignorando os vários deméritos, apesar dos risos provocados, dos sorrisos decorrentes de algumas cenas teoricamente magníficas e dos olhos que lacrimejam em momento bonitos e tristes, falta uma coisa essencial para Everything Sucks!: alma.  Que a segunda temporada da série nos faça sentir.

Everything Sucks! – 1ª Temporada – EUA, 2018
Criado por:  Ben York Jones, Michael Mohan
Direção: Michael Mohan, Ry Russo-Young
Roteiro: Ben York Jones, Michael Mohan, Noelle Valdivia, Hayley Tyler, Sean Cummings
Elenco: Jahi Di’Allo Winston, Peyton Kennedy, Patch Darragh, Claudine Mboligikpelani Nako, Rio Mangini, Quinn Liebling, Sydney Sweeney, Elijah Stevenson, Abi Brittle, Jalon Howard, Connor Muhl, Nicole McCullough, Ben York Jones, Zachary Ray Sherman
Duração: 10 episódios de 25 min.

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22 comentários

Christian Allen 25 de fevereiro de 2018 - 00:11

Não aguentei terminar o terceiro episódio. Luke me é insuportável e os outros personagens pelo menos no início não salvam, totalmente em segundo plano. Não gosto de começar uma série e largar tão cedo, mas dessa vez não teve jeito.
Dessa onda de lançamentos recentes ambientados nas décadas de 80 e 90, e que são carregados de nostalgia, saudosismo e referências que grande parte do público aclama, Everything Sucks me pareceu o mais fraco. Mas claro, tudo na minha humilde opinião.

Responder
Christian Allen 25 de fevereiro de 2018 - 00:11

Não aguentei terminar o terceiro episódio. Luke me é insuportável e os outros personagens pelo menos no início não salvam, totalmente em segundo plano. Não gosto de começar uma série e largar tão cedo, mas dessa vez não teve jeito.
Dessa onda de lançamentos recentes ambientados nas décadas de 80 e 90, e que são carregados de nostalgia, saudosismo e referências que grande parte do público aclama, Everything Sucks me pareceu o mais fraco. Mas claro, tudo na minha humilde opinião.

Responder
Jeta. 21 de fevereiro de 2018 - 17:24

Eu daria 3 estrelas pra série, me diverti assistindo e quero uma segunda temporada.
Eu não acho que o Luke segure a série, tem momentos em que ele é simplesmente insuportável, McQuaid é um personagem legal, mas que não faz nada de mais e o Tyler… é o Tyler, aparentemente a função dele na série é ser ignorado e sair da cena com cara de triste.
Acho que a Kate é uma personagem interessante, mas a atriz não é das melhores.
PS: A cena em que a Kate conta pro Luke como a mãe dela morreu foi golpe baixo.

Responder
Jeta. 21 de fevereiro de 2018 - 17:24

Eu daria 3 estrelas pra série, me diverti assistindo e quero uma segunda temporada.
Eu não acho que o Luke segure a série, tem momentos em que ele é simplesmente insuportável, McQuaid é um personagem legal, mas que não faz nada de mais e o Tyler… é o Tyler, aparentemente a função dele na série é ser ignorado e sair da cena com cara de triste.
Acho que a Kate é uma personagem interessante, mas a atriz não é das melhores.
PS: A cena em que a Kate conta pro Luke como a mãe dela morreu foi golpe baixo.

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Dianne 20 de fevereiro de 2018 - 01:13

A série é assistível e o maior problema dela é o roteiro de fato, as coisas acontecem de uma forma muito precipitada, é verdade, mas teve seus pontos positivos como a jornada da Kate e os pais que não são meros objetos decorativos. Enfim, acho que ela é promissora e provavelmente terá segunda temporada.

Responder
Helene 20 de fevereiro de 2018 - 01:13

A série é assistível e o maior problema dela é o roteiro de fato, as coisas acontecem de uma forma muito precipitada, é verdade, mas teve seus pontos positivos como a jornada da Kate e os pais que não são meros objetos decorativos. Enfim, acho que ela é promissora e provavelmente terá segunda temporada.

Responder
Marta Souza 19 de fevereiro de 2018 - 18:39

Vi o primeiro episódio e achei legalzinho. Vou ver mais uns 2 pra ter certeza se sigo ou não.

Responder
Marta Souza 19 de fevereiro de 2018 - 18:39

Vi o primeiro episódio e achei legalzinho. Vou ver mais uns 2 pra ter certeza se sigo ou não.

Responder
Vinicius S Pereira 19 de fevereiro de 2018 - 15:47

Acho que dessa vez fui beneficiado pela falta do hype. Desejava muito que fosse a nova Freaks and Geeks, mas já esperava algo bem abaixo, e isso meio que me rendeu algumas surpresas. No geral série é ok, gostei do protagonista e ri bastante em alguns episódios. Só achei tudo muito corrido, a temporada quis fazer muita coisa em pouco tempo, e daí acabou caindo na artificialidade que você comentou.

