Crítica | Expresso do Amanhã – 1X03: Access Is Power

  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios e do restante de nosso material sobre esse universo.

Podem falar o que quiser sobre Expresso do Amanhã, mas pelo menos as sequências que abriram e fecharam Access is Power mostram o enorme potencial que a série tem quando a estratificação social forçada pela estrutura de classes de um trem em perpétuo movimento sai dos bastidores e ganha o destaque que merece. E esse destaque, aqui, é um pequeno “frasco de vidro” que permite o trânsito entre classes que, afinal de contas, como Layton lembra à Josie nos segundo finais, logo antes do cliffhanger, são separadas “apenas por portas”.

É disso que a série precisa, ou seja, embrenhar-se nesse abismo sócio-econômico aparentemente intransponível para mostrar, com todas as brechas no sistema, que ele não é lá tão intransponível assim. Melhor ainda é que o caso policial que fica costumeiramente no foco principal da abordagem da série comandada por Graeme Manson ganha contornos cada vez mais intrigantes. Não se enganem, porém, pois ele continua sendo um artifício narrativo até maroto para impulsionar a série com algo familiar, mas a complexidade incremental do crime cometido, que, agora, passa a ser desmembrado em outros, notadamente o tráfico da droga kronole feita a partir do líquido usado para a animação suspensa que faz as vezes de prisão, com a revelação de mais um personagem nesses quebra-cabeças, o chefão das drogas disfarçado de faxineiro (ou seria o contrário?) Terrence, vivido pelo ótimo Shaun Toub, tornou o que antes parecia divorciado do que realmente interessa algo, ao contrário, revelador exatamente do maior problema que assola os últimos 3 mil sobreviventes da humanidade.

Chega ser desnorteador a forma como novas partes do trem são reveladas no episódio, tornando particularmente difícil a reconstrução mental da arquitetura que naturalmente o espectador faz na medida em que assiste a série, mas a grande verdade é que a direção de arte é cuidadosa e, aqui, a direção de Sam Miller mais uma vez consegue imprimir uma cadência que atrai a atenção. Claro que a mecânica dessa coexistência confinada no que não é nada mais do que um gigantesco corredor único separado por portas talvez não resista a uma análise mais detida, mas que série ou filme realmente consegue manter-se de pé com esse escrutínio todo, não é mesmo? O que interessa é que a lógica interna macro vem funcionando a contento e o crime, agora, é elemento fundamental tanto para a toda-poderosa Melanie e sua necessidade de manutenção de equilíbrio sobre os trilhos quanto para Andre e seu plano de longo prazo para uma revolução realmente eficiente.

No entanto, esses mesmos personagens, tão importantes para a série, precisam ganhar mais nuanças. Pelo momento, Melanie é definida por seu segredo que apenas os espectadores sabem, além de dois ou três gatos pingados lá na locomotiva. Ela é o Sr. Wilford. Tudo bem, ok. Mas o que isso realmente significa para além de um mistério aparentemente sem maiores consequências práticas? E como ela chegou até esse ponto, considerando que ela parece ser – ou ter sido – mãe?

Andre tem mais problemas ainda. Seu passado parece ser substancialmente by the book e, portanto, desinteressante. Seu presente, por sua vez, é definido por ele ser um detetive e, secretamente (pelo menos em tese), o líder de uma revolução. A dificuldade de conexão dele com seu pessoal na cauda do trem torna essa sua função escondida algo esporádico, que não tem como ser explorada de verdade para além de momentos off camera em que ele consegue o que quer, expediente que já ficou cansativo, assim como suas dúvidas sobre sua esposa e sobre o que sente por Josie.

Talvez a chave seja o desmembramento da história em mais núcleos, algo que não foi tentado de verdade até agora e que tem sobrecarregado Andre e Melanie. Afinal, se pensarmos em retrospecto, tudo o que tivemos foram vislumbres da insuportável família Folger que, aqui nesse episódio, ganha até um pouco mais de relevância e a aparente conexão da filha do casal com o crime (ou pelo menos com aquele assassino do cliffhanger) e da vida privada da brakeman Bess Till. É, obviamente, muito pouco para quebrar a barreira de figurantes de luxo que parece ser uma praga que infectou todo o elenco, menos a dupla protagonista e talvez, com algum esforço, Josie e Miles.

Tenho para mim, porém, que o showrunner chegará lá. O que vimos até agora, só para usar uma metáfora condizente, parece mais aqueles momentos iniciais da partida de uma locomotiva do velho oeste: lenta, barulhenta, mas certeira, a cada segundo ganhando mais velocidade. Basta que nós, passageiros nessa viagem, tenhamos paciência para apreciar a jornada.

Expresso do Amanhã – 1X03: Access Is Power (Snowpiercer – 1X03: Access Is Power, EUA – 31 de maio de 2020)
Showrunner: Graeme Manson (baseado no filme homônimo de Bong Joon-Ho e na graphic novel O Perfuraneve de  Jacques Lob, Benjamin Legrand e Jean-Marc Rochette)
Direção: Sam Miller
Roteiro: Lizzie Mickery
Elenco: Jennifer Connelly, Daveed Diggs, Mickey Sumner, Alison Wright, Iddo Goldberg, Susan Park, Katie McGuinness, Sam Otto, Sheila Vand, Mike O’Malley, Annalise Basso, Jaylin Fletcher, Steven Ogg, Happy Anderson, Shaun Toub
Duração: 46 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.