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Crítica | Exorcismo, de Thomas B. Allen

por Leonardo Campos
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Na árvore genealógica das obras artísticas sobre exorcismo, o livro de Thomas B. Allen é um dos primeiros entes a compor o quadro familiar, bem antes do clássico O Exorcista, de William Peter Blatty. Na verdade, a obra trata do caso responsável por inspirar Blatty a escrever o trágico momento da menina Regan, eternizado pelo filme de 1973. Conforme afirmou o Allen, o interesse pelo tema veio de uma matéria publicada em uma coluna do jornal Washington Post, tendo como foco uma testemunha ocular do caso real sobre possessão ocorrido em Maryland, Estados Unidos, em 1949.

Em sua investigação, Allen traça um painel das transformações ocorridas com o pequeno Robbie, criança que começou a apresentar “anormalidades” após brincar com uma tábua Ouija, deixada por sua tia falecida. Robbie era submetido ao jogo com a tábua frequentemente, juntamente com a sua tia que o ensinou a manipular a prancha que segundo reza a lenda, permite o contato com forças sobrenaturais. As crises foram constantes, progressivas e cada vez mais pesadas, culminando numa série extensa de sessões de exorcismo. O nome do garoto foi alterado por conta da preservação da identidade.

“Para agir contra o diabo, um exorcista penetra nas sombras profundas e tateantes do mal”, ressalta uma passagem significativa dentre os 14 capítulos que compõem o livro, narrador de forma linear e progressiva, bastante detalhado no que diz respeito aos comentários acerca da bibliografia e as notas de rodapé fundamentais para compreensão de determinados trechos.

Considerado por alguns especialistas como o maior relato sobre exorcismo revelado pela Igreja Católica desde a Idade Média, a obra contém descrições do ritual publicadas graças ao acesso às anotações do diário de um membro da igreja que participou do processo, Raymon J. Bishop, entregues pelo padre Walter Halloran ao escritor. Arrepiantes, os arranhões nas paredes, as marcas no corpo, as vociferações demoníacas ditas em idiomas desconhecidos e a atmosfera de horror, provocada por objetos que se moviam sozinhos, pelas gargalhadas diabólicas e pelo fedor de gases e urina que beiravam o insuportável, são materiais potencialmente poderosos e que nos faz entender parte da inspiração de Blatty ao escrever O Exorcista nos anos 1970.

Recomendado pelo casal Ed e Lorraine Warren, Exorcismo foi traduzido por Eduardo Alves e lançado pela Darkside Books em 2016. Originalmente lançado em 1963, a obra apresenta 272 páginas diabolicamente diagramadas, numa demonstração de trabalho editorial sofisticado, repleto de referências para os fãs de um dos subgêneros mais cultuados do cinema: o exorcismo.  A textura do material e a parte interna metalinguística é uma prova cabal do empenho de uma editora quando há interesse em resgatar clássicos e disponibilizá-los em língua portuguesa.

Versátil, o escritor informou certa vez que começou a carreira como repórter de jornal. Ao passo que os assuntos mudavam cotidianamente, o seu interesse por escrever sobre temas diversos também aumentava. Bem sucedido e formado em escola de ensinamentos jesuítas, Thomas B. Allen pode até ter sido um escritor múltiplo, mas convenhamos a sua presença na memória literária coletiva será eternamente vinculada ao livro que deu origem ao clássico que, por sua vez, deu origem ao filme clássico, responsável por dar combustão a um subgênero cinematográfico ainda relevante na contemporaneidade.

Exorcismo (Possessed) — EUA, 1993
Autor: Thomas B. Allen
Tradução: Eduardo Alves
Editora no Brasil: Darkside Books
Data de publicação no Brasil: 2016 (edição nacional atual)
Páginas: 272 (edição nacional atual)

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3 comentários

RenanSP 13 de outubro de 2017 - 14:13

Demorei pra terminar esse livro, o começo até me prendeu mas a hora que começou o exorcismo mesmo (que eu achei que ia ser a melhor parte) fiquei muito disperso, talvez a reprodução integral de orações me cansou.
Sem falar que não consegui ver realidade nenhuma desde o começo, talvez no lançamento original alguém acreditava, mas agora lendo em 2017 é muito clichê de filme de terror, moveis se arrastando, arranhões no corpo, não tem como acreditar nesse relato, muito fantasioso.

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leodeletras 14 de outubro de 2017 - 13:34

@RenanSP:disqus , mas sendo literatura, a fantasia não tem precedentes por ai? Repare que o livro é um relato baseado numa suposta história verídica.

Há também o fato da TV e do Cinema terem explorado demasiadamente o gênero, por isso talvez algumas coisas surjam como clichês. Concordo que o livro cansa em certo ponto, mas é preciso olhar com base no período histórico. Pensar na época, pois você está fazendo, metaforicamente, um exercício de viagem no tempo.

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RenanSP 16 de outubro de 2017 - 22:31

talvez 20 anos atrás acreditaria nos absurdos relatados na obra, o livro do Exorcista mesmo é bem mais “real” que esse supostamente baseado em fatos. Achei que encontraria relatos mais contidos.

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