Responder
Edson Aguiar 19 de fevereiro de 2018 - 14:30

Eu discordo sobre o protagonista da série. Não achei ele carismático, muito pelo contrário. Luke beira o insuportável de tão chato. Pra mim, os personagens coadjuvantes pareceram mais interessantes e divertidos. De resto, eu concordo com a crítica.

Responder
Gabriel Carvalho 20 de fevereiro de 2018 - 05:24

@disqus_3VXpuUBiHS:disqus, eu acho ele carismático. Mas ele fica realmente insuportável quando os roteiristas enfiam diversos comportamentos nele que só servem para nos deixar assim, com raiva do personagem. A relação dele com a mãe começa muito bem, e depois se perde, enquanto a de Kate com Ken é o contrário. Série confusa…

Responder
Gabriel Carvalho 20 de fevereiro de 2018 - 05:24

@disqus_3VXpuUBiHS:disqus, eu acho ele carismático. Mas ele fica realmente insuportável quando os roteiristas enfiam diversos comportamentos nele que só servem para nos deixar assim, com raiva do personagem. A relação dele com a mãe começa muito bem, e depois se perde, enquanto a de Kate com Ken é o contrário. Série confusa…

Responder
Edson Aguiar 19 de fevereiro de 2018 - 14:30

Eu discordo sobre o protagonista da série. Não achei ele carismático, muito pelo contrário. Luke beira o insuportável de tão chato. Pra mim, os personagens coadjuvantes pareceram mais interessantes e divertidos. De resto, eu concordo com a crítica.

Responder
Rômulo Estevan 19 de fevereiro de 2018 - 13:20

4 estrelas ! A série é boa sim,os personagens são carismáticos sim! Tudo questão de opinião !

Responder
Gabriel Carvalho 20 de fevereiro de 2018 - 05:27

@rmuloestevan:disqus, discordo e recomendo fortemente você assistir Freaks and Geeks, Stranger Things, ou qualquer coisa nessa onda high-school de época, para perceber o que é carisma de verdade. “Se uma pessoa nunca viu nenhum filme na vida, certamente Cinquenta Tons de Cinza vai parecer uma obra-prima.” é uma frase que li hoje. Talvez se encaixe no contexto, talvez não. Mas tudo bem, que bom que gostou da série. Continue comentando no site.

Abraços!!!

Responder
Gabriel Carvalho 20 de fevereiro de 2018 - 05:27

@rmuloestevan:disqus, discordo e recomendo fortemente você assistir Freaks and Geeks, Stranger Things, ou qualquer coisa nessa onda high-school de época, para perceber o que é carisma de verdade. “Se uma pessoa nunca viu nenhum filme na vida, certamente Cinquenta Tons de Cinza vai parecer uma obra-prima.” é uma frase que li hoje. Talvez se encaixe no contexto, talvez não. Mas tudo bem, que bom que gostou da série. Continue comentando no site.

Abraços!!!

Responder
Rômulo Estevan 21 de fevereiro de 2018 - 19:13

ACHO que é questão de gosto e opinião! Então o que pode não te agradar,pode agradar outros! Não podemos generalizar.

Responder
Rômulo Estevan 21 de fevereiro de 2018 - 19:13

ACHO que é questão de gosto e opinião! Então o que pode não te agradar,pode agradar outros! Não podemos generalizar.

Responder
Rômulo Estevan 19 de fevereiro de 2018 - 13:20

4 estrelas ! A série é boa sim,os personagens são carismáticos sim! Tudo questão de opinião !

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Nadson Nogueira 19 de fevereiro de 2018 - 11:30

Parabéns pela critica concordo com tudo que você disse, gostei da série me divertir com o casal formado pelo diretor e a mãe do Luke . O clube do vídeo ok . Foi surpreendido com a reviravolta da mãe da Kate . Destaque pra trilha sonora que gostei também . A série tem potencial mais como você afirmou falta alma pra série. Acredito que eles vão encontrar na segunda temporada .

Responder
Gabriel Carvalho 20 de fevereiro de 2018 - 05:29

@nadsonnogueira:disqus, a série é tão apressada que não temos tempo para sentir nada. Quando Oliver leva Tyler para conversar nos fundos daquele galpão misterioso, eu entendi o que estava acontecendo, mas não esperava que a relação fosse conduzida de forma tão súbita e artificial, no meio de tantas outras coisas que estavam acontecendo ao mesmo tempo. Isso não permite que visualizemos nada entre os dois como importante, quando na verdade, é.

Responder
Gabriel Carvalho 20 de fevereiro de 2018 - 05:29

@nadsonnogueira:disqus, a série é tão apressada que não temos tempo para sentir nada. Quando Oliver leva Tyler para conversar nos fundos daquele galpão misterioso, eu entendi o que estava acontecendo, mas não esperava que a relação fosse conduzida de forma tão súbita e artificial, no meio de tantas outras coisas que estavam acontecendo ao mesmo tempo. Isso não permite que visualizemos nada entre os dois como importante, quando na verdade, é.

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