Crítica | Expresso do Amanhã – 1X06: Trouble Comes Sideways

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Trouble Comes Sideways seria o típico episódio focado em ação e tensão que esquece completamente a linha narrativa principal se Expresso do Amanhã fosse uma série “normal”. Mas acontece que não é exatamente trivial fazer algo nessa linha em uma obra que se passa em um espaço confinado e estreito que se move o tempo em alta velocidade e cujas excursões para o lado de fora são próximas do impossível.

Tendo todas as essas limitações, o roteiro de Aubrey Nealon e Tina de la Torre se contorce para criar um problema aleatório de manutenção que leva alguns vagões a ficarem “bambos”, o que ameaça descarrilar o Perfuraneve em determinada altura de seu percurso, em uma ponte atravessando um canyon. Gostei que foi um problema de “idade e uso” do trem e não alguma sabotagem ou algo do gênero, pois isso abriu espaço para que a peça final – até agora – sobre as misteriosas gavetas criogênicas passassem a fazer sentido, assim como as atitudes ambivalentes de Melanie.

Mesmo sendo dura e tirânica para manter a frágil harmonia nesse caldeirão de classes em ebulição, ficou evidente ao longo dos episódios que ela tem sentimentos e realmente parece querer proteger a população, seja de qual classe for. Sim, ela secretamente absolveu a assassina LJ, mas seu objetivo foi impedir um problema maior em sua visão, que seria uma espécie de revolução aristocrática. Ela prefere lidar com as consequências de baixo para cima, como a vemos no começo do episódio furiosamente abafando uma ameaça de greve que vai realmente por terra com a ameaça física ao trem (é conveniente demais talvez, eu sei, mas funcionou para mim).

Mas Melanie é uma só e se de um lado ela tem que lidar com as questões diplomáticas do bólido gelado, de outro ela tem que arregaçar as mangas e literalmente consertar os mais graves problemas como o que acontece no episódio e que exige que ela esgueire-se pelo frio absoluto na parte de baixo do trem, com sua cabeça a poucos centímetros dos trilhos. De certa forma, é um pouco demais para uma pessoa só e o desgaste do trem parece refletir o desgaste física da personagem, o que talvez explique seu recrutamento do jovem Miles ao final.

Além disso, Melanie é, obviamente, o foco da ira de Layton, agora razoavelmente recuperado de seu sono profundo e preparado para matá-la. A revelação da verdadeira função das gavetas, como uma arca para garantir a sobrevivência da raça humana (não sei, mas só 400 pessoas pessoas me pareceu pouco para assegurar a variedade genética, mas não sou cientista…), é interessante em um contexto amplo, mas difícil de se ser medida nesse momento como algo que possa impulsionar a trama mais para a frente. Afinal, o que exatamente Layton pode fazer com essa informação? Sim, ele precisa investigar para descobrir se essa é toda a verdade, mas, se for, revelar a circunstância para todo os habitantes do trem parece-me uma temeridade pelo histerismo que isso geraria. Com isso, em tese, ele teria que se alinhar à postura ditatorial de Melanie, o que o coloca – e a própria série, se pensarmos bem – em uma sinuca de bico bem complicada.

A direção de Helen Shaver soube espremer bem o limão que lhe foi entregue pelo roteiro naturalmente limitado. Tudo bem que os momentos de tensão debaixo do trem foram para lá de clichê – em séries e filmes de ação é sempre um fio que separa a salvação da tragédia, impressionante! -, mas a execução técnica foi muito boa, com uma montagem paralela para a recuperação de Layton na clínica da Dra. Pelton e para a conexão hesitante entre Till e Oz no que eles achavam que eram seus momentos finais, além da projeção de imagens do exterior para os fundistas que realmente prende a atenção pela decupagem esperta e pela economia visual que marca a série.

Agora que Layton está completamente de volta e, não só isso, junto a Josie (coitada da moça que teve que trocar de lugar com ela…) e, mais ainda, Melanie sabe disso – ou de parte disso – a temporada parece preparar seus momentos finais. Existe tensão nas duas pontas do trem, mas a sobrevivência de todos consegue crivelmente sobrepor-se a tudo quando necessário, o que me leva a crer que uma tragédia se avizinha…

Expresso do Amanhã – 1X06: De Onde Menos Se Espera (Snowpiercer – 1X06: Trouble Comes Sideways, EUA – 21 de junho de 2020)
Showrunner: Graeme Manson (baseado no filme homônimo de Bong Joon-Ho e na graphic novel O Perfuraneve de  Jacques Lob, Benjamin Legrand e Jean-Marc Rochette)
Direção: Helen Shaver
Roteiro: Aubrey Nealon, Tina de la Torre
Elenco: Jennifer Connelly, Daveed Diggs, Mickey Sumner, Alison Wright, Iddo Goldberg, Susan Park, Katie McGuinness, Sam Otto, Sheila Vand, Mike O’Malley, Annalise Basso, Jaylin Fletcher, Steven Ogg, Happy Anderson, Shaun Toub
Duração: 46 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.