Crítica | Expresso do Amanhã – 1X02: Prepare to Brace

  • spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios e do restante de nosso material sobre esse universo.

A boa notícia é que Prepare to Brace já começa a indicar que Expresso do Amanhã tem mais a oferecer do que apenas uma versão aguada da HQ original e do filme em que foi baseada. A má notícia é que ainda é pouco demais para tornar a série realmente relevante. Mas Graeme Manson, exatamente por ter sido o co-criador de Orphan Black e por ter conduzido aquela obra tão bem, merece o benefício da dúvida, especialmente porque, já no segundo episódio, sua nova empreitada consegue entregar uma narrativa que efetivamente mostra potencial.

Começando com as consequências da tentativa de revolução para os fundistas, o capítulo faz uso de um poderoso momento tirado diretamente do filme de Bong Joon Ho: o decepamento de braço na base do congelamento. Sequência mais tensa do que toda a pancadaria frustrada no episódio piloto, ela dá o tom para o drama da semana que mantém Andre Layton constantemente investigando o misterioso assassinato na terceira classe que o retirou da penúria do lugar que vivia há mais de sete anos. A diferença é que, agora, a investigação está mais claramente a serviço de um plano do protagonista para um novo movimento revolucionário que aproveita seu novo status e seu “privilégio” de poder trafegar entre praticamente todos os 1.001 vagões do imparável trem.

Se por um lado a característica de “turismo” pelo Perfuraneve continua aqui, por outro esse aspecto torna-se mais discreto e bem costurado dentro da estrutura da investigação, com o roteiro de Donald Joh tendo ainda tempo de criar um bom clímax no vagão de gado que deixa muito clara a fragilidade do trem em eterna circulação ao redor de um mundo congelado, com temperaturas inferiores a -100º Celsius. Esse bom e mortal momento também escancara de vez o frágil equilíbrio interno no trem, que expande o breve comentário que ouvimos em First, the Weather Changed sobre não haver mais salmão defumado não porque não há salmão, mas sim porque não há mais madeira para defumação. Sem o gado vivo, a falta não é apenas de carne para a abastada Primeira Classe, mas sim de eletricidade para o próprio trem, que usa o gás metano resultado das fezes bovinas para complementar o moto-perpétuo.

Da mesma maneira, como um Layton ensanguentado depois de colocar em funcionamento o que parece ser a primeira perna de um longo e definitivo plano revolucionário diz para Melanie Cavill, se os fundistas encontraram seu equilíbrio há tempos, simbolicamente extirpando aqueles que se viraram para o canibalismo, quer parecer que as classes mais poderosas ainda não. Afinal, a sugestão de que existe um mercado paralelo de carne humana não por necessidade e desespero, mas sim por algum tipo de prazer mórbido, é de revirar o estômago e perverte a lógica da divisão de classes. Na verdade, não a perverte, mas a confirma: se alguém pode parar para pensar em prazeres da carne (literalmente aqui) enquanto outros comem gelatinas disformes racionadas, percebe-se que a boa e velha estratificação social que vemos em nosso cotidiano continua no trem da ficção.

Foi particularmente interessante notar a velocidade com que o mistério do assassinato avança. Layton deixa claro que é bem menos importante descobrir o assassino do que saber o que o morto possa ter eventualmente contado de segredos do misterioso Mr. Wilford que, até prova em contrário, é a própria Melanie. Isso pode ser uma indicação de que o assassinato, que parecia ser todo o objetivo da temporada por conta de seu primeiro episódio, é efetivamente o que deveria ser, ou seja, apenas um gatilho narrativo para permitir que uma história muito mais relevante seja contada. Se for isso, a notícia é alvissareira, mas, como disse logo na abertura, ainda é cedo para comemorar.

Afinal, a cada momento interessante como o do congelamento bovino e o das deduções sangrentas de Andre para uma fria – mas claramente contrariada – Melanie, ganhamos uma viagem em flashback psíquico (ou seja lá o tenha sido aquilo) em um aquário no vagão-leito que tenta de forma atabalhoada dar reforço à história pregressa do protagonista e uma estratégia de passagem de mensagem que não faz muito sentido lógico. E isso sem contar com a falta de desenvolvimento dos personagens. Há sem dúvida a relação not so buddy cop entre Andre e a mal-agradecida Bess Till que mais do que obviamente será desenvolvida para no mínimo uma conexão de respeito mútuo, além de uma tentativa de contorno de passado para Melanie (a foto do bebê), mas toda a profundidade para por aí, faltando uma constelação de personagens de suporte que realmente apareça mais do que alguns segundos por episódio.

Não é nem de longe uma tarefa fácil fazer isso em uma série em que o espaço confinado é constante e realmente apertado, sem que conversas verdadeiramente privadas possam existir e sem que haja brechas para a investigação do passado de pelos menos alguns deles sem que seja necessário recorrer a flashbacks redundantes. Mas o conceito de Expresso do Amanhã continua fascinante e o momentos bons de Prepare to Brace conseguiram criar empolgação suficiente para tirar o gostinho de apenas mais um Assassinato no Expresso do Oriente, só que no apocalipse gelado, que o piloto tinha deixado. É torcer para que continue nessa progressão.

Expresso do Amanhã – 1X02: Prepare to Brace (Snowpiercer – 1X02: Prepare to Brace, EUA – 24 de maio de 2020)
Showrunner: Graeme Manson (baseado no filme homônimo de Bong Joon-Ho e na graphic novel O Perfuraneve de  Jacques Lob, Benjamin Legrand e Jean-Marc Rochette)
Direção: Sam Miller
Roteiro: Donald Joh
Elenco: Jennifer Connelly, Daveed Diggs, Mickey Sumner, Alison Wright, Iddo Goldberg, Susan Park, Katie McGuinness, Sam Otto, Sheila Vand, Mike O’Malley, Annalise Basso, Jaylin Fletcher, Mark Margolis, Steven Ogg, Happy Anderson
Duração: 46 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.